Prof. Dr. Márcio José Mendonça
A
Geopolítica, enquanto campo de análise das
relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, pode ser
observada não apenas em conflitos e disputas econômicas, mas também em grandes
eventos internacionais, como a Copa do Mundo FIFA.
Muito além de uma competição esportiva, a Copa do Mundo se configura como um
espaço estratégico de projeção de poder, imagem e influência no cenário global,
reunindo nações em torno de interesses que ultrapassam o futebol.
Ao sediar o evento, países buscam afirmar sua
relevância política, econômica e cultural, utilizando a visibilidade
internacional para atrair investimentos, fortalecer o turismo e consolidar sua
posição no sistema mundial. Nesse sentido, a Copa do Mundo também evidencia
desigualdades regionais, tensões políticas e disputas simbólicas, tornando-se
um palco onde questões geopolíticas se manifestam de forma indireta, mas
significativa.
Assim,
compreender a relação entre geopolítica e Copa do Mundo permite analisar como o
esporte pode ser instrumentalizado como ferramenta de poder e diplomacia,
revelando que, por trás dos jogos e das torcidas, existem interesses
estratégicos que dialogam com a dinâmica das relações internacionais
contemporâneas.
Com
foco na relação entre geopolítica e futebol, no especial “Geopolítico da Copa”,
trataremos de uma série de assuntos que versam sobre as narrativas, paixão,
identidade e instrumentalização do futebol com propósitos geopolíticos.
O caso iraquiano
Um
dos episódios mais emblemáticos da relação entre política autoritária e esporte
ocorreu durante o governo de Saddam Hussein,
especialmente envolvendo a seleção do Iraque na década de 1980. Desde que
Saddam assumiu a presidência em 1979, o Iraque vivia sobre um regime de controle
civil-militar presente em todos os departamentos e ministérios do governo,
inclusive acerca do esporte. Em 1986, em meio às tensões da Guerra Irã-Iraque, a equipe iraquiana enfrentou
a seleção iraniana e acabou derrotada pelo placar de 2 a 1. A derrota, mais do
que um resultado esportivo, foi interpretada pelo regime como uma afronta
política e simbólica ao país inimigo.
Como
consequência, os jogadores iraquianos teriam sido submetidos a punições severas
sob ordens de Uday Hussein, filho de
Saddam, que comandava o comitê olímpico iraquiano. Relatos apontam que atletas
foram presos, espancados e até torturados como forma de punição pela derrota,
evidenciando o uso do esporte como instrumento de controle e repressão
política. Esse episódio ilustra de forma extrema como o futebol, em
determinados contextos geopolíticos, pode ultrapassar o campo esportivo e se
inserir diretamente nas dinâmicas de poder e violência de regimes autoritários.
Mesmo
após a queda do regime de Saddam Hussein, em 2003, quando forças lideradas pelos Estados Unidos depuseram o governo sob a
justificativa de eliminar supostas armas de destruição em massa (nunca
encontradas). O fim do regime autoritário embora tenha gradualmente pavimentado
o caminho para um processo de redemocratização, marcado pela elaboração de uma
nova Constituição e pela realização de eleições, também foi marcado por forte
instabilidade. A ocupação estrangeira e a desestruturação do Estado
contribuíram para o surgimento de uma violenta guerra civil, especialmente
entre grupos xiitas e sunitas, aprofundando divisões internas. Nesse cenário de
fragilidade, emergiu o Estado Islâmico,
que chegou a controlar vastas áreas do território iraquiano a partir de 2014,
sendo posteriormente combatido por forças locais com apoio internacional.
Assim, o período pós-Saddam, não revela paz, mas um processo complexo, no qual
a tentativa de construção democrática conviveu com conflitos, intervenção
externa e desafios à soberania nacional.
Ainda
hoje o cenário político atual do Iraque é
marcado por profundas divisões internas e por uma soberania estatal
fragmentada, resultado de décadas de conflitos e intervenções externas. Embora
o país possua um governo formalmente eleito, sua autoridade é limitada em
diversas regiões, onde atuam milícias armadas ligadas a diferentes grupos étnico-religiosos,
como xiitas, sunitas e curdos. Muitas dessas forças, algumas integradas às Forças de Mobilização Popular, exercem controle
territorial e político próprio, frequentemente alinhadas a interesses externos,
como os do Irã, ou em disputa com a influência
dos Estados Unidos. Além disso, a região
autônoma do Curdistão Iraquiano mantém
forças de segurança próprias e alto grau de autonomia, reforçando a
fragmentação do poder. Nesse contexto, o Iraque enfrenta o desafio de
consolidar sua soberania nacional diante da atuação de múltiplos atores armados
que disputam poder, recursos e influência no território.
É
nesse sentido que o futebol aparece como elemento de uma estrutura frágil que
busca a unificação de uma identidade nacional. A classificação do Iraque para a Copa
do Mundo FIFA de 2026 representa mais do que um feito esportivo:
simboliza uma rara oportunidade de construção de unidade nacional em meio a um
cenário político fragmentado. Em um país historicamente marcado por divisões
étnicas, religiosas e disputas internas, a seleção nacional surge como um
elemento agregador, capaz de mobilizar sentimentos de pertencimento e identidade
coletiva entre diferentes grupos. O futebol, nesse contexto, funciona como
linguagem comum, criando um espaço simbólico onde rivalidades são
temporariamente suspensas em favor de um projeto nacional compartilhado. Assim,
a presença do Iraque na Copa pode fortalecer laços sociais e renovar a
esperança de coesão, ainda que momentânea, em torno de um ideal de nação.
Na
histórica classificação do Iraque para a Copa do Mundo FIFA de 2026, o atacante Aymen Hussein emergiu como protagonista dessa
história de um possível novo Iraque, representando superação e identidade
nacional ao marcar os dois gols na vitória por 2 a 1 sobre a Bolívia na
repescagem internacional, selando o retorno do país ao Mundial após 40 anos.
Mais do que protagonista em campo, Hussein carrega uma trajetória marcada pela
violência que atingiu o país: ex-refugiado, ele perdeu o irmão em ataques
ligados ao Estado Islâmico, experiência
que reflete o sofrimento de milhares de iraquianos nas últimas décadas. Nesse
sentido, sua figura transcende o esporte, representando a possibilidade de um
novo Iraque que busca reconstruir sua identidade e soberania, transformando dor
em esperança e projetando, através do futebol, um sentimento coletivo de
resistência, reconstrução e unidade nacional.







