domingo, 20 de outubro de 2024

365 dias de combate em Gaza e a guerra no Líbano

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Após um ano de conflito entre as forças israelenses e os grupos palestinos na Faixa de Gaza, a destruição completa do espaço urbano deixa claro que Israel visou o espaço urbano com o propósito de destruir a estrutura urbana que ampara e sustenta a vida da população que ali vive, sejam eles, combatentes ou civis. O urbicídio como método de guerra para destruir o ambiente urbano que permite uma resistência baseada na cidade, foi então, empregado como poucas vezes se viu, na história recente, de tal forma, que nessa altura, mesmo os maiores defensores da narrativa de combate ao terrorismo, teriam dificuldade de esconder o genocídio praticado por Israel contra mulheres e crianças palestinas indefesas, assassinadas aos milhares.

Embora a história e o conflito atual entre israelenses e palestinos demonstre, que ambos os lados estão agindo com o propósito de modelar o espaço urbano para abrir caminho para operações militares, para assim atingir o inimigo severamente. É fato, que neste momento, Israel está mais próximo de desferir um ataque fatal, do que o Hamas ou o Hezbollah, de conquistar uma vitória militar que seja realmente impositiva aos israelenses. O cenário atual, com a decapitação das principais lideranças do Hamas e do Hezbollah, além de ser um significativo golpe político na resistência armada ao sionismo, demonstra uma certa fragilidade do Eixo da Resistência sob liderança do Irã.

Nesse sentido, se o Hezbollah e principalmente o Hamas, na Faixa de Gaza, demonstraram muita resiliência para enfrentar um inimigo inegavelmente muito superior militarmente. Agora, o Hamas, totalmente cercado e significativamente deteriorado após meses de combate e resistência ferrenha, demonstra também, esgotamento de seus recursos, tanto em meios materiais quanto humanos. É verdade, que no combate corpo a corpo pelas ruas e pelos escombros de Gaza, os combatentes palestinos ainda são capazes de causar danos, sobretudo a contar com o uso de lançadores portáteis de granadas e com o fator surpresa no ambiente urbano. Por outro lado, o avanço de Israel no terreno e não menos relevante a diminuição de ataques palestinos por meio de foguetes contra o solo israelense, deixam, também claro, que as capacidades de combate dos grupos palestinos de enfrentar Israel está se deteriorando.

Todos sabemos, que os insurgentes palestinos, eram incapazes de efetuar uma guerra prolongada contra Israel em terreno aberto, por isso, procuraram atrair as forças israelenses para o interior de Gaza e assim impor uma derrota militar aos invasores. Por meio de ações combinadas de guerrilha e guerra de atrito, as táticas dos grupos palestinos se baseiam em preparação do terreno, com a elaboração de armadilhas e abrigos subterrâneos, os conhecidos túneis, que foram e ainda estão sendo muito empregados em operações de ataque, na retaguarda do inimigo, provocando muitas baixas as tropas israelenses. 

Contudo, o prolongar do conflito e cerco em Gaza, com apoio estadunidense que abastece Israel regularmente, implica em um desafio ainda maior, com Israel impondo uma destruição ampla e sistemática de toda a estrutura social e física no qual se apoia a vida da sociedade palestina – uma verdadeira aniquilação de Gaza. É claro, que no campo de batalha, ao entrar em Gaza e agora no Líbano, os soldados israelenses estão expostos aos ataques de seus inimigos em combate direto e sujeitos a emboscadas e ataques inesperados, de tropas bem treinadas. Dessa vez, israelenses não estão a lutar contra palestinos ou libaneses desarmados e sem treinamento militar adequado como foi em outros momentos. Com a presença prolongada de soldados israelenses no campo de batalha, em Gaza, na Cisjordânia ou no sul do Líbano, eles são alvos fáceis de guerrilheiros que conhecem o ambiente urbano das cidades palestinas ou o relevo acidentado do sul do Líbano, sendo o custo para eles, independente de toda superioridade tecnológica, sem dúvida, muito alto. Todavia, Israel pretende dobrar a aposta para afastar os grupos rivais de suas fronteiras e assim impor uma vitória duradoura na região, ainda que arrisque muitas fichas e fique na torcida para o Irã não se envolver diretamente na guerra. Israel hoje sabe que não pode vencer o Hamas ou o Hezbollah em combate corpo a corpo em ambiente urbano, mas sabe que pode destruir cidades e vilas palestinas e libanesas em uma grande extensão de destruição urbicida.

Por isso, mesmo que o Hamas e os demais grupos palestinos, a considerar os combates urbanos, tenham muito das vezes, vencido as tropas israelenses em solo, em matéria de combate direto. Os danos em Gaza infligidos por Israel são de tal magnitude, deixando o território sem condições de habitabilidade, ao provocar um total retrocesso social e econômico, tornando a resistência não só mais difícil, mas também, desastrosa para os civis que ali vivem.

O desenrolar do conflito e o futuro da resistência as ações de Israel agora implicam no envolvimento mais direto do Irã e num preço ainda mais alto, que não só palestinos e libaneses, mas iranianos, sírios e todo o Eixo da Resistência, precisa estar disposto a pagar para enfrentar Israel, se de fato quiser frear o seu avanço e impor uma derrota expressiva ao sionismo. Gaza diante do poder de Israel, com apoio econômico e militar dos Estados Unidos e com toda a negligência da ONU, não possui condições de resistir eternamente. Embora a luta palestina por sua existência já seja heroica, os palestinos precisam não só de apoio, mas de ajuda ampla e irrestrita. Daí a grande questão: até onde o Irã está disposto a se envolver no conflito?


                                                           

Nasrallah e Sinwar

(ex-líderes do Hezbollah e do Hamas eliminados por Israel)

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