Prof. Dr. Márcio José Mendonça
Israelenses e palestinos estão em conflito
há várias décadas e, nos últimos anos, a experiência de guerra entre eles tem
sido caracterizada por uma significativa evolução em estratégias e táticas
voltadas para sua aplicação em terreno urbano, incluindo a Cisjordânia, a Faixa
de Gaza e o território libanês. Desde a invasão do Líbano, em 1982, após as
pesadas baixas sofridas pelas Forças de Defesa de Israel (FDI), que combateram
em cidades e aldeias palestinas, os combates entre Israel e a resistência
árabe-palestina, que antes se desenvolviam em campo aberto (a exemplo dos
conflitos de 1948, 1967 e 1973), passaram a ocorrer especialmente em cidades.
Essa mudança do ambiente de batalha, do campo aberto para as cidades, foi então
compreendida como parte do processo de urbanização da guerra, em que forças de
libertação nacional, com menor capacidade militar frente a exércitos
convencionais bem equipados, entrincheiram-se nas cidades, passando a usar o
espaço urbano como abrigo e campo de batalha.
Com ênfase na guerra em ambiente urbano,
este livro aborda os meios militares empregados na guerra entre Israel e grupos
armados palestinos, deflagrada em 7 de outubro de 2023, após o Hamas romper o
bloqueio de Gaza e realizar uma operação militar em território ocupado por
Israel. Por causa do ataque palestino, Israel respondeu severamente com
bombardeiros e ação terrestre, escalando o conflito na medida em que os
principais combates se desenvolviam essencialmente no cenário urbano da Faixa
de Gaza. Na perspectiva em análise, ao levar em consideração as diferentes
manifestações do conflito, o livro objetiva caracterizar as variáveis táticas
de combate empregadas por Israel e pelos grupos palestinos, com o propósito de
compreender as dinâmicas socioespaciais implicadas no conflito e as formas como
diferentes táticas e concepções de combate urbano foram empregadas no terreno e
configuraram o cenário do espaço de batalha na Faixa de Gaza.
Embora considere as principais ações
militares no terreno e apresente um enfoque do cenário geopolítico como pano de
fundo de debate do livro, dando conta dos dois últimos anos de conflito entre
israelenses e palestinos – de 7 de outubro de 2023 ao avanço de uma nova fase
de negociações com a implementação de um segundo acordo de cessar-fogo, em
vigor desde 10 de outubro de 2025, o livro propõe uma análise espacial fundada em
uma investigação das trajetórias e dinâmicas socioespaciais (e territoriais)
dos grupos armados palestinos contra as forças israelenses, na Faixa de Gaza, com
foco mais detido nos acontecimentos de 7 de outubro de 2023 ao cabo da
assinatura do primeiro acordo de cessar-fogo entre o Hamas e o governo de
Israel, em 19 de janeiro de 2025.
Ao longo de dois anos de conflito, embora
o número de baixas seja difícil de calcular e impreciso diante de várias
variáveis, do lado palestino estimativas mais conservadoras de pesquisadores
internacionais e agências ligadas às Nações Unidas contabilizavam, em outubro
de 2025, mais de 80 mil mortes entre civis e combatentes, podendo este número
superar facilmente 100 mil baixas, em virtude dos registros falhos, de novas
“descobertas” ou de consequências da guerra difíceis de mensurar no momento. No
geral, além das baixas humanas, que incluem expressivo número de
não-combatentes mortos ou desaparecidos, sobretudo mulheres e crianças
palestinas, o conflito deixou um saldo material de destruição do território da
Faixa de Gaza que acumula de 85 mil a 92 mil toneladas de destroços. De acordo
com Ualid Rabah, a destruição em Gaza atinge 80% da infraestrutura,
contabilizando cerca de 192 mil edifícios destruídos, o equivalente a “quatro
ou cinco vezes a cidade de São Paulo completamente arrasada”.
Ao centrar sua abordagem na dinâmica espacial e nas formas e táticas de combate em ambiente urbano, a perspectiva focalizada ao longo do livro visa oferecer uma análise do teatro de combate e das operações militares entre as forças israelenses e a resistência palestina baseada no espaço urbano da Faixa de Gaza. Por isso, o livro, além de analisar as ações no campo de batalha e o modo operante de agressão israelense, concede enfoque privilegiado, também, nas ações e no modo de organização da resistência palestina. Por este viés, o livro investiga a dinâmica espacial de combate em ambiente urbano, fundamentando-se na concepção de urbanização do espaço de batalha como forma de organização do campo de batalha. Assim, ao demonstrar a destruição do espaço urbano como forma de transformar o espaço por meio de ações e técnicas combinadas de guerra, o trabalho coloca em evidência como o método do urbicídio é empregado pelas forças israelenses para alcançar objetivos militares no campo de batalha. Em contrapartida, o livro mostra também como os grupos armados palestinos, em especial o Hamas, baseiam suas ações em táticas de combate urbano descentralizadas a partir do uso de uma rede de túneis e ações de emboscadas e ataques-surpresa como forma de resistência armada.
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