Prof. Dr. Márcio José Mendonça
O “General Inverno”
tornou-se uma das figuras mais conhecidas do imaginário militar associado à
Rússia. A expressão sugere que o rigoroso inverno russo teria atuado como uma
espécie de comandante invisível, derrotando exércitos estrangeiros que se
aventuraram pelas vastas extensões do território russo. Ao longo da história,
essa interpretação ganhou força principalmente a partir de duas grandes
campanhas: a invasão da Rússia por Napoleão Bonaparte, em
1812, e a invasão da União Soviética pela Alemanha nazista, em 1941. O frio intenso, a neve, o
congelamento do solo e as dificuldades de deslocamento realmente produziram
efeitos devastadores, mas atribuir a derrota dos invasores exclusivamente ao
clima simplifica excessivamente processos militares muito mais complexos.
Na Campanha da Rússia de 1812,
Napoleão entrou no território russo com uma enorme força multinacional,
esperando obrigar o czar Alexandre I a negociar após uma grande vitória. Os
russos, entretanto, recuaram para o interior, evitando inicialmente uma batalha
decisiva e adotando também uma política de destruição ou retirada de recursos
que poderiam ser utilizados pelos franceses. Quando o exército francês finalmente
chegou a Moscou, encontrou uma cidade em grande parte evacuada e sem os
recursos necessários para sustentar um exército gigantesco. A demora de
Napoleão em obter uma rendição permitiu que o inverno se aproximasse, e a
retirada transformou-se em uma catástrofe marcada pela fome, doenças, ataques
russos, exaustão e temperaturas extremamente baixas.
Mais de um século depois, a história apresentou
algumas semelhanças durante a Operação Barbarossa,
iniciada pela Alemanha contra a União Soviética em junho de 1941. O avanço
alemão foi inicialmente extremamente rápido, mas a resistência soviética, a
enorme extensão territorial, os problemas de abastecimento e transporte e a
capacidade de reorganização da União Soviética impediram uma vitória rápida.
Quando o inverno chegou, tropas alemãs enfrentaram temperaturas severas e
dificuldades para manter veículos, armas e equipamentos em funcionamento.
Contudo, o frio não explica sozinho o fracasso alemão: a campanha já havia
produzido enormes perdas, as linhas de suprimento estavam estendidas e a
resistência soviética continuava. O inverno agravou problemas logísticos que já
existiam e contribuiu para limitar a capacidade ofensiva alemã.
Por isso, é importante desmistificar
o “General Inverno”. O inverno não escolhe um lado; seus
efeitos dependem das condições materiais dos exércitos que enfrentam o frio.
Tropas adequadamente equipadas, com roupas apropriadas, abrigo, combustível,
alimentação, manutenção de equipamentos e uma cadeia logística eficiente,
possuem muito mais condições de suportar temperaturas extremas. Já um exército
distante de suas bases, com linhas de abastecimento excessivamente longas e sem
preparação adequada, sofre consequências muito maiores. Em 1812, por exemplo, a
retirada francesa ocorreu depois de meses de campanha, enormes perdas e
problemas de abastecimento; o frio foi um dos elementos de uma combinação de
fatores, e não um “general” que sozinho derrotou Napoleão.
Essa interpretação também ajuda a compreender a Guerra da Ucrânia. No conflito contemporâneo, o inverno
continua sendo um fator estratégico, mas de maneira diferente das guerras
napoleônicas e da Segunda Guerra Mundial. Em vez de simplesmente esperar que o
frio destrua o exército inimigo, a Rússia tem procurado explorar a
vulnerabilidade da infraestrutura ucraniana, especialmente os sistemas de energia, aquecimento e distribuição elétrica. Durante o
inverno de 2025–2026, ataques russos atingiram repetidamente instalações
energéticas, provocando cortes de eletricidade e aquecimento justamente quando
as temperaturas estavam abaixo de zero. A Reuters informou, por exemplo, que
ataques de janeiro de 2026 deixaram cerca de 1,2
milhão de residências ucranianas sem energia, em meio a
temperaturas próximas de -10 °C em algumas áreas.
Assim, o “General Inverno” pode ser compreendido menos como uma força sobrenatural da história e mais como uma metáfora para a importância estratégica do clima, da preparação e da logística. Napoleão e Hitler não foram derrotados simplesmente porque o inverno russo era frio; seus exércitos enfrentaram enormes dificuldades de abastecimento, resistência militar, distâncias gigantescas e decisões estratégicas que ampliaram os efeitos das condições climáticas. Na Ucrânia, a lógica permanece atual: o inverno pode aumentar dramaticamente os custos humanos e materiais da guerra, e os ataques à infraestrutura energética procuram transformar a própria estação fria em um multiplicador de pressão sobre a população e sobre a capacidade de resistência do país. Com o inverno se aproximando, resta saber quem vai tirar vantagem de suas condições.






