Prof. Dr. Márcio José Mendonça
A
Geopolítica, enquanto campo de análise das
relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, pode ser
observada não apenas em conflitos e disputas econômicas, mas também em grandes
eventos internacionais, como a Copa do Mundo FIFA.
Muito além de uma competição esportiva, a Copa do Mundo se configura como um
espaço estratégico de projeção de poder, imagem e influência no cenário global,
reunindo nações em torno de interesses que ultrapassam o futebol.
Ao
sediar o evento, países buscam afirmar sua relevância política, econômica e
cultural, utilizando a visibilidade internacional para atrair investimentos,
fortalecer o turismo e consolidar sua posição no sistema mundial. Nesse sentido,
a Copa do Mundo também evidencia desigualdades regionais, tensões políticas e
disputas simbólicas, tornando-se um palco onde questões geopolíticas se
manifestam de forma indireta, mas significativa.
Assim,
compreender a relação entre geopolítica e Copa do Mundo permite analisar como o
esporte pode ser instrumentalizado como ferramenta de poder e diplomacia,
revelando que, por trás dos jogos e das torcidas, existem interesses
estratégicos que dialogam com a dinâmica das relações internacionais contemporâneas.
Com
foco na relação entre geopolítica e futebol, no especial “Geopolítico da Copa”,
trataremos de uma série de assuntos que versam sobre as narrativas, paixão,
identidade e instrumentalização do futebol com propósitos geopolíticos.
O caso iraniano
Não
é possível falar da vida política do Irã sem citar a última revolução do século
XX. A Revolução Iraniana de 1979 marcou
uma profunda transformação política, econômica e social no Irã, encerrando o regime
monárquico liderado por Reza Pahlavi. O
governo do Xá, fortemente apoiado pelos Estados Unidos, era visto pela maioria da
população como autoritário, desigual e subordinado a interesses estrangeiros,
especialmente no controle das riquezas petrolíferas do país. Nesse contexto, a
insatisfação popular cresceu, alimentada por crises econômicas, repressão
política e pela percepção de que os recursos naturais, como o petróleo, não
beneficiavam a maioria da população iraniana.
Com a
vitória da revolução, liderada pelo aiatolá Ruhollah
Khomeini, o Irã passou por um processo de ruptura com o Ocidente,
especialmente com os Estados Unidos, culminando na expulsão de sua influência
política e econômica. Um dos principais objetivos do novo regime foi a retomada
do controle nacional sobre o petróleo, reforçando a estatização desse recurso
estratégico. Dessa forma, a ascensão dos governos dos aiatolás consolidou a
criação de uma república islâmica, baseada em princípios religiosos xiitas,
redefinindo não apenas a política interna, mas também o posicionamento do Irã
no cenário internacional.
Na
sequência desse processo revolucionário, o novo regime iraniano enfrentou um
dos maiores desafios de sua consolidação com a eclosão da Guerra Irã-Iraque, iniciada em 1980 após a
invasão do Irã pelo Iraque liderado por Saddam
Hussein. O conflito esteve diretamente ligado às tensões políticas e
ideológicas geradas pela revolução, já que o governo iraquiano, apoiados na
época pelos norte-americanos, temia a expansão do modelo islâmico xiita para
sua própria população. Além disso, disputas territoriais, especialmente na
região estratégica do Shatt al-Arab, e o interesse no controle de áreas
petrolíferas intensificaram o confronto. A guerra, marcada por extrema
violência e alto número de mortos, contribuiu para fortalecer o nacionalismo
iraniano e consolidar o poder dos aiatolás, ao mesmo tempo em que aprofundou o
isolamento internacional do país.
A partir de então, o regime político do Irã, estruturado como uma república islâmica desde a Revolução Iraniana de 1979, tem sido marcado por avanços na área da ciência e soberania nacional, mas também por tensões internas recorrentes, especialmente em torno de direitos civis e liberdades individuais. Nos últimos anos, protestos têm emergido em diferentes momentos, impulsionados por demandas relacionadas à liberdade de expressão, à participação política e, de forma destacada, aos direitos das mulheres, incluindo críticas às normas obrigatórias de vestimenta e à atuação das forças de segurança. Esses movimentos refletem divisões dentro da sociedade iraniana, entre setores mais conservadores nacionalistas e grupos que defendem maior abertura. Ao mesmo tempo, o governo iraniano frequentemente atribui parte dessas mobilizações à influência externa, citando ações de países como Estados Unidos e Israel no que define como tentativas de desestabilização por meio de estratégias indiretas, muitas vezes descritas como “guerra híbrida”. Analistas internacionais, por sua vez, divergem sobre o peso real dessas interferências, destacando que os protestos também têm raízes profundas em questões internas estruturais, o que evidencia a complexidade do cenário político iraniano contemporâneo.
No Irã, o futebol — principal paixão esportiva nacional — não está imune às tensões políticas e sociais que atravessam o país. Um dos temas mais controversos diz respeito à restrição histórica à presença de mulheres nos estádios, medida associada à interpretação conservadora das normas islâmicas adotadas após a Revolução Iraniana de 1979. Embora tenha havido avanços pontuais nos últimos anos, com a liberação limitada de ingressos femininos em jogos específicos, o acesso ainda é cercado de restrições e simboliza uma disputa maior por direitos civis e igualdade de gênero.
No contexto das tensões políticas contemporâneas, o governo do Irã argumenta que a pauta dos direitos das mulheres consiste numa concepção ocidentalizada distorcida, utilizada por potências como os Estados Unidos e Israel como instrumento de pressão internacional e de desestabilização política, inserido em estratégias mais amplas de “guerra híbrida”. Ao mesmo tempo, o cenário interno revela uma realidade mais complexa: embora existam restrições legais e sociais — como o uso obrigatório do véu, apenas recentemente abolido — o país apresenta indicadores educacionais femininos relativamente elevados quando comparado a diversos países da região. Dados recentes mostram que mulheres representam mais de 60% dos estudantes universitários iranianos, além de taxas de alfabetização juvenil próximas de 99% e ampla participação no ensino básico, com matrículas femininas próximas da universalização, realidade bem diferente de países como a Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos na região, onde as restrições ao público feminino são muito maiores e a comunidade internacional pouco se manifesta. Ainda assim, analistas destacam que esses avanços coexistem com demandas internas por ampliação de direitos civis, sem deixar de relacionar que a questão feminina no Irã frequentemente é instrumentalizada pela propaganda internacional para caracterizar o regime iraniano como um governo opressor, em detrimento de uma análise mais ampla e conhecimento mais profundo da realidade, tradições e cultura do país.
Essas tensões também se refletem na participação da seleção iraniana em competições globais, como a Copa do Mundo FIFA. A possibilidade de jogos nos Estados Unidos carrega forte carga simbólica, dado o histórico de rivalidade e episódios recentes de confronto entre os dois países. Por esse histórico, as relações Irã-Estados Unidos, são marcadas por décadas de hostilidade, sanções econômicas e acusações mútuas, o que inevitavelmente repercute no esporte. Um desses episódios mais emblemáticos, também se deu na Copa do Mundo, para ser mais preciso durante a Copa do Mundo FIFA de 1998, quando as seleções dos dois países se enfrentaram em campo em meio a décadas de tensões políticas. Antes do início da partida, os jogadores iranianos protagonizaram um gesto marcante ao oferecer flores aos atletas norte-americanos, sinalizando uma mensagem de paz e respeito em contraste com os conflitos diplomáticos entre os governos. A cena ganhou repercussão mundial por evidenciar como o futebol pode transcender rivalidades geopolíticas e funcionar como espaço de diálogo simbólico. Dentro de campo, o Irã venceu por 2 a 1, mas o resultado esportivo acabou sendo ofuscado pela força daquele gesto, que permanece como um dos episódios mais emblemáticos da história das Copas do Mundo.
Em março de 2026, a seleção do Irã novamente protagonizou um gesto simbólico marcante antes de um amistoso internacional ao entrar em campo carregando mochilas infantis, em homenagem às vítimas de um ataque a uma escola em Teerã. A ação ocorreu durante a execução do hino nacional, transformando o momento esportivo em um ato de protesto e memória coletiva diante da tragédia, que deixou mais de uma centena de mortos, a maioria crianças. O bombardeio, atribuído pelas autoridades iranianas aos Estados Unidos, atingiu uma escola na região de Minab e gerou forte comoção nacional e internacional. Assim como em outros episódios da história recente do país, o futebol tornou-se um espaço de expressão política e humanitária, no qual os jogadores buscaram dar visibilidade ao sofrimento civil em meio ao conflito e reforçar uma mensagem de luto e denúncia diante da comunidade global.

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