sábado, 23 de novembro de 2024

Drones: projeção de poder e mundos possíveis

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Os conflitos na Ucrânia, na Palestina e no Líbano, provaram ao mundo, que a guerra moderna, seja ela travada em trincheiras, seja nos mares, seja nas cidades, é diferente daqueles que vimos até o século XX. Na guerra moderna os sistemas automatizados, equipamentos controlados remotamente à distância, versáteis e furtivos, como os drones, estão conquistando espaço e são fundamentais no campo de batalha, para uma finalidade de meios e aplicações. Isso não significa que a infantaria tenha perdido sua importância; ela continua indispensável para atacar, ocupar e manter o terreno. No entanto, sem o apoio de drones, as tropas em solo e os equipamentos militares no campo de batalha tornam-se vulneráveis e podem até mesmo se tornar obsoletos. Em guerras que, independentemente do ambiente, dependem cada vez mais de sistemas que proporcionem consciência situacional, os diversos tipos de drones são fundamentais para missões de ataque, transmissão de informações e codificação de dados.  

Para russos, ucranianos, israelenses e até mesmo para o Hamas, na Faixa de Gaza, o comando e o controle das operações, no campo de batalha, mudaram e agora grupos de assaltos são acompanhados por drones. Exemplos na Guerra da Ucrânia não faltam e na Palestina, o Hamas, também empregou drones no ataque de 7 de outubro de 2023, enquanto os drones israelenses continuam a sobrevoar o território da Faixa de Gaza e o Hezbollah ataca forças israelenses com drones, ao longo da fronteira no sul do Líbano. Para todos os casos, drones são usados em tarefas de vigilância, localização e designação de alvos, empregados, por fim, em ataques às posições de artilharia inimiga, em verdadeiras caçadas aos combatentes em terreno e contra equipamentos militares e infraestruturas civis.

Além de maior consciência situacional e precisão nos ataques, os drones possibilitam projeção de poder a longas distâncias. O emprego de drones na Guerra da Ucrânia, consiste num exemplo evidente da projeção de poder aéreo nas profundezas territoriais, tendo visto que drones russos e ucranianos conseguem furar defesas aéreas e atingir alvos no interior de ambos os países. O contra-ataque iraniano do dia 13 de abril, em resposta ao ataque israelense a sua embaixada na Síria, também corrobora com a ideia que estamos entrando na era dos ataques do tipo enxame, com emprego de ações coordenadas entre vários drones em situações de conflito, entre Estados-nacionais, mas também, por grupos armados diversos de diferentes matizes. Nesse âmbito, o Hezbollah, em junho de 2024, divulgou um vídeo feito por um drone da organização, que conseguiu adentrar dezenas de quilômetros no interior de Israel e além de monitorar áreas sensíveis, como a Base Naval de Haifa, acenou que poderia atacar pontos vitais no interior de Israel sem maiores empecilhos.

Os drones desempenham um importante papel na guerra de armas combinadas, empregada com uso de mísseis e drones, cujo o campo de batalha, já não é mais uma linha de contato entre dois exércitos, mas uma ampla área que recobre milhares de quilômetros e inclui uma série de camadas atmosféricas. Neste cenário de combate cada vez mais extenso, os russos estão dronificando bombas não guiadas, de pouca precisão, conhecidas como “bombas burras”, por meio da acoplagem de dispositivos planadores guiados que funcionam por geolocalização e a partir dessa nova técnica, utilizando bombas de até três mil toneladas (Bombas FAB-3000) em ataques contra o interior da Ucrânia. Os ataques realizados à considerável distância por aeronaves russas, do tipo SU-34, são feitos por bombas que seguem uma rota de coalizão e podem ser ajustados ao alvo de impacto remotamente.

Os ucranianos, por seu turno, também estão desenvolvendo seus dispositivos e além dos drones navais, de grande impacto na guerra marítima travada no Mar Negro, criaram muitos outros dispositivos eficientes na guerra terrestre. Destaque, em particular, para o drone Baba Yaga, descrito como um “drone bombardeiro vampiro”, apelido em referência à criatura mitológica eslava, Baba Yaga, uma espécie de bruxa sobrenatural que algumas vezes é traduzida no Ocidente, também como Bicho Papão. Na verdade, um drone de pequenas dimensões, capaz de carregar cargas explosivas maiores que o seu diâmetro e mais pesadas que a massa do drone, temido por soldados russos no campo de batalha.

Outra inovação, em matéria de drones empregados pelos ucranianos, foi posto em ação no segundo semestre de 2024. Essa nova arma, diferente de todos os demais modelos de drones desenvolvidos até então, foi apelidado de Drone Dragão, tendo em vista que consiste numa espécie de lançador de chamas aéreo, que literalmente cospe fogo de cima para baixo, em posição vertical. Estes drones amplamente utilizados por Kiev, são empregados com o propósito de queimar áreas verdes e florestas, afim de evitar a formação de esconderijos para soldados e equipamentos russos. Para isso, as aeronaves utilizam uma substância altamente incendiária chamada térmita para colocar fogo na vegetação. Os russos, embora não tenham tido inicialmente a mesma criatividade dos ucranianos com uso de drones lançadores de chamas, agora também estão aplicando os seus protótipos em campo de batalha.

Não só uma tendência, mas uma realidade do espaço de batalha tridimensional, repleto de armas de fogo, de sensores e equipamentos virtuais, com os drones e uma gama de dispositivos, o campo de batalha passa a ser um holograma virtual, em que as camadas atmosféricas são ambientes atmosféricos de combate povoados com drones e outras aeronaves.

Do teatro de guerra em trincheiras ou nos oceanos, na guerra urbana, também, os drones estão se destacando, sendo empregados, além de missões de ataque, em operações de reconhecimento em ruas, na identificação de emboscadas e na busca de fortificações ou até mesmo em operações de infiltração em esconderijos, bases e túneis inimigos. Assim, o uso de drones para múltiplas tarefas, no campo de batalha, inscreve uma mudança de paradigma do combate, em que o controle do espaço, por sistemas vigilância e de armas combinadas, representam um importante papel na doutrina militar e na estrutura organizacional de operações militares, cujo o controle do espaço de batalha, enquanto conteúdo e forma, de um espaço multiverso, é cada vez mais fundamental. Nesse cenário de operações, as ações de combate ocorrem e são coordenadas entre o espaço subterrâneo de bunkers e túneis e o espaço aéreo, repleto de sistemas de vigilância interconectados. O sucesso na guerra depende do controle tridimensional do campo de batalha, em uma disputa por volumes — do ciberespaço ao bunker mais profundo —, em vez de uma simples conquista territorial.

Todavia, para alento da humanidade, mesmo na era do capitalismo tecnológico, nem todos os usos de inovações tecnológicas são voltados para a guerra e controle disciplinar da sociedade. Embora os drones sejam convencionalmente associados às práticas e operações no meio militar, eles também possuem muitos usos civis e podem, muito bem, ser reconceptualizados e empregados numa verdadeira “reimaginação coletiva”, com usos solidários e fins pacíficos como parte de uma mudança operativa na política atmosférica. O espaço aéreo e a manipulação de ambientes atmosféricos são uma questão em disputa, envolvendo as tecnologias e os mundos que podem vir a ser construídos e reivindicados por atores não hegemônicos, que estão a lutar contra a atual ordem global.

Outros usos e políticas espaciais não violentas através do emprego de drones são possíveis. Kaplan (2020), por exemplo, mostra que o uso de drones por “jornalistas amadores” ou “testemunhas civis”, para denunciar o uso da violência estatal contra a população, em movimentos de protesto, estão a enfrentar a dronificação militar do espaço aéreo e dispostos a criar novas possibilidades de uma política atmosférica mais humana e não necessariamente voltada para a guerra. Os drones são a nova fronteira de disputa entre os propósitos coletivos de uso das tecnologias, em benefício de uma maioria e os usos destrutivos da geopolítica hegemônica do mundo capitalista. Independente da forma de conceptualização dos drones que está se impondo, o futuro não foi escrito e ainda há um mundo de possibilidades com uso dos drones em favor da humanidade.


KAPLAN, Caren. Atmospheric politics: protest drones and the ambiguity of airspace. Digital War, v. 1, p. 50-57, março. 2020.

*Este texto consiste num fragmento do livro "Guerra dos drones: análise e perspectiva do campo de batalha" em fase de finalização. 

**Leia também "Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro". Adquira o seu livro pelo link:
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