Prof. Dr. Márcio José Mendonça
22 de abril de 1915 marca o registro da
primeira guerra de gás venenoso da história, quando nuvens de fumaça amarela
subiram das trincheiras alemãs, em direção às divisões francesas, causando
pânico na linha de defesa francesa. Era a guerra de trincheiras, fato conhecido
da I Guerra Mundial e os soldados para sobreviver as circunstâncias do combate,
precisavam evitar que seus corpos ficassem expostos aos ataques de artilharia e
avanços das tropas no terreno. Por isso, viviam em meio ao esgoto e lama das
trincheiras, escondidos em fortificações ou túneis do front de batalha. Atingir o inimigo em conflito direto havia se
tornado uma tarefa mais difícil e as defesas construídas ou escavadas, às
vezes, a poucos metros de distância uma da outra, dificultavam o avanço no
terreno quando o inimigo podia ser esconder em estruturas que favoreciam a sua
proteção e ofereciam posição privilegiada de defesa contra avanços de
infantaria no terreno.
Não por acaso, valendo-se da observação
dos conflitos no último século, Sloterdijk considera que “o século XX será
lembrado como a era cujo pensamento essencial consistiu em atingir não mais o
corpo, mas o ambiente do inimigo” (2009, p. 14, tradução livre). E, ao afirmar
isso, ele ainda lembra Shakespeare, para enfatizar que se considera a vida de
outra pessoa tomando o meio pelo qual ela vive. Dessa forma, Sloterdijk
conclui, que se toma o ar pelo qual se respira e todo o ambiente indispensável
à manutenção da vida, para privar o inimigo de um meio de sobrevivência.
Na guerra moderna, se o “corpo do inimigo
não pode mais ser liquidado com impactos diretos, em seguida, o atacante é
forçado a tornar impossível a existência contínua do inimigo, por sua imersão
direta em um ambiente inviável por um período suficientemente longo”
(SLOTERDIJK, 2009, p. 15, tradução livre). Exemplo disso, foi, que ainda na I
Guerra Mundial, os soldados entrincheirados tornaram-se inacessíveis a armas
convencionais: daí Sloterdijk salientar a descoberta do ambiente como um meio
pelo qual se pode fazer a guerra, usando gás venenoso, para atingir as tropas,
afetando as condições físicas do ambiente e, por conseguinte, as funções vitais
do inimigo. Ademais, ao operar ambientes artificiais, para atacar as
fragilidades biológicas dos adversários, Sloterdijk (2009) verifica que a
manipulação do ambiente age no sentido de criar uma modalidade de terrorismo
atmosférico que assume a forma de assalto às condições de “vida ambientais”.
Dessa maneira, a criação de ambientes artificiais para atingir os corpos e,
mais precisamente, o sistema respiratório dos inimigos, ele chama de atmoterrorismo. Ataques químicos e
biológicos estariam, portanto, inseridos nessa lógica, ao provocar a eliminação
do inimigo a partir da manipulação das propriedades físicas e biológicas do
ambiente.
Após 10 meses de conflito em Gaza, autoridades dos serviços de saúde palestinas dizem que a campanha militar de Israel em Gaza matou mais de 40 mil palestinos, a maioria deles civis, e expulsou de suas casas a maior parte da população de Gaza. Segundo reportagem da BBC, estima-se que mais de 330.400 toneladas de resíduos sólidos tenham se acumulado no território do enclave de Gaza durante os últimos oito meses de conflito entre Israel e as facções palestinas. Além disso, a destruição provocada pelos bombardeios israelenses levou os habitantes de Gaza a viverem entre esgoto e montanhas de lixo. Milhares de pessoas que fugiram da ofensiva de Israel em Rafah foram forçadas a viver em áreas abertas que haviam sido transformadas em aterros temporários de lixo, locais onde o cheiro emitido pelas toneladas de lixo não coletado e pelos corpos que foram deixados sob os escombros e que, no momento, são impossíveis de recuperar, produzem um cheiro insuportável de podridão que infesta o ambiente.
Além dos bombardeios e incursões terrestres de Israel no território que provocaram a destruição da rede de esgoto e de abastecimento de água potável na região, mas também a destruição do sistema de saúde palestino em Gaza, os palestinos agora terão que enfrentar a guerra biológica de Israel: o poliovírus foi detectado em julho de 2024 em amostras ambientais em Khan Younis e Deir al-Balah. Pelo menos três crianças palestinas apresentaram sintomas de poliomielite, doença que havia sido erradica de Gaza, que por causa da destruição da infraestrutura do território e impedimento de entrada humanitária, ameaça se espalhar por campos de refugiados insalubres amontoados de pessoas malnutridas.
Capítulo dos mais dramáticos da nova
fase da guerra em Gaza e do genocídio palestino, com uso calculado da
destruição e cerco em Gaza, como instrumento de guerra para manipular o
ambiente e assim estimular a proliferação de doenças infeccionas com o
propósito de causar danos a população e aos combatentes palestinos. Entrincheirados em uma complexa e extensa rede de túneis subterrâneos a resistência armada palestina ainda
consegue, de alguma forma, enfrentar as forças israelenses muito melhor
equipadas. Não só o Hamas e os demais grupos palestinos, mas no grosso, toda a população palestina, que resiste com sua resiliência diante de meses de ataques indiscriminados, precisa ser quebrada por Israel, caso contrário, sua vitória no campo de batalha não é certa. Por isso os civis e a estrutura urbana de Gaza, muito além de danos colaterais, são alvo dos ataques de Israel de forma direta ou indireta. A cada um palestino morto pelos ataques diretos de Israel as
agências de saúde palestinas estipulam ao menos outras três mortes indiretas,
por conta da proliferação de doenças e da fome endêmica causada pelo cerco
israelense, no primeiro genocídio televisionado do século XXI.
Faixa de Gaza
Fontes:
SLOTERDIJK, Peter. Terror from the air. New York: Semiotext, 2009.
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy941j928lyo

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