segunda-feira, 13 de julho de 2026

Geopolítica da Copa: Argentina

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A Geopolítica, enquanto campo de análise das relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, pode ser observada não apenas em conflitos e disputas econômicas, mas também em grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo FIFA. Muito além de uma competição esportiva, a Copa do Mundo se configura como um espaço estratégico de projeção de poder, imagem e influência no cenário global, reunindo nações em torno de interesses que ultrapassam o futebol.

Ao sediar o evento, países buscam afirmar sua relevância política, econômica e cultural, utilizando a visibilidade internacional para atrair investimentos, fortalecer o turismo e consolidar sua posição no sistema mundial. Nesse sentido, a Copa do Mundo também evidencia desigualdades regionais, tensões políticas e disputas simbólicas, tornando-se um palco onde questões geopolíticas se manifestam de forma indireta, mas significativa.

Assim, compreender a relação entre geopolítica e Copa do Mundo permite analisar como o esporte pode ser instrumentalizado como ferramenta de poder e diplomacia, revelando que, por trás dos jogos e das torcidas, existem interesses estratégicos que dialogam com a dinâmica das relações internacionais contemporâneas.

Com foco na relação entre geopolítica e futebol, no especial “Geopolítico da Copa”, trataremos de uma série de assuntos que versam sobre as narrativas, paixão, identidade e instrumentalização do futebol com propósitos geopolíticos.

 

O caso argentino

O futebol ocupa um lugar central na identidade nacional da Argentina, sendo muito mais do que um esporte: trata-se de uma expressão cultural, social e política. Desde o início do século XX, os clubes de bairro tornaram-se importantes espaços de convivência e construção da identidade coletiva, aproximando diferentes classes sociais e fortalecendo o sentimento de pertencimento. Grandes ídolos, como Diego Maradona e Lionel Messi, transformaram-se em símbolos nacionais, representando o orgulho, a superação e a capacidade do povo argentino de alcançar reconhecimento mundial por meio do futebol.

Na esfera política, o futebol também desempenha um papel relevante na Argentina. Governos de diferentes períodos utilizaram o sucesso da seleção e dos clubes como instrumento de fortalecimento da identidade nacional e de mobilização popular. A conquista da Copa do Mundo de 1978, realizada durante a ditadura militar, exemplifica como o esporte foi associado ao discurso nacionalista e à projeção internacional do país. Ao mesmo tempo, o futebol sempre serviu como espaço de manifestações populares, críticas sociais e debates sobre democracia, desigualdade e memória histórica, revelando sua profunda ligação com a vida política e cultural argentina.

Muito além do futebol, a rivalidade entre Argentina e Inglaterra é uma das mais intensas da história das Copas do Mundo e ultrapassa os limites esportivos. Ela foi profundamente marcada pela Guerra das Malvinas, que intensificou o significado simbólico dos confrontos entre as duas seleções. Nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, a vitória argentina por 2 a 1 entrou para a história com os dois famosos gols de Maradona: o primeiro, conhecido como "A Mão de Deus", e o segundo, considerado um dos maiores gols de todos os tempos. Para muitos argentinos, aquele triunfo representou uma forma de afirmação nacional após a derrota militar de 1982, consolidando a rivalidade com a Inglaterra como um dos capítulos mais emblemáticos da história do futebol mundial.

Quarta-feira, dia 15, essa rivalidade volta à cena pelas semifinais da Copa do Mundo. A partida é encarada pelos torcedores, pela imprensa e pelos jogadores como muito mais do que um confronto esportivo: representa um novo capítulo de uma das maiores rivalidades da história do futebol mundial. Embalada por uma campanha de superação e pela confiança em seu elenco, a seleção argentina busca uma vaga na decisão do torneio e a oportunidade de escrever mais um momento memorável diante de um adversário que desperta lembranças históricas e intensas emoções, tanto pelo passado nos Mundiais quanto pelo significado simbólico que esse duelo possui para a identidade esportiva do país.

Fora de campo, há décadas a Argentina sofre com uma recorrente crise econômica caracterizada por altas taxas de inflação, desvalorização da moeda, aumento da pobreza, endividamento público e sucessivas dificuldades para retomar um crescimento sustentável. Esses problemas têm provocado impactos profundos no cotidiano da população, reduzindo o poder de compra, ampliando as desigualdades sociais e estimulando a emigração de muitos argentinos em busca de melhores oportunidades. Nesse contexto de instabilidade, o futebol adquire ainda maior importância como elemento de identidade nacional e de união coletiva, funcionando como um espaço simbólico onde a sociedade encontra momentos de esperança, orgulho e fortalecimento do sentimento de pertencimento.

E é justamente no confronto contra os ingleses, que mais uma vez, o futebol acende na sociedade argentina uma identidade de resistência, quando o argentino é obrigado a olhar para o seu próprio âmago, em vez de simplesmente repetir o discurso de formação histórica do chamado “mito racial argentino”, uma narrativa construída entre o final do século XIX e o início do século XX segundo a qual a Argentina seria uma nação predominantemente branca e de origem europeia. Essa ideia foi fortalecida por políticas de incentivo à imigração europeia e por discursos oficiais que minimizaram ou invisibilizaram a contribuição histórica dos povos indígenas, afro-argentinos e mestiços para a formação do país. Nas últimas décadas, entretanto, pesquisadores e movimentos sociais têm questionado esse mito, destacando a diversidade étnica e cultural da sociedade argentina e reivindicando maior reconhecimento das populações indígenas e afrodescendentes como parte fundamental da identidade nacional. O próprio Maradona, contra o discurso hegemônico de uma elite europeizada, já assumira publicamente em entrevista, que se enxergava como um mestiço. Disse Maradona certa vez: “Tenho sangue guarani, sou filho de correntinos”. 


Imagem feita por I.A.


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