domingo, 5 de abril de 2026

Geopolítica da Copa: Iraque

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A Geopolítica, enquanto campo de análise das relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, pode ser observada não apenas em conflitos e disputas econômicas, mas também em grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo FIFA. Muito além de uma competição esportiva, a Copa do Mundo se configura como um espaço estratégico de projeção de poder, imagem e influência no cenário global, reunindo nações em torno de interesses que ultrapassam o futebol.

Ao sediar o evento, países buscam afirmar sua relevância política, econômica e cultural, utilizando a visibilidade internacional para atrair investimentos, fortalecer o turismo e consolidar sua posição no sistema mundial. Nesse sentido, a Copa do Mundo também evidencia desigualdades regionais, tensões políticas e disputas simbólicas, tornando-se um palco onde questões geopolíticas se manifestam de forma indireta, mas significativa.

Assim, compreender a relação entre geopolítica e Copa do Mundo permite analisar como o esporte pode ser instrumentalizado como ferramenta de poder e diplomacia, revelando que, por trás dos jogos e das torcidas, existem interesses estratégicos que dialogam com a dinâmica das relações internacionais contemporâneas.

Com foco na relação entre geopolítica e futebol, no especial “Geopolítico da Copa”, trataremos de uma série de assuntos que versam sobre as narrativas, paixão, identidade e instrumentalização do futebol com propósitos geopolíticos.

 

O caso iraquiano

Um dos episódios mais emblemáticos da relação entre política autoritária e esporte ocorreu durante o governo de Saddam Hussein, especialmente envolvendo a seleção do Iraque na década de 1980. Desde que Saddam assumiu a presidência em 1979, o Iraque vivia sobre um regime de controle civil-militar presente em todos os departamentos e ministérios do governo, inclusive acerca do esporte. Em 1986, em meio às tensões da Guerra Irã-Iraque, a equipe iraquiana enfrentou a seleção iraniana e acabou derrotada pelo placar de 2 a 1. A derrota, mais do que um resultado esportivo, foi interpretada pelo regime como uma afronta política e simbólica ao país inimigo.

Como consequência, os jogadores iraquianos teriam sido submetidos a punições severas sob ordens de Uday Hussein, filho de Saddam, que comandava o comitê olímpico iraquiano. Relatos apontam que atletas foram presos, espancados e até torturados como forma de punição pela derrota, evidenciando o uso do esporte como instrumento de controle e repressão política. Esse episódio ilustra de forma extrema como o futebol, em determinados contextos geopolíticos, pode ultrapassar o campo esportivo e se inserir diretamente nas dinâmicas de poder e violência de regimes autoritários.

Mesmo após a queda do regime de Saddam Hussein, em 2003, quando forças lideradas pelos Estados Unidos depuseram o governo sob a justificativa de eliminar supostas armas de destruição em massa (nunca encontradas). O fim do regime autoritário embora tenha gradualmente pavimentado o caminho para um processo de redemocratização, marcado pela elaboração de uma nova Constituição e pela realização de eleições, também foi marcado por forte instabilidade. A ocupação estrangeira e a desestruturação do Estado contribuíram para o surgimento de uma violenta guerra civil, especialmente entre grupos xiitas e sunitas, aprofundando divisões internas. Nesse cenário de fragilidade, emergiu o Estado Islâmico, que chegou a controlar vastas áreas do território iraquiano a partir de 2014, sendo posteriormente combatido por forças locais com apoio internacional. Assim, o período pós-Saddam, não revela paz, mas um processo complexo, no qual a tentativa de construção democrática conviveu com conflitos, intervenção externa e desafios à soberania nacional.

Ainda hoje o cenário político do Iraque é marcado por profundas divisões internas e por uma soberania estatal fragmentada, resultado de décadas de conflitos e intervenções externas. Embora o país possua um governo formalmente eleito, sua autoridade é limitada em diversas regiões, onde atuam milícias armadas ligadas a diferentes grupos étnico-religiosos, como xiitas, sunitas e curdos. Muitas dessas forças, algumas integradas às Forças de Mobilização Popular, exercem controle territorial e político próprio, frequentemente alinhadas a interesses externos, como os do Irã, ou em disputa com a influência dos Estados Unidos. Além disso, a região autônoma do Curdistão Iraquiano mantém forças de segurança próprias e alto grau de autonomia, reforçando a fragmentação do poder. Nesse contexto, o Iraque enfrenta o desafio de consolidar sua soberania nacional diante da atuação de múltiplos atores armados que disputam poder, recursos e influência no território.

É nesse sentido que o futebol aparece como elemento de uma estrutura frágil que busca a unificação de uma identidade nacional. A classificação do Iraque para a Copa do Mundo FIFA de 2026 representa mais do que um feito esportivo: simboliza uma rara oportunidade de construção de unidade nacional em meio a um cenário político fragmentado. Em um país historicamente marcado por divisões étnicas, religiosas e disputas internas, a seleção nacional surge como um elemento agregador, capaz de mobilizar sentimentos de pertencimento e identidade coletiva entre diferentes grupos. O futebol, nesse contexto, funciona como linguagem comum, criando um espaço simbólico onde rivalidades são temporariamente suspensas em favor de um projeto nacional compartilhado. Assim, a presença do Iraque na Copa pode fortalecer laços sociais e renovar a esperança de coesão, ainda que momentânea, em torno de um ideal de nação.

Na histórica classificação do Iraque para a Copa do Mundo FIFA de 2026, o atacante Aymen Hussein emergiu como protagonista dessa história  de um possível novo Iraque , representando superação e identidade nacional ao marcar os dois gols na vitória por 2 a 1 sobre a Bolívia na repescagem internacional, selando o retorno do país ao Mundial após 40 anos. Mais do que protagonista em campo, Hussein carrega uma trajetória marcada pela violência que atingiu o país: ex-refugiado, ele perdeu o irmão em ataques ligados ao Estado Islâmico, experiência que reflete o sofrimento de milhares de iraquianos nas últimas décadas. Nesse sentido, sua figura transcende o esporte, representando a possibilidade de um novo Iraque que busca reconstruir sua identidade e soberania, transformando dor em esperança e projetando, através do futebol, um sentimento coletivo de resistência, reconstrução e unidade nacional.


Imagem feita por I.A.


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