quinta-feira, 4 de junho de 2026

Geopolítica da Copa: Estados Unidos

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A Geopolítica, enquanto campo de análise das relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, pode ser observada não apenas em conflitos e disputas econômicas, mas também em grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo FIFA. Muito além de uma competição esportiva, a Copa do Mundo se configura como um espaço estratégico de projeção de poder, imagem e influência no cenário global, reunindo nações em torno de interesses que ultrapassam o futebol.

Ao sediar o evento, países buscam afirmar sua relevância política, econômica e cultural, utilizando a visibilidade internacional para atrair investimentos, fortalecer o turismo e consolidar sua posição no sistema mundial. Nesse sentido, a Copa do Mundo também evidencia desigualdades regionais, tensões políticas e disputas simbólicas, tornando-se um palco onde questões geopolíticas se manifestam de forma indireta, mas significativa.

Assim, compreender a relação entre geopolítica e Copa do Mundo permite analisar como o esporte pode ser instrumentalizado como ferramenta de poder e diplomacia, revelando que, por trás dos jogos e das torcidas, existem interesses estratégicos que dialogam com a dinâmica das relações internacionais contemporâneas.

Com foco na relação entre geopolítica e futebol, no especial “Geopolítico da Copa”, trataremos de uma série de assuntos que versam sobre as narrativas, paixão, identidade e instrumentalização do futebol com propósitos geopolíticos.

 

O caso americano

O cenário geopolítico global contemporâneo é marcado pela crescente disputa entre os Estados Unidos e potências emergentes como a China e a Rússia. Após décadas de predominância norte-americana no período pós-Guerra Fria, observa-se uma gradual redistribuição do poder internacional, impulsionada pelo fortalecimento econômico, tecnológico e militar desses países. A ascensão chinesa como principal rival estratégica dos EUA e a atuação da Rússia em diferentes áreas de influência têm contribuído para a formação de uma ordem internacional cada vez mais multipolar, na qual diferentes centros de poder disputam protagonismo e capacidade de influência sobre os rumos da economia e da política mundial. Diversos analistas apontam que esse processo evidencia um relativo enfraquecimento da capacidade dos Estados Unidos de exercer uma hegemonia incontestável sobre o sistema internacional.

Diante desse contexto, os Estados Unidos têm buscado preservar sua posição de liderança global por meio de estratégias diplomáticas, econômicas e militares voltadas à contenção de seus principais concorrentes geopolíticos. As recentes tensões envolvendo o Irã e as ações norte-americanas na Venezuela foram interpretadas por diferentes especialistas como parte de uma estratégia mais ampla de reafirmação de influência em regiões consideradas estratégicas, além de limitar a presença de Rússia e China nesses espaços. Ao mesmo tempo, tais acontecimentos revelam a intensificação da competição entre as grandes potências e reforçam os debates sobre os limites da hegemonia norte-americana em um mundo cada vez mais marcado pela multipolaridade e pela disputa por recursos, mercados, energia e áreas de influência.

É nesse cenário que a realização da Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos possui grande relevância econômica, política, cultural e diplomática. Do ponto de vista econômico, o evento deve atrair milhões de turistas, gerar investimentos em infraestrutura e impulsionar setores como transporte, hotelaria e serviços. Politicamente, a competição oferece uma oportunidade para os Estados Unidos demonstrarem sua capacidade de organização e liderança internacional, reforçando sua imagem perante a comunidade global. No aspecto cultural, o torneio amplia a projeção dos valores, da diversidade e da influência cultural norte-americana por meio da ampla cobertura midiática mundial. Já no campo diplomático, a recepção de delegações, líderes e visitantes de diversos países fortalece relações internacionais e amplia o chamado “soft power” do país. Em um contexto de crescente multipolaridade e de disputas com potências como China e Rússia, a Copa do Mundo pode ser interpretada como um instrumento estratégico de projeção de influência e de reafirmação da presença dos Estados Unidos no cenário geopolítico global.

Apesar de continuarem sendo uma das maiores potências econômicas do mundo, os Estados Unidos enfrentam importantes desafios internos que têm gerado preocupações sociais e políticas. Nas últimas décadas, o aumento da desigualdade de renda, o elevado custo de vida, a dificuldade de acesso à moradia em diversas cidades e a precarização de parte do mercado de trabalho contribuíram para o crescimento da pobreza e da insegurança econômica entre milhões de norte-americanos. Além disso, o aumento da dívida pública, os debates sobre gastos governamentais e as oscilações econômicas têm alimentado discussões sobre a sustentabilidade do modelo econômico do país.

Outro tema que tem provocado intensos debates é a questão migratória. Durante o governo de Donald Trump, foram implementadas políticas mais rígidas de controle das fronteiras e ampliação das deportações de imigrantes em situação irregular, medidas apoiadas por setores que defendem maior controle migratório, mas criticadas por organizações de direitos humanos e demais setores da sociedade estadunidense. Paralelamente, o caso envolvendo Jeffrey Epstein tornou-se um dos maiores escândalos da história recente do país, ao revelar uma extensa rede de exploração sexual e levantar questionamentos sobre a relação de figuras influentes da política que incluem Donald Trump, além de importantes nomes dos negócios e do entretenimento com o empresário. A repercussão do caso ampliou os debates sobre transparência, responsabilização das elites e confiança da população nas instituições norte-americanas, contribuindo para um ambiente de crescente polarização política e social.

Há poucos dias do início da Copa do Mundo, os Estados Unidos atravessam um período marcado por desafios simultâneos em suas dimensões interna e externa. Enquanto procuram reafirmar sua liderança global diante da ascensão de novas potências e das transformações da ordem internacional, o país enfrenta questionamentos sobre a solidez de suas instituições democráticas, o aumento da polarização política e as acusações de fortalecimento de práticas governamentais consideradas autoritárias por diversos setores da sociedade. Embora a realização da Copa do Mundo de 2026 represente uma importante oportunidade de projeção internacional e de fortalecimento do chamado poder brando (soft power) norte-americano, o evento ocorre em um contexto de crescente tensão social, marcado por protestos, disputas ideológicas e insatisfação de parcela da população com os rumos do governo. Dessa forma, a imagem de potência global projetada ao mundo contrasta com os desafios políticos, econômicos e sociais que colocam os Estados Unidos diante de um dos momentos mais complexos de sua história recente.

Imagem feita por I.A.


Geopolítica da Copa: Estados Unidos

Prof. Dr. Márcio José Mendonça A Geopolítica , enquanto campo de análise das relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, ...