terça-feira, 24 de setembro de 2024

Dronificação do crime em megacidades do Sul Global*

Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

Com a dronificação do espaço de batalha em diferentes cenários, os drones militares e de uso civil adaptados para combate, estão sendo cada vez mais empregados em ambiente urbano na Ucrânia, na Faixa de Gaza e em muitos outros lugares, em situações de guerra, mas também, como Ian Shaw (2016) observou, doravante, em ações de vigilância e policiamento ostensivo de significativos contingentes de população excedente que vivem em áreas urbanas e nas grandes metrópoles do planeta.

Embora os drones militares e sistemas de vigilância dronificados tenham sido primeiro implantados em espaços periféricos do planeta, em áreas tribais do Paquistão, Iêmen, Somália, Afeganistão e nos territórios palestinos ocupados, em suma territórios de disputa colonial, o seu uso é cada vez mais recorrente nos grandes centros urbanos com o propósito de controlar a população excedente do capitalismo. Um número cada vez maior de trabalhadores descartados do sistema de acumulação, são então, alvos das técnicas capitalistas contemporâneas de controle e vigilância aplicadas de cima para baixo, verticalmente no espaço, como parte de um programa de securitização da vida, que Ian Shaw (2016) chamou de “dronificação da violência estatal”.

Contudo, a dronificação e implantação de sistemas de vigilância e securitização da vida, não é restrita as ações do Estado e do policiamento ostensivo, comum em grandes centros urbanos do planeta. Em megacidades do Sul Global, como o Rio de Janeiro, traficantes de drogas já operam drones com propósitos de monitorar e vigiar a ação de grupos rivais ou da própria polícia no território controlado pelas facções. A nova fase de dronificação dos mecanismos de securitização conduzida por grupos ilegais vai além da simples e pura gestão da pobreza excedente por meio da intervenção estatal. Agora grupos de traficantes de drogas no Rio de Janeiro participam também da guerra urbana por meio do uso de recursos aéreos, acessando e controlando aeronaves não tripuladas. No Rio de Janeiro, essas facções usam drones adaptados para uso militar, por meio do qual vigiam a ação da polícia e de grupos rivais enquanto patrulham ruas e becos de favelas da cidade.

O baixo custo e a facilidade operacional dos drones, expandiu as fronteiras de uso dos drones militares dos campos de batalha no Leste Europeu e do Oriente Média ao espaço urbano do Sul Global. Dessa forma, os drones estão a povoar todas as esferas da vida e a constituir um importante mecanismo atmosférico de violência e vigilância vertical, que ao aplicar uma política de guerra e de segurança de cima para baixo, produzem efeitos cada vez mais sensíveis na vida daquelas pessoas que vivem em espaços segregados e de grande insegurança, comuns em favelas do Rio de Janeiro, onde seus moradores agora também estão sujeitos a ação violenta de drones controlados por grupos criminosos que sobrevoam sobre suas cabeças.


* O texto acima consiste em um trecho adaptado do livro em desenvolvimento, “Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha”, escrito por Márcio José Mendonça, em etapa de conclusão. O artigo foi fundamentado na reportagem do Fantástico: “Investigação mostra como militar da Marinha ajudou facção a armar drones no Rio de Janeiro”, exibida em 22 de setembro e disponível no portal do G1 através do acesso ao seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=yv8ZFOHYDFI&list=WL&index=438

 

Fonte: SHAW, Ian G.R. The urbanization of drone warfare: policing surplus populations in the dronepolis. Geographia Helvetica, v. 71, p.19-28, 2016.





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