sábado, 25 de abril de 2026

Geopolítica da Copa: Irã

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A Geopolítica, enquanto campo de análise das relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, pode ser observada não apenas em conflitos e disputas econômicas, mas também em grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo FIFA. Muito além de uma competição esportiva, a Copa do Mundo se configura como um espaço estratégico de projeção de poder, imagem e influência no cenário global, reunindo nações em torno de interesses que ultrapassam o futebol.

Ao sediar o evento, países buscam afirmar sua relevância política, econômica e cultural, utilizando a visibilidade internacional para atrair investimentos, fortalecer o turismo e consolidar sua posição no sistema mundial. Nesse sentido, a Copa do Mundo também evidencia desigualdades regionais, tensões políticas e disputas simbólicas, tornando-se um palco onde questões geopolíticas se manifestam de forma indireta, mas significativa.

Assim, compreender a relação entre geopolítica e Copa do Mundo permite analisar como o esporte pode ser instrumentalizado como ferramenta de poder e diplomacia, revelando que, por trás dos jogos e das torcidas, existem interesses estratégicos que dialogam com a dinâmica das relações internacionais contemporâneas.

Com foco na relação entre geopolítica e futebol, no especial “Geopolítico da Copa”, trataremos de uma série de assuntos que versam sobre as narrativas, paixão, identidade e instrumentalização do futebol com propósitos geopolíticos.

 

O caso iraniano

Não é possível falar da vida política do Irã sem citar a última revolução do século XX. A Revolução Iraniana de 1979 marcou uma profunda transformação política, econômica e social no Irã, encerrando o regime monárquico liderado por Reza Pahlavi. O governo do Xá, fortemente apoiado pelos Estados Unidos, era visto pela maioria da população como autoritário, desigual e subordinado a interesses estrangeiros, especialmente no controle das riquezas petrolíferas do país. Nesse contexto, a insatisfação popular cresceu, alimentada por crises econômicas, repressão política e pela percepção de que os recursos naturais, como o petróleo, não beneficiavam a maioria da população iraniana.

Com a vitória da revolução, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, o Irã passou por um processo de ruptura com o Ocidente, especialmente com os Estados Unidos, culminando na expulsão de sua influência política e econômica. Um dos principais objetivos do novo regime foi a retomada do controle nacional sobre o petróleo, reforçando a estatização desse recurso estratégico. Dessa forma, a ascensão dos governos dos aiatolás consolidou a criação de uma república islâmica, baseada em princípios religiosos xiitas, redefinindo não apenas a política interna, mas também o posicionamento do Irã no cenário internacional.

Na sequência desse processo revolucionário, o novo regime iraniano enfrentou um dos maiores desafios de sua consolidação com a eclosão da Guerra Irã-Iraque, iniciada em 1980 após a invasão do Irã pelo Iraque liderado por Saddam Hussein. O conflito esteve diretamente ligado às tensões políticas e ideológicas geradas pela revolução, já que o governo iraquiano, apoiados na época pelos norte-americanos, temia a expansão do modelo islâmico xiita para sua própria população. Além disso, disputas territoriais, especialmente na região estratégica do Shatt al-Arab, e o interesse no controle de áreas petrolíferas intensificaram o confronto. A guerra, marcada por extrema violência e alto número de mortos, contribuiu para fortalecer o nacionalismo iraniano e consolidar o poder dos aiatolás, ao mesmo tempo em que aprofundou o isolamento internacional do país.

A partir de então, o regime político do Irã, estruturado como uma república islâmica desde a Revolução Iraniana de 1979, tem sido marcado por avanços na área da ciência e soberania nacional, mas também por tensões internas recorrentes, especialmente em torno de direitos civis e liberdades individuais. Nos últimos anos, protestos têm emergido em diferentes momentos, impulsionados por demandas relacionadas à liberdade de expressão, à participação política e, de forma destacada, aos direitos das mulheres, incluindo críticas às normas obrigatórias de vestimenta e à atuação das forças de segurança. Esses movimentos refletem divisões dentro da sociedade iraniana, entre setores mais conservadores nacionalistas e grupos que defendem maior abertura. Ao mesmo tempo, o governo iraniano frequentemente atribui parte dessas mobilizações à influência externa, citando ações de países como Estados Unidos e Israel no que define como tentativas de desestabilização por meio de estratégias indiretas, muitas vezes descritas como “guerra híbrida”. Analistas internacionais, por sua vez, divergem sobre o peso real dessas interferências, destacando que os protestos também têm raízes profundas em questões internas estruturais, o que evidencia a complexidade do cenário político iraniano contemporâneo.

No Irã, o futebol — principal paixão esportiva nacional — não está imune às tensões políticas e sociais que atravessam o país. Um dos temas mais controversos diz respeito à restrição histórica à presença de mulheres nos estádios, medida associada à interpretação conservadora das normas islâmicas adotadas após a Revolução Iraniana de 1979. Embora tenha havido avanços pontuais nos últimos anos, com a liberação limitada de ingressos femininos em jogos específicos, o acesso ainda é cercado de restrições e simboliza uma disputa maior por direitos civis e igualdade de gênero.

No contexto das tensões políticas contemporâneas, o governo do Irã argumenta que a pauta dos direitos das mulheres consiste numa concepção ocidentalizada distorcida, utilizada por potências como os Estados Unidos e Israel como instrumento de pressão internacional e de desestabilização política, inserido em estratégias mais amplas de “guerra híbrida”. Ao mesmo tempo, o cenário interno revela uma realidade mais complexa: embora existam restrições legais e sociais — como o uso obrigatório do véu, apenas recentemente abolido — o país apresenta indicadores educacionais femininos relativamente elevados quando comparado a diversos países da região. Dados recentes mostram que mulheres representam mais de 60% dos estudantes universitários iranianos, além de taxas de alfabetização juvenil próximas de 99% e ampla participação no ensino básico, com matrículas femininas próximas da universalização, realidade bem diferente de países como a Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos na região, onde as restrições ao público feminino são muito maiores e a comunidade internacional pouco se manifesta. Ainda assim, analistas destacam que esses avanços coexistem com demandas internas por ampliação de direitos civis, sem deixar de relacionar que a questão feminina no Irã frequentemente é instrumentalizada pela propaganda internacional para caracterizar o regime iraniano como um governo opressor, em detrimento de uma análise mais ampla e conhecimento mais profundo da realidade, tradições e cultura do país.  

Essas tensões também se refletem na participação da seleção iraniana em competições globais, como a Copa do Mundo FIFA. A possibilidade de jogos nos Estados Unidos carrega forte carga simbólica, dado o histórico de rivalidade e episódios recentes de confronto entre os dois países. Por esse histórico, as relações Irã-Estados Unidos, são marcadas por décadas de hostilidade, sanções econômicas e acusações mútuas, o que inevitavelmente repercute no esporte. Um desses episódios mais emblemáticos, também se deu na Copa do Mundo, para ser mais preciso durante a Copa do Mundo FIFA de 1998, quando as seleções dos dois países se enfrentaram em campo em meio a décadas de tensões políticas. Antes do início da partida, os jogadores iranianos protagonizaram um gesto marcante ao oferecer flores aos atletas norte-americanos, sinalizando uma mensagem de paz e respeito em contraste com os conflitos diplomáticos entre os governos. A cena ganhou repercussão mundial por evidenciar como o futebol pode transcender rivalidades geopolíticas e funcionar como espaço de diálogo simbólico. Dentro de campo, o Irã venceu por 2 a 1, mas o resultado esportivo acabou sendo ofuscado pela força daquele gesto, que permanece como um dos episódios mais emblemáticos da história das Copas do Mundo.

Em março de 2026, a seleção do Irã novamente protagonizou um gesto simbólico marcante antes de um amistoso internacional ao entrar em campo carregando mochilas infantis, em homenagem às vítimas de um ataque a uma escola em Teerã. A ação ocorreu durante a execução do hino nacional, transformando o momento esportivo em um ato de protesto e memória coletiva diante da tragédia, que deixou mais de uma centena de mortos, a maioria crianças. O bombardeio, atribuído pelas autoridades iranianas aos Estados Unidos, atingiu uma escola na região de Minab e gerou forte comoção nacional e internacional. Assim como em outros episódios da história recente do país, o futebol tornou-se um espaço de expressão política e humanitária, no qual os jogadores buscaram dar visibilidade ao sofrimento civil em meio ao conflito e reforçar uma mensagem de luto e denúncia diante da comunidade global.


Imagem feita por I.A.



domingo, 5 de abril de 2026

Geopolítica da Copa: Iraque

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A Geopolítica, enquanto campo de análise das relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, pode ser observada não apenas em conflitos e disputas econômicas, mas também em grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo FIFA. Muito além de uma competição esportiva, a Copa do Mundo se configura como um espaço estratégico de projeção de poder, imagem e influência no cenário global, reunindo nações em torno de interesses que ultrapassam o futebol.

Ao sediar o evento, países buscam afirmar sua relevância política, econômica e cultural, utilizando a visibilidade internacional para atrair investimentos, fortalecer o turismo e consolidar sua posição no sistema mundial. Nesse sentido, a Copa do Mundo também evidencia desigualdades regionais, tensões políticas e disputas simbólicas, tornando-se um palco onde questões geopolíticas se manifestam de forma indireta, mas significativa.

Assim, compreender a relação entre geopolítica e Copa do Mundo permite analisar como o esporte pode ser instrumentalizado como ferramenta de poder e diplomacia, revelando que, por trás dos jogos e das torcidas, existem interesses estratégicos que dialogam com a dinâmica das relações internacionais contemporâneas.

Com foco na relação entre geopolítica e futebol, no especial “Geopolítico da Copa”, trataremos de uma série de assuntos que versam sobre as narrativas, paixão, identidade e instrumentalização do futebol com propósitos geopolíticos.

 

O caso iraquiano

Um dos episódios mais emblemáticos da relação entre política autoritária e esporte ocorreu durante o governo de Saddam Hussein, especialmente envolvendo a seleção do Iraque na década de 1980. Desde que Saddam assumiu a presidência em 1979, o Iraque vivia sobre um regime de controle civil-militar presente em todos os departamentos e ministérios do governo, inclusive acerca do esporte. Em 1986, em meio às tensões da Guerra Irã-Iraque, a equipe iraquiana enfrentou a seleção iraniana e acabou derrotada pelo placar de 2 a 1. A derrota, mais do que um resultado esportivo, foi interpretada pelo regime como uma afronta política e simbólica ao país inimigo.

Como consequência, os jogadores iraquianos teriam sido submetidos a punições severas sob ordens de Uday Hussein, filho de Saddam, que comandava o comitê olímpico iraquiano. Relatos apontam que atletas foram presos, espancados e até torturados como forma de punição pela derrota, evidenciando o uso do esporte como instrumento de controle e repressão política. Esse episódio ilustra de forma extrema como o futebol, em determinados contextos geopolíticos, pode ultrapassar o campo esportivo e se inserir diretamente nas dinâmicas de poder e violência de regimes autoritários.

Mesmo após a queda do regime de Saddam Hussein, em 2003, quando forças lideradas pelos Estados Unidos depuseram o governo sob a justificativa de eliminar supostas armas de destruição em massa (nunca encontradas). O fim do regime autoritário embora tenha gradualmente pavimentado o caminho para um processo de redemocratização, marcado pela elaboração de uma nova Constituição e pela realização de eleições, também foi marcado por forte instabilidade. A ocupação estrangeira e a desestruturação do Estado contribuíram para o surgimento de uma violenta guerra civil, especialmente entre grupos xiitas e sunitas, aprofundando divisões internas. Nesse cenário de fragilidade, emergiu o Estado Islâmico, que chegou a controlar vastas áreas do território iraquiano a partir de 2014, sendo posteriormente combatido por forças locais com apoio internacional. Assim, o período pós-Saddam, não revela paz, mas um processo complexo, no qual a tentativa de construção democrática conviveu com conflitos, intervenção externa e desafios à soberania nacional.

Ainda hoje o cenário político do Iraque é marcado por profundas divisões internas e por uma soberania estatal fragmentada, resultado de décadas de conflitos e intervenções externas. Embora o país possua um governo formalmente eleito, sua autoridade é limitada em diversas regiões, onde atuam milícias armadas ligadas a diferentes grupos étnico-religiosos, como xiitas, sunitas e curdos. Muitas dessas forças, algumas integradas às Forças de Mobilização Popular, exercem controle territorial e político próprio, frequentemente alinhadas a interesses externos, como os do Irã, ou em disputa com a influência dos Estados Unidos. Além disso, a região autônoma do Curdistão Iraquiano mantém forças de segurança próprias e alto grau de autonomia, reforçando a fragmentação do poder. Nesse contexto, o Iraque enfrenta o desafio de consolidar sua soberania nacional diante da atuação de múltiplos atores armados que disputam poder, recursos e influência no território.

É nesse sentido que o futebol aparece como elemento de uma estrutura frágil que busca a unificação de uma identidade nacional. A classificação do Iraque para a Copa do Mundo FIFA de 2026 representa mais do que um feito esportivo: simboliza uma rara oportunidade de construção de unidade nacional em meio a um cenário político fragmentado. Em um país historicamente marcado por divisões étnicas, religiosas e disputas internas, a seleção nacional surge como um elemento agregador, capaz de mobilizar sentimentos de pertencimento e identidade coletiva entre diferentes grupos. O futebol, nesse contexto, funciona como linguagem comum, criando um espaço simbólico onde rivalidades são temporariamente suspensas em favor de um projeto nacional compartilhado. Assim, a presença do Iraque na Copa pode fortalecer laços sociais e renovar a esperança de coesão, ainda que momentânea, em torno de um ideal de nação.

Na histórica classificação do Iraque para a Copa do Mundo FIFA de 2026, o atacante Aymen Hussein emergiu como protagonista dessa história  de um possível novo Iraque , representando superação e identidade nacional ao marcar os dois gols na vitória por 2 a 1 sobre a Bolívia na repescagem internacional, selando o retorno do país ao Mundial após 40 anos. Mais do que protagonista em campo, Hussein carrega uma trajetória marcada pela violência que atingiu o país: ex-refugiado, ele perdeu o irmão em ataques ligados ao Estado Islâmico, experiência que reflete o sofrimento de milhares de iraquianos nas últimas décadas. Nesse sentido, sua figura transcende o esporte, representando a possibilidade de um novo Iraque que busca reconstruir sua identidade e soberania, transformando dor em esperança e projetando, através do futebol, um sentimento coletivo de resistência, reconstrução e unidade nacional.


Imagem feita por I.A.


Geopolítica da Copa: Irã

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