sábado, 3 de janeiro de 2026

Da Venezuela ao Brasil, fim da soberania na América Latina

Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

A ideia de uma intervenção militar estadunidense na Venezuela com o sequestro de Nicolás Maduro costuma aparecer no debate político mais como hipótese ou narrativa geopolítica do que como fato consumado, mas agora, ela é reveladora de um padrão histórico de atuação externa dos Estados Unidos. Em nome da defesa da democracia, da segurança internacional ou da estabilidade regional, intervenções diretas ou indiretas são frequentemente justificadas por discursos morais que ocultam interesses estratégicos. Nesse sentido, a soberania nacional venezuelana aparece como elemento central do conflito: trata-se do direito de um Estado decidir seus próprios rumos políticos sem coerção militar ou econômica estrangeira.


O argumento do combate ao tráfico internacional de drogas na Venezuela insere-se nesse mesmo repertório discursivo. Assim como no Iraque, onde a retórica do combate ao terrorismo foi usada para legitimar uma invasão militar que resultou em destruição institucional e instabilidade prolongada, a criminalização de um governo passa a servir de base para a violação de sua soberania. O paralelo evidencia como ameaças globais reais — drogas e terrorismo — podem ser instrumentalizadas politicamente para justificar intervenções que extrapolam o direito internacional e enfraquecem a autodeterminação dos povos.


Essa lógica não se restringe à Venezuela ou ao Oriente Médio. Quando se observa o problema do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, frequentemente tratado com linguagem de guerra, percebe-se como a militarização do debate sobre segurança pública pode abrir espaço para soluções externas. Em um cenário de agravamento institucional ou fragilização política, a narrativa de que o Estado brasileiro seria incapaz de controlar seu território poderia, em tese, ser usada como pretexto para uma intervenção militar estrangeira, repetindo o padrão aplicado em outros países do Sul Global.


Nesse contexto, o enfraquecimento político do governo Lula ganha relevância geopolítica. Um governo fragilizado internamente tende a ter menor capacidade de resistir a pressões externas e de afirmar a soberania nacional em fóruns internacionais. A articulação entre Venezuela, Iraque e Brasil revela, portanto, um debate mais amplo: a defesa da soberania nacional frente a discursos securitários que, sob o pretexto de combater crimes transnacionais, podem legitimar intervenções que aprofundam a dependência, a instabilidade e a subordinação dos Estados periféricos no sistema internacional.


A neutralidade (para não dizer acovardamento) defendida pelo governo Lula nas disputas internacionais, em particular na questão da Venezuela, baseada no diálogo diplomático e no respeito à soberania dos Estados, insere o Brasil em uma posição de pouca relevância do debate político diante de conflitos e na intervenção estadunidense na Venezuela. Contudo, em uma leitura geopolítica crítica, essa postura pode ser vista como insuficiente para conter a lógica intervencionista que, historicamente, utiliza argumentos de segurança, combate ao crime transnacional ou defesa da ordem para legitimar ações militares externas. Nesse sentido, a Venezuela aparece como exemplo imediato desse padrão, enquanto o Brasil, diante de crises internas e da militarização de temas como segurança pública, poderia ser retoricamente enquadrado como um “próximo alvo” em cenários hipotéticos, reacendendo o debate sobre a necessidade de fortalecimento da soberania nacional e da autonomia regional.


Cuidado Lula, você abandonou Maduro. Logo a banana da vez pode ser você! 





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