sábado, 23 de novembro de 2024

Drones: projeção de poder e mundos possíveis

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Os conflitos na Ucrânia, na Palestina e no Líbano, provaram ao mundo, que a guerra moderna, seja ela travada em trincheiras, seja nos mares, seja nas cidades, é diferente daqueles que vimos até o século XX. Na guerra moderna os sistemas automatizados, equipamentos controlados remotamente à distância, versáteis e furtivos, como os drones, estão conquistando espaço e são fundamentais no campo de batalha, para uma finalidade de meios e aplicações. Isso não significa que a infantaria tenha perdido sua importância; ela continua indispensável para atacar, ocupar e manter o terreno. No entanto, sem o apoio de drones, as tropas em solo e os equipamentos militares no campo de batalha tornam-se vulneráveis e podem até mesmo se tornar obsoletos. Em guerras que, independentemente do ambiente, dependem cada vez mais de sistemas que proporcionem consciência situacional, os diversos tipos de drones são fundamentais para missões de ataque, transmissão de informações e codificação de dados.  

Para russos, ucranianos, israelenses e até mesmo para o Hamas, na Faixa de Gaza, o comando e o controle das operações, no campo de batalha, mudaram e agora grupos de assaltos são acompanhados por drones. Exemplos na Guerra da Ucrânia não faltam e na Palestina, o Hamas, também empregou drones no ataque de 7 de outubro de 2023, enquanto os drones israelenses continuam a sobrevoar o território da Faixa de Gaza e o Hezbollah ataca forças israelenses com drones, ao longo da fronteira no sul do Líbano. Para todos os casos, drones são usados em tarefas de vigilância, localização e designação de alvos, empregados, por fim, em ataques às posições de artilharia inimiga, em verdadeiras caçadas aos combatentes em terreno e contra equipamentos militares e infraestruturas civis.

Além de maior consciência situacional e precisão nos ataques, os drones possibilitam projeção de poder a longas distâncias. O emprego de drones na Guerra da Ucrânia, consiste num exemplo evidente da projeção de poder aéreo nas profundezas territoriais, tendo visto que drones russos e ucranianos conseguem furar defesas aéreas e atingir alvos no interior de ambos os países. O contra-ataque iraniano do dia 13 de abril, em resposta ao ataque israelense a sua embaixada na Síria, também corrobora com a ideia que estamos entrando na era dos ataques do tipo enxame, com emprego de ações coordenadas entre vários drones em situações de conflito, entre Estados-nacionais, mas também, por grupos armados diversos de diferentes matizes. Nesse âmbito, o Hezbollah, em junho de 2024, divulgou um vídeo feito por um drone da organização, que conseguiu adentrar dezenas de quilômetros no interior de Israel e além de monitorar áreas sensíveis, como a Base Naval de Haifa, acenou que poderia atacar pontos vitais no interior de Israel sem maiores empecilhos.

Os drones desempenham um importante papel na guerra de armas combinadas, empregada com uso de mísseis e drones, cujo o campo de batalha, já não é mais uma linha de contato entre dois exércitos, mas uma ampla área que recobre milhares de quilômetros e inclui uma série de camadas atmosféricas. Neste cenário de combate cada vez mais extenso, os russos estão dronificando bombas não guiadas, de pouca precisão, conhecidas como “bombas burras”, por meio da acoplagem de dispositivos planadores guiados que funcionam por geolocalização e a partir dessa nova técnica, utilizando bombas de até três mil toneladas (Bombas FAB-3000) em ataques contra o interior da Ucrânia. Os ataques realizados à considerável distância por aeronaves russas, do tipo SU-34, são feitos por bombas que seguem uma rota de coalizão e podem ser ajustados ao alvo de impacto remotamente.

Os ucranianos, por seu turno, também estão desenvolvendo seus dispositivos e além dos drones navais, de grande impacto na guerra marítima travada no Mar Negro, criaram muitos outros dispositivos eficientes na guerra terrestre. Destaque, em particular, para o drone Baba Yaga, descrito como um “drone bombardeiro vampiro”, apelido em referência à criatura mitológica eslava, Baba Yaga, uma espécie de bruxa sobrenatural que algumas vezes é traduzida no Ocidente, também como Bicho Papão. Na verdade, um drone de pequenas dimensões, capaz de carregar cargas explosivas maiores que o seu diâmetro e mais pesadas que a massa do drone, temido por soldados russos no campo de batalha.

Outra inovação, em matéria de drones empregados pelos ucranianos, foi posto em ação no segundo semestre de 2024. Essa nova arma, diferente de todos os demais modelos de drones desenvolvidos até então, foi apelidado de Drone Dragão, tendo em vista que consiste numa espécie de lançador de chamas aéreo, que literalmente cospe fogo de cima para baixo, em posição vertical. Estes drones amplamente utilizados por Kiev, são empregados com o propósito de queimar áreas verdes e florestas, afim de evitar a formação de esconderijos para soldados e equipamentos russos. Para isso, as aeronaves utilizam uma substância altamente incendiária chamada térmita para colocar fogo na vegetação. Os russos, embora não tenham tido inicialmente a mesma criatividade dos ucranianos com uso de drones lançadores de chamas, agora também estão aplicando os seus protótipos em campo de batalha.

Não só uma tendência, mas uma realidade do espaço de batalha tridimensional, repleto de armas de fogo, de sensores e equipamentos virtuais, com os drones e uma gama de dispositivos, o campo de batalha passa a ser um holograma virtual, em que as camadas atmosféricas são ambientes atmosféricos de combate povoados com drones e outras aeronaves.

Do teatro de guerra em trincheiras ou nos oceanos, na guerra urbana, também, os drones estão se destacando, sendo empregados, além de missões de ataque, em operações de reconhecimento em ruas, na identificação de emboscadas e na busca de fortificações ou até mesmo em operações de infiltração em esconderijos, bases e túneis inimigos. Assim, o uso de drones para múltiplas tarefas, no campo de batalha, inscreve uma mudança de paradigma do combate, em que o controle do espaço, por sistemas vigilância e de armas combinadas, representam um importante papel na doutrina militar e na estrutura organizacional de operações militares, cujo o controle do espaço de batalha, enquanto conteúdo e forma, de um espaço multiverso, é cada vez mais fundamental. Nesse cenário de operações, as ações de combate ocorrem e são coordenadas entre o espaço subterrâneo de bunkers e túneis e o espaço aéreo, repleto de sistemas de vigilância interconectados. O sucesso na guerra depende do controle tridimensional do campo de batalha, em uma disputa por volumes — do ciberespaço ao bunker mais profundo —, em vez de uma simples conquista territorial.

Todavia, para alento da humanidade, mesmo na era do capitalismo tecnológico, nem todos os usos de inovações tecnológicas são voltados para a guerra e controle disciplinar da sociedade. Embora os drones sejam convencionalmente associados às práticas e operações no meio militar, eles também possuem muitos usos civis e podem, muito bem, ser reconceptualizados e empregados numa verdadeira “reimaginação coletiva”, com usos solidários e fins pacíficos como parte de uma mudança operativa na política atmosférica. O espaço aéreo e a manipulação de ambientes atmosféricos são uma questão em disputa, envolvendo as tecnologias e os mundos que podem vir a ser construídos e reivindicados por atores não hegemônicos, que estão a lutar contra a atual ordem global.

Outros usos e políticas espaciais não violentas através do emprego de drones são possíveis. Kaplan (2020), por exemplo, mostra que o uso de drones por “jornalistas amadores” ou “testemunhas civis”, para denunciar o uso da violência estatal contra a população, em movimentos de protesto, estão a enfrentar a dronificação militar do espaço aéreo e dispostos a criar novas possibilidades de uma política atmosférica mais humana e não necessariamente voltada para a guerra. Os drones são a nova fronteira de disputa entre os propósitos coletivos de uso das tecnologias, em benefício de uma maioria e os usos destrutivos da geopolítica hegemônica do mundo capitalista. Independente da forma de conceptualização dos drones que está se impondo, o futuro não foi escrito e ainda há um mundo de possibilidades com uso dos drones em favor da humanidade.


KAPLAN, Caren. Atmospheric politics: protest drones and the ambiguity of airspace. Digital War, v. 1, p. 50-57, março. 2020.

*Este texto consiste num fragmento do livro "Guerra dos drones: análise e perspectiva do campo de batalha" em fase de finalização. 

**Leia também "Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro". Adquira o seu livro pelo link:
https://loja.editoradialetica.com/humanidades/espaco-de-batalha-e-urbicidio-na-cidade-do-rio-de-janeiro 

domingo, 20 de outubro de 2024

365 dias de combate em Gaza e a guerra no Líbano

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Após um ano de conflito entre as forças israelenses e os grupos palestinos na Faixa de Gaza, a destruição completa do espaço urbano deixa claro que Israel visou o espaço urbano com o propósito de destruir a estrutura urbana que ampara e sustenta a vida da população que ali vive, sejam eles, combatentes ou civis. O urbicídio como método de guerra para destruir o ambiente urbano que permite uma resistência baseada na cidade, foi então, empregado como poucas vezes se viu, na história recente, de tal forma, que nessa altura, mesmo os maiores defensores da narrativa de combate ao terrorismo, teriam dificuldade de esconder o genocídio praticado por Israel contra mulheres e crianças palestinas indefesas, assassinadas aos milhares.

Embora a história e o conflito atual entre israelenses e palestinos demonstre, que ambos os lados estão agindo com o propósito de modelar o espaço urbano para abrir caminho para operações militares, para assim atingir o inimigo severamente. É fato, que neste momento, Israel está mais próximo de desferir um ataque fatal, do que o Hamas ou o Hezbollah, de conquistar uma vitória militar que seja realmente impositiva aos israelenses. O cenário atual, com a decapitação das principais lideranças do Hamas e do Hezbollah, além de ser um significativo golpe político na resistência armada ao sionismo, demonstra uma certa fragilidade do Eixo da Resistência sob liderança do Irã.

Nesse sentido, se o Hezbollah e principalmente o Hamas, na Faixa de Gaza, demonstraram muita resiliência para enfrentar um inimigo inegavelmente muito superior militarmente. Agora, o Hamas, totalmente cercado e significativamente deteriorado após meses de combate e resistência ferrenha, demonstra também, esgotamento de seus recursos, tanto em meios materiais quanto humanos. É verdade, que no combate corpo a corpo pelas ruas e pelos escombros de Gaza, os combatentes palestinos ainda são capazes de causar danos, sobretudo a contar com o uso de lançadores portáteis de granadas e com o fator surpresa no ambiente urbano. Por outro lado, o avanço de Israel no terreno e não menos relevante a diminuição de ataques palestinos por meio de foguetes contra o solo israelense, deixam, também claro, que as capacidades de combate dos grupos palestinos de enfrentar Israel está se deteriorando.

Todos sabemos, que os insurgentes palestinos, eram incapazes de efetuar uma guerra prolongada contra Israel em terreno aberto, por isso, procuraram atrair as forças israelenses para o interior de Gaza e assim impor uma derrota militar aos invasores. Por meio de ações combinadas de guerrilha e guerra de atrito, as táticas dos grupos palestinos se baseiam em preparação do terreno, com a elaboração de armadilhas e abrigos subterrâneos, os conhecidos túneis, que foram e ainda estão sendo muito empregados em operações de ataque, na retaguarda do inimigo, provocando muitas baixas as tropas israelenses. 

Contudo, o prolongar do conflito e cerco em Gaza, com apoio estadunidense que abastece Israel regularmente, implica em um desafio ainda maior, com Israel impondo uma destruição ampla e sistemática de toda a estrutura social e física no qual se apoia a vida da sociedade palestina – uma verdadeira aniquilação de Gaza. É claro, que no campo de batalha, ao entrar em Gaza e agora no Líbano, os soldados israelenses estão expostos aos ataques de seus inimigos em combate direto e sujeitos a emboscadas e ataques inesperados, de tropas bem treinadas. Dessa vez, israelenses não estão a lutar contra palestinos ou libaneses desarmados e sem treinamento militar adequado como foi em outros momentos. Com a presença prolongada de soldados israelenses no campo de batalha, em Gaza, na Cisjordânia ou no sul do Líbano, eles são alvos fáceis de guerrilheiros que conhecem o ambiente urbano das cidades palestinas ou o relevo acidentado do sul do Líbano, sendo o custo para eles, independente de toda superioridade tecnológica, sem dúvida, muito alto. Todavia, Israel pretende dobrar a aposta para afastar os grupos rivais de suas fronteiras e assim impor uma vitória duradoura na região, ainda que arrisque muitas fichas e fique na torcida para o Irã não se envolver diretamente na guerra. Israel hoje sabe que não pode vencer o Hamas ou o Hezbollah em combate corpo a corpo em ambiente urbano, mas sabe que pode destruir cidades e vilas palestinas e libanesas em uma grande extensão de destruição urbicida.

Por isso, mesmo que o Hamas e os demais grupos palestinos, a considerar os combates urbanos, tenham muito das vezes, vencido as tropas israelenses em solo, em matéria de combate direto. Os danos em Gaza infligidos por Israel são de tal magnitude, deixando o território sem condições de habitabilidade, ao provocar um total retrocesso social e econômico, tornando a resistência não só mais difícil, mas também, desastrosa para os civis que ali vivem.

O desenrolar do conflito e o futuro da resistência as ações de Israel agora implicam no envolvimento mais direto do Irã e num preço ainda mais alto, que não só palestinos e libaneses, mas iranianos, sírios e todo o Eixo da Resistência, precisa estar disposto a pagar para enfrentar Israel, se de fato quiser frear o seu avanço e impor uma derrota expressiva ao sionismo. Gaza diante do poder de Israel, com apoio econômico e militar dos Estados Unidos e com toda a negligência da ONU, não possui condições de resistir eternamente. Embora a luta palestina por sua existência já seja heroica, os palestinos precisam não só de apoio, mas de ajuda ampla e irrestrita. Daí a grande questão: até onde o Irã está disposto a se envolver no conflito?


                                                           

Nasrallah e Sinwar

(ex-líderes do Hezbollah e do Hamas eliminados por Israel)

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Dronificação do crime em megacidades do Sul Global*

Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

Com a dronificação do espaço de batalha em diferentes cenários, os drones militares e de uso civil adaptados para combate, estão sendo cada vez mais empregados em ambiente urbano na Ucrânia, na Faixa de Gaza e em muitos outros lugares, em situações de guerra, mas também, como Ian Shaw (2016) observou, doravante, em ações de vigilância e policiamento ostensivo de significativos contingentes de população excedente que vivem em áreas urbanas e nas grandes metrópoles do planeta.

Embora os drones militares e sistemas de vigilância dronificados tenham sido primeiro implantados em espaços periféricos do planeta, em áreas tribais do Paquistão, Iêmen, Somália, Afeganistão e nos territórios palestinos ocupados, em suma territórios de disputa colonial, o seu uso é cada vez mais recorrente nos grandes centros urbanos com o propósito de controlar a população excedente do capitalismo. Um número cada vez maior de trabalhadores descartados do sistema de acumulação, são então, alvos das técnicas capitalistas contemporâneas de controle e vigilância aplicadas de cima para baixo, verticalmente no espaço, como parte de um programa de securitização da vida, que Ian Shaw (2016) chamou de “dronificação da violência estatal”.

Contudo, a dronificação e implantação de sistemas de vigilância e securitização da vida, não é restrita as ações do Estado e do policiamento ostensivo, comum em grandes centros urbanos do planeta. Em megacidades do Sul Global, como o Rio de Janeiro, traficantes de drogas já operam drones com propósitos de monitorar e vigiar a ação de grupos rivais ou da própria polícia no território controlado pelas facções. A nova fase de dronificação dos mecanismos de securitização conduzida por grupos ilegais vai além da simples e pura gestão da pobreza excedente por meio da intervenção estatal. Agora grupos de traficantes de drogas no Rio de Janeiro participam também da guerra urbana por meio do uso de recursos aéreos, acessando e controlando aeronaves não tripuladas. No Rio de Janeiro, essas facções usam drones adaptados para uso militar, por meio do qual vigiam a ação da polícia e de grupos rivais enquanto patrulham ruas e becos de favelas da cidade.

O baixo custo e a facilidade operacional dos drones, expandiu as fronteiras de uso dos drones militares dos campos de batalha no Leste Europeu e do Oriente Média ao espaço urbano do Sul Global. Dessa forma, os drones estão a povoar todas as esferas da vida e a constituir um importante mecanismo atmosférico de violência e vigilância vertical, que ao aplicar uma política de guerra e de segurança de cima para baixo, produzem efeitos cada vez mais sensíveis na vida daquelas pessoas que vivem em espaços segregados e de grande insegurança, comuns em favelas do Rio de Janeiro, onde seus moradores agora também estão sujeitos a ação violenta de drones controlados por grupos criminosos que sobrevoam sobre suas cabeças.


* O texto acima consiste em um trecho adaptado do livro em desenvolvimento, “Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha”, escrito por Márcio José Mendonça, em etapa de conclusão. O artigo foi fundamentado na reportagem do Fantástico: “Investigação mostra como militar da Marinha ajudou facção a armar drones no Rio de Janeiro”, exibida em 22 de setembro e disponível no portal do G1 através do acesso ao seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=yv8ZFOHYDFI&list=WL&index=438

 

Fonte: SHAW, Ian G.R. The urbanization of drone warfare: policing surplus populations in the dronepolis. Geographia Helvetica, v. 71, p.19-28, 2016.





segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Atmoterrorismo em Gaza: a guerra biológica de Israel contra os palestinos

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

22 de abril de 1915 marca o registro da primeira guerra de gás venenoso da história, quando nuvens de fumaça amarela subiram das trincheiras alemãs, em direção às divisões francesas, causando pânico na linha de defesa francesa. Era a guerra de trincheiras, fato conhecido da I Guerra Mundial e os soldados para sobreviver as circunstâncias do combate, precisavam evitar que seus corpos ficassem expostos aos ataques de artilharia e avanços das tropas no terreno. Por isso, viviam em meio ao esgoto e lama das trincheiras, escondidos em fortificações ou túneis do front de batalha. Atingir o inimigo em conflito direto havia se tornado uma tarefa mais difícil e as defesas construídas ou escavadas, às vezes, a poucos metros de distância uma da outra, dificultavam o avanço no terreno quando o inimigo podia ser esconder em estruturas que favoreciam a sua proteção e ofereciam posição privilegiada de defesa contra avanços de infantaria no terreno.

Não por acaso, valendo-se da observação dos conflitos no último século, Sloterdijk considera que “o século XX será lembrado como a era cujo pensamento essencial consistiu em atingir não mais o corpo, mas o ambiente do inimigo” (2009, p. 14, tradução livre). E, ao afirmar isso, ele ainda lembra Shakespeare, para enfatizar que se considera a vida de outra pessoa tomando o meio pelo qual ela vive. Dessa forma, Sloterdijk conclui, que se toma o ar pelo qual se respira e todo o ambiente indispensável à manutenção da vida, para privar o inimigo de um meio de sobrevivência. 

Na guerra moderna, se o “corpo do inimigo não pode mais ser liquidado com impactos diretos, em seguida, o atacante é forçado a tornar impossível a existência contínua do inimigo, por sua imersão direta em um ambiente inviável por um período suficientemente longo” (SLOTERDIJK, 2009, p. 15, tradução livre). Exemplo disso, foi, que ainda na I Guerra Mundial, os soldados entrincheirados tornaram-se inacessíveis a armas convencionais: daí Sloterdijk salientar a descoberta do ambiente como um meio pelo qual se pode fazer a guerra, usando gás venenoso, para atingir as tropas, afetando as condições físicas do ambiente e, por conseguinte, as funções vitais do inimigo. Ademais, ao operar ambientes artificiais, para atacar as fragilidades biológicas dos adversários, Sloterdijk (2009) verifica que a manipulação do ambiente age no sentido de criar uma modalidade de terrorismo atmosférico que assume a forma de assalto às condições de “vida ambientais”. Dessa maneira, a criação de ambientes artificiais para atingir os corpos e, mais precisamente, o sistema respiratório dos inimigos, ele chama de atmoterrorismo. Ataques químicos e biológicos estariam, portanto, inseridos nessa lógica, ao provocar a eliminação do inimigo a partir da manipulação das propriedades físicas e biológicas do ambiente.

Após 10 meses de conflito em Gaza, autoridades dos serviços de saúde palestinas dizem que a campanha militar de Israel em Gaza matou mais de 40  mil palestinos, a maioria deles civis, e expulsou de suas casas a maior parte da população de Gaza. Segundo reportagem da BBC, estima-se que mais de 330.400 toneladas de resíduos sólidos tenham se acumulado no território do enclave de Gaza durante os últimos oito meses de conflito entre Israel e as facções palestinas. Além disso, a destruição provocada pelos bombardeios israelenses levou os habitantes de Gaza a viverem entre esgoto e montanhas de lixo. Milhares de pessoas que fugiram da ofensiva de Israel em Rafah foram forçadas a viver em áreas abertas que haviam sido transformadas em aterros temporários de lixo, locais onde o cheiro emitido pelas toneladas de lixo não coletado e pelos corpos que foram deixados sob os escombros e que, no momento, são impossíveis de recuperar, produzem um cheiro insuportável de podridão que infesta o ambiente. 

Além dos bombardeios e incursões terrestres de Israel no território que provocaram a destruição da rede de esgoto e de abastecimento de água potável na região, mas também a destruição do sistema de saúde palestino em Gaza, os palestinos agora terão que enfrentar a guerra biológica de Israel: o poliovírus foi detectado em julho de 2024 em amostras ambientais em Khan Younis e Deir al-Balah. Pelo menos três crianças palestinas apresentaram sintomas de poliomielite, doença que havia sido erradica de Gaza, que por causa da destruição da infraestrutura do território e impedimento de entrada humanitária, ameaça se espalhar por campos de refugiados insalubres amontoados de pessoas malnutridas.

Capítulo dos mais dramáticos da nova fase da guerra em Gaza e do genocídio palestino, com uso calculado da destruição e cerco em Gaza, como instrumento de guerra para manipular o ambiente e assim estimular a proliferação de doenças infeccionas com o propósito de causar danos a população e aos combatentes palestinos. Entrincheirados em uma complexa e extensa rede de túneis subterrâneos a resistência armada palestina ainda consegue, de alguma forma, enfrentar as forças israelenses muito melhor equipadas. Não só o Hamas e os demais grupos palestinos, mas no grosso, toda a população palestina, que resiste com sua resiliência diante de meses de ataques indiscriminados, precisa ser quebrada por Israel, caso contrário, sua vitória no campo de batalha não é certa. Por isso os civis e a estrutura urbana de Gaza, muito além de danos colaterais, são alvo dos ataques de Israel de forma direta ou indireta. A cada um palestino morto pelos ataques diretos de Israel as agências de saúde palestinas estipulam ao menos outras três mortes indiretas, por conta da proliferação de doenças e da fome endêmica causada pelo cerco israelense, no primeiro genocídio televisionado do século XXI.

Faixa de Gaza 

Fontes:

SLOTERDIJK, Peter. Terror from the air. New York: Semiotext, 2009.

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy941j928lyo



segunda-feira, 22 de julho de 2024

“Soldados TikTok”: o uso do celular no campo de batalha


Prof. Dr. Márcio José Mendonça

O uso de celulares por combatentes no campo de batalha na guerra da Ucrânia mostrou ao mundo como os telefones móveis estão sendo gradualmente integrados aos sistemas de guerra moderno. O emprego de telefones móveis em operações militares, incentivou uma ampla gama de inovações tecnológicas e improvisos criativos feitos por combatentes, que ao serem amplamente utilizados por soldados e anônimos que vivenciam a guerra, in loco, tornaram evidente como a midiatização da guerra por meio dos telefones móveis estão organizando narrativas e experiências vividas nos campos de batalhas na era moderna das redes sociais.

No início da Guerra da Ucrânia chamou a atenção o fato dos telefones móveis serem amplamente usados com propósitos de espetacularização da guerra. A midiatização da guerra com uso, inclusive, de entretenimento, foi amplamente feita pelos soldados chechenos de Ramzan Kadyrov, chefe da República da Chechênia e aliado direto de Vladimir Putin, que usaram dos seus telefones móveis pessoais para divulgar nas redes sociais, em especial no TikTok, uma série de vídeos promocionais de suas ações no campo de batalha na Ucrânia com fins de propaganda militar em conformidade aos interesses de Moscou. O uso extensivo dos celulares em vídeos promocionais provocou inclusive comentários negativos de blogueiros pró-Ucrânia, ao evidenciar possíveis montagens feitas por Kadyrov e seus homens, tratando-se então de falsificações, já que em algumas imagens, eles atiravam a esmo em ruas e prédios, sem a presença de combatentes ucranianos. Por conta dessas ações e uso sistemático das redes sociais, os soldados chechenos foram apelidados (embora os ucranianos também o façam) na internet (“e a internet não perdoa, dizem os internautas”) de “soldados TikTok”.

Além do uso do telefone móvel para fins de propaganda militar, os celulares são usados em escutas telefônicas, ataques contra alvos, mapeamento de campos minados e uma variedade de propósitos pessoais. Nesse âmbito, é comum que soldados usem seus equipamentos pessoais para realizar tarefas de uso militar. Assim, um único equipamento pode desempenhar dupla função, de uso pessoal do soldado e de comunicação de combate, com a finalidade de preencher as lacunas de informação e comunicação da infraestrutura militar. De apenas um aparelho de celular um combatente pode acessar dados de geolocalização sensíveis e controlar ações de ataque ou monitoramento por meio do emprego de drones. Um exemplo claro, de combinação de usos civis e com propósitos de guerra tecnológico com uso dos telefones móveis.

Outro evidente caso de imbricação entre os meios de uso civil do celular com propósitos militares, foram observados com soldados da Força de Defesa de Israel, que procuraram informação em grupos de redes sociais como o Telegram e outros meios digitais, por meio dos seus celulares pessoais, logo após os ataques efetuados pelo Hamas, em 7 de outubro de 2023, com o intuito de obter informações e a localização dos combatentes palestinos que haviam cruzado o muro de separação e invadido os territórios ocupados por Israel, naquela ocasião. Para Horbyk (2022), o uso do celular integrado ao engajamento de meios militares, é um evidente exemplo de guerra híbrida, uma vez que, no campo de batalha, a guerra moderna é travada em parte como uso de ferramentas civis e de uso privado de forma combinada aos meios militares como instrumento de guerra digital e tecnológica.

No conflito entre Israel e os palestinos, ambos os lados, estão usando do celular com fins de propaganda e como sistemas integrados aos equipamentos militares na guerra urbana na Faixa de Gaza. Nesse conflito, gravações de vídeos feitos por combatentes, por meio de celulares, referindo-se diretamente do campo de batalha, são repercutidas na internet em inúmeras redes sociais, permitindo dessa forma o acompanhamento (quase) em tempo real das operações militares no campo de batalha. A difusão e ampla repercussão de vídeos de ataques contra civis e equipamentos urbanos referidos diretamente da Faixa de Gaza, estão sendo chamados, em particular, por Ualid Rabah*, de “primeiro genocídio televisionado da história”. Em virtude da amplitude da destruição e alto número de morte de civis palestinos no conflito, vídeos de crianças e mulheres atingidos por bombas e ataques indiscriminados são propagados e repercutidos na internet por meio de telefones móveis, sendo agora de conhecimento público, inclusive das autoridades das Nações Unidas, que pouco fazem, nesse campo, para garantir a proteção dos civis naquele conflito.

Ademais, além dos casos verificados no exterior, importa ressaltar que o uso de celulares na cobertura e repercussão de conflitos militares, não é, entretanto, exclusivo das guerras na Ucrânia ou na Palestina. Em grandes metrópoles e cenários extremamente urbanizados como o Rio de Janeiro, que não vivenciam uma guerra convencional ou conflito de alta intensidade, mas ainda assim, são marcados pela violência, medo e in-segurança urbana, uma espécie de “clima de guerra civil”, entre disputas de diferentes grupos armados, oferecem também registros audiovisuais notáveis capturados por telefones móveis que são repercutidos na internet por civis que vivem nessas localidades ou por forças armados envolvidas diretamente nos combates.

Um caso espetacular, também recente, foi registrado por um morador do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, em abril de 2024, que da janela de sua casa flagrou intenso tiroteio entre traficantes e policiais, com emprego do helicóptero militar da polícia contra as posições dos traficantes. Por tratar-se de área densamente povoada, por dano colateral, obviamente também, os ataques são contra as casas, ruas e becos das demais edificações da favela, espaços e ambientes da vida cotidiana de muitos que ali vivem e transitam diariamente. Mesmo assim, no vídeo, em tom tranquilo e apaziguador o morador diz: “Se alguém for descer para comprar pão, traz dois reais de pão para mim e três de mortadela para mim, por favor”**. Um retrato ilustrativo da banalização da violência em espaços segregados da cidade do Rio de Janeiro, em que a violência e ação de grupos armados, fazem parte do cotidiano de milhares de pessoas à mercê da violência de traficantes, grupos milicianos e das forças de repressão do Estado. 

De todas as maneiras, seja na Ucrânia, Palestina ou Rio de Janeiro, guardadas todas as diferenças, proporções e múltiplas relações ou variáveis, o uso de celulares por combatentes e civis têm permitido uma maior cobertura e compreensão situacional no campo de batalha, sendo recurso na guerra moderna indispensável, seja como elemento do ponto de vista da guerra eletrônica ou como equipamento de espetacularização da guerra. Embora os efeitos da midiatização da guerra e mudanças no campo de batalha, bem como, os novos efeitos psicológicos em civis e combatentes, com a introdução dos telefones moveis, em áreas de conflito, ainda demande mais trabalhos sobre o tema. O relevante ensaio feito por Horbyk (2022), com foco na Guerra da Ucrânia, além do nosso trabalho publicado recentemente sobre a guerra na Faixa de Gaza (Mendonça, 2024), fornecem um debate preliminar e talvez um caminho para trabalhos posteriores de maior vulto. 



* Presidente da FEPAL - Federação Árabe Palestina do Brasil. 

** Vídeo disponível no Portal Mídia / TV Mídia no Youtube (26 de abril de 2024): https://www.youtube.com/watch?v=F6zSVQ20nsg


Fontes:

HORBYK, Roman. The war phone”: mobile communication on the frontline in Eastern Ukraine. Digital War, v. 3, s/p, dezembro. 2022. Link de acesso: https://www.researchgate.net/publication/364620136_The_war_phone_mobile_communication_on_the_frontline_in_Eastern_Ukraine

 

MENDONÇA, Márcio José. Guerra Urbana em Gaza: 100 dias de combate entre Israel e Palestina. Ensaios de Geografia. v. 11, nº 24, p.1-30, 2024. Link de acesso: https://periodicos.uff.br/ensaios_posgeo/article/view/61784

terça-feira, 2 de julho de 2024

Guerra urbana em Gaza

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Em recente artigo publicado pela Revista Ensaios de Geografia, analiso o emprego de táticas, tecnologias e abordagens de guerra urbana entre Israel e a resistência palestina, cuja principal facção é o Hamas, sitiada na Faixa de Gaza, ao longo de cem dias de combate, entre outubro de 2023 e janeiro de 2024. O trabalho consiste numa minuciosa avaliação dos combates urbanos na Faixa de Gaza e para efeito de estudo, o trabalho realiza uma abordagem dialética das trajetórias dos grupos armados em conflito no espaço urbano da Faixa de Gaza com o propósito de compreender as dinâmicas espaciais implicadas no espaço de batalha.

Dessa maneira, o artigo busca, por meio da análise comparativa de interpretação socioespacial/territorial do conflito, evidenciar as concepções de combate aplicadas no terreno a partir das táticas e formas de organização do território, bem como os respectivos meios militares empregados. Assim, o artigo evidencia que as dinâmicas espaciais dos grupos armados em disputa no território configuram o espaço de batalha ordenado por múltiplas camadas espaciais. Com enfoque nas táticas dos grupos em combate no espaço urbano da Faixa de Gaza, observa-se que Israel opera por meio do urbicídio, pratica que consiste na destruição deliberada do espaço urbano enquanto política de guerra. Por sua vez, os grupos palestinos, em sua luta insurgente, usam do ambiente urbano para organizar suas ações de resistência em situação de combate urbano.

Leia o artigo na integra acessando o link: https://periodicos.uff.br/ensaios_posgeo/article/view/61784

Cartoon de Osama hajjaj (disponível no Instagram)

 


domingo, 16 de junho de 2024

Tensões na geopolítica da Eurocopa 2024

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A maior competição de futebol da Europa iniciou no último dia 14 de junho. Com sede na Alemanha e com 24 equipes participantes, poucas vezes na história, o torneio foi alvo de tantas tensões e conflitos como a Eurocopa de 2024 promete. O esporte muitas vezes reflete o contexto social e o cenário geopolítico das nações envolvidas. O futebol, por exemplo, esporte mais popular do mundo, não foge à regra e pode muito bem ser o palco de aumento das tensões ou um importante instrumento de pacificação dos conflitos.

Para compreender o cenário que envolve a Eurocopa de 2024, basta um breve olhar sobre as nações no tabuleiro da geopolítica europeia dos últimos tempos, começando pelo antigo barril de pólvora dos Balcãs. A região foi o estopim da Primeira Guerra Mundial quando o arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria, herdeiro ao trono austro-húngaro, foi assassinado em 1914 na cidade de Sarajevo. Não muito diferente do início do século passado, a região nas últimas décadas, vive em frequente ebulição desde a desagregação da Iugoslávia. No final dos anos 1980, a morte do Marechal Josip Broz, conhecido como Tito, um líder popular e importante figura da unidade nacional iugoslava, que reunia sérvios, croatas, bósnios, eslovenos, albaneses, macedônios e montenegrinos, numa mesma identidade nacional de uma frágil colcha de retalhos de uma federação de repúblicas, que compunham a Iugoslávia. Foi acompanhada de uma acentuada crise no regime socialista no Leste Europeu, assim, o súbito colapso das repúblicas iugoslavas rapidamente evoluiu para uma Guerra Civil que deixou além de 140 mil mortos, profundas feridas nos povos da península balcânica e fronteiras indefinidas na região.

Após dez anos de conflitos recheados com períodos de maior violência e breves calmarias, vividos entre 1991-2001, durante a Guerra Civil Iugoslava. O mapa da região mudou totalmente e a grande Iugoslávia desapareceu por completo dando origem a pequenos Estados (Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Montenegro e Kosovo). No entanto, disputas territoriais continuam em pauta e as rivalidades após anos de uma paz velada, estão novamente a flor da pele na região. A Sérvia, principal força político e militar da ex-Iugoslávia, se julga vítima da agressão do Ocidente, com apoio da OTAN, que levou ao seu enfraquecimento regional e perda de territórios. Nesse âmbito, o arrastar da fragmentação da Iugoslávia com o último desmembramento do Kosovo, de maioria albanesa, mas com uma importante minoria sérvia, é outro exemplo do aumento das tensões na região e um reflexo que o conflito está longe do fim. A Sérvia não reconhece até hoje a independência do Kosovo e responsabiliza o Ocidente, por interferência da OTAN, entenda-se Estados Unidos e seus principais aliados europeus, por atuar na região contra os sérvios, antigos aliados dos russos, estimulando e apoiando movimentos separatistas nacionalistas com o propósito de enfraquecer a hegemonia regional dos sérvios nos Balcãs, o que fatidicamente culminou com o fim da Iugoslávia.

No novo mapa da região balcânica, os sérvios viram sua fronteira mudar de lugar por mais de uma vez e o seu país mudar de nome sucessivamente ao longo dos últimos anos. Um exemplo das mudanças repentinas que os sérvios tiveram que enfrentar pode ser vista, de forma ilustrativa, no caso do ex-jogador de futebol sérvio, Dejan Stankovic, que por conta das frequentes mudanças de nome de seu país, foi o único futebolista da história a disputar três Copas do Mundo por três países diferentes (figura abaixo).


Futebol Mil Grau (Facebook)

E as tensões prometidas para a Eurocopa de 2024 já vieram à tona, hoje, 16 de junho, três dias apenas após o início da competição. O problema ocorreu entre torcedores da Sérvia, da Albânia, e da Inglaterra (os famosos hooligans), que entraram em confronto na cidade alemã de Gelsenkirchen quando acompanhavam a partida da Sérvia contra a Inglaterra. Como vimos as rivalidades entre as nações balcânicas remonta aos conflitos étnicos dos Balcãs e problemas ainda maiores são prováveis de ocorrer nessa Eurocopa, nas próximas partidas, no jogo em que a Croácia enfrenta a Albânia, no próximo dia 19 de junho, e a Sérvia encara a Eslovênia, na sequência, na data de 20 de junho.

Exemplos de hostilidades entre nações da antiga Iugoslávia são frequentes em competições esportivas. Em 2018, durante a Copa do Mundo, na Rússia, muitos devem se lembrar, os jogadores da Suíça Xhaka e Shaqiri, celebraram a virada por 2-1 contra os sérvios, cruzando as mãos e entrelaçando os polegares (figura abaixo). O sinal foi uma referência à águia que integra a bandeira da Albânia, país que reconhece e apoia a existência do estado de Kosovo. Para os jogadores, a atitude tem explicação em suas famílias. Os pais de Xhaka fugiram da região dos Balcãs durante a Guerra Civil Iugoslava. Já Shaqiri, por sua vez, nasceu em Gjilan, município que pertence atualmente ao Kosovo, de maioria albanesa, mas foi com seus pais para a Suíça por causa da guerra na região.

Xhaka comemora gol contra a Sérvia fazendo alusão à bandeira da Albânia, na Copa do Mundo de 2018, na Rússia (internet)

As tensões para a Euro2024 não param por aí. O conflito no Leste Europeu, entre Ucrânia e Rússia, é o mais mortífero da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial e pode arrastar toda a Europa para uma guerra mundial envolvendo não só os europeus, mas os Estados Unidos também, que financiam e apoiam diretamente os ucranianos por intermédio da OTAN. A Rússia está suspensa de competições oficiais da FIFA e UEFA, o que explica sua ausência da Eurocopa, mas os ucranianos se classificaram para a competição e sua presença implica em um grande aparato de segurança e aumento das tensões. Não que os russos planejem um atentado, mas a presença ucraniana em detrimento da exclusão russa das competições, de forma unilateral, expressa a tentativa de usar da competição com fins políticos, fato que os russos se queixam acusando a mídia Ocidental de manipular a opinião pública.

Manifestações políticas durante a Eurocopa podem ocorrer e são esperadas por conta da Guerra na Ucrânia e do conflito na Faixa de Gaza, com o genocídio palestino em curso que a mídia corporativa tenta esconder. Mas isso não é tudo, a ascensão de partidos de extrema direita, ligados a grupos neofascistas na Alemanha, sede do torneio, na França, na Espanha, em Portugal e outros países, são outro elemento a colocar mais pimenta no caldeirão europeu no decorrer da competição. Futebol e política andam junto na Euro2024. 



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