Prof. Dr. Márcio José Mendonça
Após um ano de conflito entre as forças
israelenses e os grupos palestinos na Faixa de Gaza, a destruição completa do
espaço urbano deixa claro que Israel visou o espaço urbano com o propósito de
destruir a estrutura urbana que ampara e sustenta a vida da população que ali
vive, sejam eles, combatentes ou civis. O urbicídio como método de guerra para
destruir o ambiente urbano que permite uma resistência baseada na cidade, foi
então, empregado como poucas vezes se viu, na história recente, de tal forma,
que nessa altura, mesmo os maiores defensores da narrativa de combate ao
terrorismo, teriam dificuldade de esconder o genocídio praticado por Israel
contra mulheres e crianças palestinas indefesas, assassinadas aos milhares.
Embora a história e o conflito atual entre
israelenses e palestinos demonstre, que ambos os lados estão agindo com o
propósito de modelar o espaço urbano para abrir caminho para operações militares,
para assim atingir o inimigo severamente. É fato, que neste momento, Israel
está mais próximo de desferir um ataque fatal, do que o Hamas ou o Hezbollah,
de conquistar uma vitória militar que seja realmente impositiva aos israelenses. O cenário atual, com a decapitação das principais lideranças
do Hamas e do Hezbollah, além de ser um significativo golpe político na
resistência armada ao sionismo, demonstra uma certa fragilidade do Eixo da
Resistência sob liderança do Irã.
Nesse sentido, se o Hezbollah e
principalmente o Hamas, na Faixa de Gaza, demonstraram muita resiliência para
enfrentar um inimigo inegavelmente muito superior militarmente. Agora, o Hamas,
totalmente cercado e significativamente deteriorado após meses de combate e
resistência ferrenha, demonstra também, esgotamento de seus recursos, tanto em
meios materiais quanto humanos. É verdade, que no combate corpo a corpo pelas
ruas e pelos escombros de Gaza, os combatentes palestinos ainda são capazes de
causar danos, sobretudo a contar com o uso de lançadores portáteis de granadas
e com o fator surpresa no ambiente urbano. Por outro lado, o avanço de Israel
no terreno e não menos relevante a diminuição de ataques palestinos por meio de
foguetes contra o solo israelense, deixam, também claro, que as capacidades de
combate dos grupos palestinos de enfrentar Israel está se deteriorando.
Todos sabemos, que os insurgentes
palestinos, eram incapazes de efetuar uma guerra prolongada contra Israel em terreno
aberto, por isso, procuraram atrair as forças israelenses para o interior de
Gaza e assim impor uma derrota militar aos invasores. Por meio de ações
combinadas de guerrilha e guerra de atrito, as táticas dos grupos palestinos se baseiam em preparação do
terreno, com a elaboração de armadilhas e abrigos subterrâneos, os conhecidos
túneis, que foram e ainda estão sendo muito empregados em operações de ataque,
na retaguarda do inimigo, provocando muitas baixas as tropas israelenses.
Contudo, o prolongar do conflito e cerco
em Gaza, com apoio estadunidense que abastece Israel regularmente, implica em
um desafio ainda maior, com Israel impondo uma destruição ampla e sistemática
de toda a estrutura social e física no qual se apoia a vida da sociedade
palestina – uma verdadeira aniquilação de Gaza. É claro, que no campo de
batalha, ao entrar em Gaza e agora no Líbano, os soldados israelenses estão
expostos aos ataques de seus inimigos em combate direto e sujeitos a emboscadas
e ataques inesperados, de tropas bem treinadas. Dessa vez, israelenses não
estão a lutar contra palestinos ou libaneses desarmados e sem treinamento
militar adequado como foi em outros momentos. Com
a presença prolongada de soldados israelenses no campo de batalha, em Gaza, na
Cisjordânia ou no sul do Líbano, eles são alvos fáceis de guerrilheiros que
conhecem o ambiente urbano das cidades palestinas ou o relevo acidentado do sul
do Líbano, sendo o custo para eles, independente de toda superioridade
tecnológica, sem dúvida, muito alto. Todavia, Israel pretende dobrar a aposta
para afastar os grupos rivais de suas fronteiras e assim impor uma vitória duradoura
na região, ainda que arrisque muitas fichas e fique na torcida para o Irã não
se envolver diretamente na guerra. Israel hoje sabe que não pode vencer o Hamas ou o
Hezbollah em combate corpo a corpo em ambiente urbano, mas sabe que pode
destruir cidades e vilas palestinas e libanesas em uma grande extensão de destruição
urbicida.
Por isso, mesmo que o Hamas e os demais
grupos palestinos, a considerar os combates urbanos, tenham muito das vezes,
vencido as tropas israelenses em solo, em matéria de combate direto. Os danos
em Gaza infligidos por Israel são de tal magnitude, deixando o território sem
condições de habitabilidade, ao provocar um total retrocesso social e
econômico, tornando a resistência não só mais difícil, mas também, desastrosa
para os civis que ali vivem.
O desenrolar do conflito e o futuro da
resistência as ações de Israel agora implicam no envolvimento mais direto do
Irã e num preço ainda mais alto, que não só palestinos e libaneses, mas
iranianos, sírios e todo o Eixo da Resistência, precisa estar disposto a pagar
para enfrentar Israel, se de fato quiser frear o seu avanço e impor uma derrota
expressiva ao sionismo. Gaza diante do poder de Israel, com apoio econômico e militar dos
Estados Unidos e com toda a negligência da ONU, não possui condições de
resistir eternamente. Embora a luta palestina por sua existência já
seja heroica, os palestinos precisam não só de apoio, mas de ajuda ampla e irrestrita. Daí a grande
questão: até onde o Irã está disposto a se envolver no conflito?
Nasrallah e Sinwar
(ex-líderes do Hezbollah e do Hamas eliminados por
Israel)
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