Prof. Dr. Márcio José Mendonça
Ao
longo do século XX e início do XXI, os Jogos Olímpicos consolidaram-se não
apenas como um evento esportivo global, mas também como um palco privilegiado
de disputas geopolíticas. Durante a Guerra Fria, as tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética transformaram as medalhas em
símbolos de supremacia ideológica, científica e militar, evidenciando como o
esporte era mobilizado para afirmar modelos políticos antagônicos. Boicotes,
campanhas de propaganda e a instrumentalização do desempenho atlético revelaram
que as olimpíadas estavam longe de ser neutras. Na contemporaneidade, essa
dimensão política permanece evidente, como demonstra a atual proibição da
participação da Rússia nos Jogos de Inverno
de Milão-Cortina 2026, reforçando que,
mesmo sob o ideal de união entre os povos, o evento continua atravessado por
interesses estratégicos e conflitos internacionais.
A
proibição da Rússia em competições
internacionais em razão da invasão da Ucrânia
expõe o modo como sanções esportivas são mobilizadas como instrumentos de
pressão política. Contudo, essa medida também suscita debates sobre a coerência
e a universalidade desses critérios, uma vez que normas semelhantes não foram
aplicadas a outros Estados envolvidos em intervenções militares controversas
nas últimas décadas. Os Estados Unidos,
por exemplo, lideraram a invasão e ocupação do Iraque
em 2003 e do Afeganistão em 2001, ações
amplamente questionadas pela comunidade internacional. De modo semelhante, Israel enfrenta acusações de genocídio
relacionadas às operações militares na Faixa de
Gaza. A disparidade nas punições evidencia como o sistema esportivo
internacional, longe de operar em um vácuo político, reflete assimetrias de
poder e interesses geopolíticos que moldam a aplicação seletiva de sanções.
O exemplo dos
atletas russos de patinação no gelo é ilustrativo do problema. Os atletas foram diretamente afetados pelas sanções impostas
no contexto da guerra com a Ucrânia,
enfrentando suspensão de quatro anos das competições internacionais e
participação severamente limitada nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, com número reduzido de
representantes. Além disso, foram submetidos a restrições simbólicas e
institucionais, como a proibição do uso da bandeira nacional e da execução do
hino, bem como limitações técnicas que dificultaram a presença e a atuação de
seus treinadores nas competições. Para críticos dessas medidas, tais imposições
configuram uma manobra antidesportiva que penaliza atletas individuais por decisões
estatais, não atendendo a critérios humanitários ou pacíficos, mas refletindo
antes uma dinâmica de punição inserida nas disputas geopolíticas contemporâneas
e nos interesses das potências ocidentais.
O
caso da patinadora russa Adeliia Petrosian,
tricampeã nacional, tornou-se emblemático no debate sobre os impactos das
sanções esportivas, já que seu desempenho no programa longo vinha sendo
apontado por analistas como tecnicamente superior ao de suas concorrentes
internacionais. A exclusão de atletas russas das competições globais impediu
que ela disputasse títulos em igualdade de condições, diferentemente do que
ocorreu com suas compatriotas em ciclos anteriores, como Adelina Sotnikova, campeã olímpica em 2014, Alina Zagitova, campeã em 2018, e Anna Shcherbakova, protagonista e grande
vencedora em 2022. Todas elas dominaram o circuito internacional em suas
épocas, consolidando a hegemonia russa na modalidade. Petrosian, entretanto, ao
ser excluída das principais competições e submetida a restrições decorrentes
das punições impostas ao país, acabou prejudicada direta ou indiretamente,
vendo limitada a possibilidade de afirmar seu potencial técnico no cenário
olímpico.
Diante
desse cenário, os Jogos Olímpicos de Inverno de
Milão-Cortina 2026 evidenciam como o ideal de neutralidade esportiva é
tensionado por decisões que muitos interpretam como marcadas por seletividade e
interesses geopolíticos. A exclusão e as restrições impostas a determinados
países reforçam a percepção de que a imparcialidade proclamada pelo movimento
olímpico convive com práticas que podem ser compreendidas como formas de
perseguição política, revelando que, mesmo sob o discurso da paz e da união
entre os povos, o esporte internacional permanece profundamente atravessado
pelas disputas de poder do sistema global.

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