Prof. Dr. Márcio José Mendonça
A
ideia de uma intervenção militar estadunidense na Venezuela com o
sequestro de Nicolás Maduro costuma aparecer no debate político
mais como hipótese ou narrativa geopolítica do
que como fato consumado, mas agora, ela é reveladora de um padrão histórico de
atuação externa dos Estados Unidos. Em nome da defesa da democracia, da
segurança internacional ou da estabilidade regional, intervenções diretas ou
indiretas são frequentemente justificadas por discursos morais que ocultam
interesses estratégicos. Nesse sentido, a soberania nacional venezuelana
aparece como elemento central do conflito: trata-se do direito de um Estado
decidir seus próprios rumos políticos sem coerção militar ou econômica
estrangeira.
O argumento do combate
ao tráfico internacional de drogas na Venezuela insere-se nesse
mesmo repertório discursivo. Assim como no Iraque, onde a retórica do combate ao terrorismo foi usada para legitimar uma
invasão militar que resultou em destruição institucional e instabilidade
prolongada, a criminalização de um governo passa a servir de base para a
violação de sua soberania. O paralelo evidencia como ameaças globais reais —
drogas e terrorismo — podem ser instrumentalizadas politicamente para
justificar intervenções que extrapolam o direito internacional e enfraquecem a
autodeterminação dos povos.
Essa lógica não se restringe à Venezuela ou ao
Oriente Médio. Quando se observa o problema do tráfico de
drogas no Rio de Janeiro, frequentemente tratado com linguagem
de guerra, percebe-se como a militarização do debate sobre segurança pública
pode abrir espaço para soluções externas. Em um cenário de agravamento
institucional ou fragilização política, a narrativa de que o Estado brasileiro
seria incapaz de controlar seu território poderia, em tese, ser usada como pretexto para uma intervenção militar estrangeira,
repetindo o padrão aplicado em outros países do Sul Global.
Nesse
contexto, o enfraquecimento político do governo Lula
ganha relevância geopolítica. Um governo fragilizado internamente tende a ter
menor capacidade de resistir a pressões externas e de afirmar a soberania
nacional em fóruns internacionais. A articulação entre Venezuela, Iraque e
Brasil revela, portanto, um debate mais amplo: a defesa da soberania nacional
frente a discursos securitários que, sob o pretexto de combater crimes
transnacionais, podem legitimar intervenções que aprofundam a dependência, a
instabilidade e a subordinação dos Estados periféricos no sistema internacional.
A neutralidade (para não dizer acovardamento) defendida pelo governo Lula nas disputas internacionais, em particular na questão da Venezuela, baseada no diálogo diplomático e no respeito à soberania dos Estados, insere o Brasil em uma posição de pouca relevância do debate político diante de conflitos e na intervenção estadunidense na Venezuela. Contudo, em uma leitura geopolítica crítica, essa postura pode ser vista como insuficiente para conter a lógica intervencionista que, historicamente, utiliza argumentos de segurança, combate ao crime transnacional ou defesa da ordem para legitimar ações militares externas. Nesse sentido, a Venezuela aparece como exemplo imediato desse padrão, enquanto o Brasil, diante de crises internas e da militarização de temas como segurança pública, poderia ser retoricamente enquadrado como um “próximo alvo” em cenários hipotéticos, reacendendo o debate sobre a necessidade de fortalecimento da soberania nacional e da autonomia regional.
Cuidado Lula,
você abandonou Maduro. Logo a banana da vez pode ser você!

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