segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Atmoterrorismo em Gaza: a guerra biológica de Israel contra os palestinos

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

22 de abril de 1915 marca o registro da primeira guerra de gás venenoso da história, quando nuvens de fumaça amarela subiram das trincheiras alemãs, em direção às divisões francesas, causando pânico na linha de defesa francesa. Era a guerra de trincheiras, fato conhecido da I Guerra Mundial e os soldados para sobreviver as circunstâncias do combate, precisavam evitar que seus corpos ficassem expostos aos ataques de artilharia e avanços das tropas no terreno. Por isso, viviam em meio ao esgoto e lama das trincheiras, escondidos em fortificações ou túneis do front de batalha. Atingir o inimigo em conflito direto havia se tornado uma tarefa mais difícil e as defesas construídas ou escavadas, às vezes, a poucos metros de distância uma da outra, dificultavam o avanço no terreno quando o inimigo podia ser esconder em estruturas que favoreciam a sua proteção e ofereciam posição privilegiada de defesa contra avanços de infantaria no terreno.

Não por acaso, valendo-se da observação dos conflitos no último século, Sloterdijk considera que “o século XX será lembrado como a era cujo pensamento essencial consistiu em atingir não mais o corpo, mas o ambiente do inimigo” (2009, p. 14, tradução livre). E, ao afirmar isso, ele ainda lembra Shakespeare, para enfatizar que se considera a vida de outra pessoa tomando o meio pelo qual ela vive. Dessa forma, Sloterdijk conclui, que se toma o ar pelo qual se respira e todo o ambiente indispensável à manutenção da vida, para privar o inimigo de um meio de sobrevivência. 

Na guerra moderna, se o “corpo do inimigo não pode mais ser liquidado com impactos diretos, em seguida, o atacante é forçado a tornar impossível a existência contínua do inimigo, por sua imersão direta em um ambiente inviável por um período suficientemente longo” (SLOTERDIJK, 2009, p. 15, tradução livre). Exemplo disso, foi, que ainda na I Guerra Mundial, os soldados entrincheirados tornaram-se inacessíveis a armas convencionais: daí Sloterdijk salientar a descoberta do ambiente como um meio pelo qual se pode fazer a guerra, usando gás venenoso, para atingir as tropas, afetando as condições físicas do ambiente e, por conseguinte, as funções vitais do inimigo. Ademais, ao operar ambientes artificiais, para atacar as fragilidades biológicas dos adversários, Sloterdijk (2009) verifica que a manipulação do ambiente age no sentido de criar uma modalidade de terrorismo atmosférico que assume a forma de assalto às condições de “vida ambientais”. Dessa maneira, a criação de ambientes artificiais para atingir os corpos e, mais precisamente, o sistema respiratório dos inimigos, ele chama de atmoterrorismo. Ataques químicos e biológicos estariam, portanto, inseridos nessa lógica, ao provocar a eliminação do inimigo a partir da manipulação das propriedades físicas e biológicas do ambiente.

Após 10 meses de conflito em Gaza, autoridades dos serviços de saúde palestinas dizem que a campanha militar de Israel em Gaza matou mais de 40  mil palestinos, a maioria deles civis, e expulsou de suas casas a maior parte da população de Gaza. Segundo reportagem da BBC, estima-se que mais de 330.400 toneladas de resíduos sólidos tenham se acumulado no território do enclave de Gaza durante os últimos oito meses de conflito entre Israel e as facções palestinas. Além disso, a destruição provocada pelos bombardeios israelenses levou os habitantes de Gaza a viverem entre esgoto e montanhas de lixo. Milhares de pessoas que fugiram da ofensiva de Israel em Rafah foram forçadas a viver em áreas abertas que haviam sido transformadas em aterros temporários de lixo, locais onde o cheiro emitido pelas toneladas de lixo não coletado e pelos corpos que foram deixados sob os escombros e que, no momento, são impossíveis de recuperar, produzem um cheiro insuportável de podridão que infesta o ambiente. 

Além dos bombardeios e incursões terrestres de Israel no território que provocaram a destruição da rede de esgoto e de abastecimento de água potável na região, mas também a destruição do sistema de saúde palestino em Gaza, os palestinos agora terão que enfrentar a guerra biológica de Israel: o poliovírus foi detectado em julho de 2024 em amostras ambientais em Khan Younis e Deir al-Balah. Pelo menos três crianças palestinas apresentaram sintomas de poliomielite, doença que havia sido erradica de Gaza, que por causa da destruição da infraestrutura do território e impedimento de entrada humanitária, ameaça se espalhar por campos de refugiados insalubres amontoados de pessoas malnutridas.

Capítulo dos mais dramáticos da nova fase da guerra em Gaza e do genocídio palestino, com uso calculado da destruição e cerco em Gaza, como instrumento de guerra para manipular o ambiente e assim estimular a proliferação de doenças infeccionas com o propósito de causar danos a população e aos combatentes palestinos. Entrincheirados em uma complexa e extensa rede de túneis subterrâneos a resistência armada palestina ainda consegue, de alguma forma, enfrentar as forças israelenses muito melhor equipadas. Não só o Hamas e os demais grupos palestinos, mas no grosso, toda a população palestina, que resiste com sua resiliência diante de meses de ataques indiscriminados, precisa ser quebrada por Israel, caso contrário, sua vitória no campo de batalha não é certa. Por isso os civis e a estrutura urbana de Gaza, muito além de danos colaterais, são alvo dos ataques de Israel de forma direta ou indireta. A cada um palestino morto pelos ataques diretos de Israel as agências de saúde palestinas estipulam ao menos outras três mortes indiretas, por conta da proliferação de doenças e da fome endêmica causada pelo cerco israelense, no primeiro genocídio televisionado do século XXI.

Faixa de Gaza 

Fontes:

SLOTERDIJK, Peter. Terror from the air. New York: Semiotext, 2009.

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy941j928lyo



segunda-feira, 22 de julho de 2024

“Soldados TikTok”: o uso do celular no campo de batalha


Prof. Dr. Márcio José Mendonça

O uso de celulares por combatentes no campo de batalha na guerra da Ucrânia mostrou ao mundo como os telefones móveis estão sendo gradualmente integrados aos sistemas de guerra moderno. O emprego de telefones móveis em operações militares, incentivou uma ampla gama de inovações tecnológicas e improvisos criativos feitos por combatentes, que ao serem amplamente utilizados por soldados e anônimos que vivenciam a guerra, in loco, tornaram evidente como a midiatização da guerra por meio dos telefones móveis estão organizando narrativas e experiências vividas nos campos de batalhas na era moderna das redes sociais.

No início da Guerra da Ucrânia chamou a atenção o fato dos telefones móveis serem amplamente usados com propósitos de espetacularização da guerra. A midiatização da guerra com uso, inclusive, de entretenimento, foi amplamente feita pelos soldados chechenos de Ramzan Kadyrov, chefe da República da Chechênia e aliado direto de Vladimir Putin, que usaram dos seus telefones móveis pessoais para divulgar nas redes sociais, em especial no TikTok, uma série de vídeos promocionais de suas ações no campo de batalha na Ucrânia com fins de propaganda militar em conformidade aos interesses de Moscou. O uso extensivo dos celulares em vídeos promocionais provocou inclusive comentários negativos de blogueiros pró-Ucrânia, ao evidenciar possíveis montagens feitas por Kadyrov e seus homens, tratando-se então de falsificações, já que em algumas imagens, eles atiravam a esmo em ruas e prédios, sem a presença de combatentes ucranianos. Por conta dessas ações e uso sistemático das redes sociais, os soldados chechenos foram apelidados (embora os ucranianos também o façam) na internet (“e a internet não perdoa, dizem os internautas”) de “soldados TikTok”.

Além do uso do telefone móvel para fins de propaganda militar, os celulares são usados em escutas telefônicas, ataques contra alvos, mapeamento de campos minados e uma variedade de propósitos pessoais. Nesse âmbito, é comum que soldados usem seus equipamentos pessoais para realizar tarefas de uso militar. Assim, um único equipamento pode desempenhar dupla função, de uso pessoal do soldado e de comunicação de combate, com a finalidade de preencher as lacunas de informação e comunicação da infraestrutura militar. De apenas um aparelho de celular um combatente pode acessar dados de geolocalização sensíveis e controlar ações de ataque ou monitoramento por meio do emprego de drones. Um exemplo claro, de combinação de usos civis e com propósitos de guerra tecnológico com uso dos telefones móveis.

Outro evidente caso de imbricação entre os meios de uso civil do celular com propósitos militares, foram observados com soldados da Força de Defesa de Israel, que procuraram informação em grupos de redes sociais como o Telegram e outros meios digitais, por meio dos seus celulares pessoais, logo após os ataques efetuados pelo Hamas, em 7 de outubro de 2023, com o intuito de obter informações e a localização dos combatentes palestinos que haviam cruzado o muro de separação e invadido os territórios ocupados por Israel, naquela ocasião. Para Horbyk (2022), o uso do celular integrado ao engajamento de meios militares, é um evidente exemplo de guerra híbrida, uma vez que, no campo de batalha, a guerra moderna é travada em parte como uso de ferramentas civis e de uso privado de forma combinada aos meios militares como instrumento de guerra digital e tecnológica.

No conflito entre Israel e os palestinos, ambos os lados, estão usando do celular com fins de propaganda e como sistemas integrados aos equipamentos militares na guerra urbana na Faixa de Gaza. Nesse conflito, gravações de vídeos feitos por combatentes, por meio de celulares, referindo-se diretamente do campo de batalha, são repercutidas na internet em inúmeras redes sociais, permitindo dessa forma o acompanhamento (quase) em tempo real das operações militares no campo de batalha. A difusão e ampla repercussão de vídeos de ataques contra civis e equipamentos urbanos referidos diretamente da Faixa de Gaza, estão sendo chamados, em particular, por Ualid Rabah*, de “primeiro genocídio televisionado da história”. Em virtude da amplitude da destruição e alto número de morte de civis palestinos no conflito, vídeos de crianças e mulheres atingidos por bombas e ataques indiscriminados são propagados e repercutidos na internet por meio de telefones móveis, sendo agora de conhecimento público, inclusive das autoridades das Nações Unidas, que pouco fazem, nesse campo, para garantir a proteção dos civis naquele conflito.

Ademais, além dos casos verificados no exterior, importa ressaltar que o uso de celulares na cobertura e repercussão de conflitos militares, não é, entretanto, exclusivo das guerras na Ucrânia ou na Palestina. Em grandes metrópoles e cenários extremamente urbanizados como o Rio de Janeiro, que não vivenciam uma guerra convencional ou conflito de alta intensidade, mas ainda assim, são marcados pela violência, medo e in-segurança urbana, uma espécie de “clima de guerra civil”, entre disputas de diferentes grupos armados, oferecem também registros audiovisuais notáveis capturados por telefones móveis que são repercutidos na internet por civis que vivem nessas localidades ou por forças armados envolvidas diretamente nos combates.

Um caso espetacular, também recente, foi registrado por um morador do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, em abril de 2024, que da janela de sua casa flagrou intenso tiroteio entre traficantes e policiais, com emprego do helicóptero militar da polícia contra as posições dos traficantes. Por tratar-se de área densamente povoada, por dano colateral, obviamente também, os ataques são contra as casas, ruas e becos das demais edificações da favela, espaços e ambientes da vida cotidiana de muitos que ali vivem e transitam diariamente. Mesmo assim, no vídeo, em tom tranquilo e apaziguador o morador diz: “Se alguém for descer para comprar pão, traz dois reais de pão para mim e três de mortadela para mim, por favor”**. Um retrato ilustrativo da banalização da violência em espaços segregados da cidade do Rio de Janeiro, em que a violência e ação de grupos armados, fazem parte do cotidiano de milhares de pessoas à mercê da violência de traficantes, grupos milicianos e das forças de repressão do Estado. 

De todas as maneiras, seja na Ucrânia, Palestina ou Rio de Janeiro, guardadas todas as diferenças, proporções e múltiplas relações ou variáveis, o uso de celulares por combatentes e civis têm permitido uma maior cobertura e compreensão situacional no campo de batalha, sendo recurso na guerra moderna indispensável, seja como elemento do ponto de vista da guerra eletrônica ou como equipamento de espetacularização da guerra. Embora os efeitos da midiatização da guerra e mudanças no campo de batalha, bem como, os novos efeitos psicológicos em civis e combatentes, com a introdução dos telefones moveis, em áreas de conflito, ainda demande mais trabalhos sobre o tema. O relevante ensaio feito por Horbyk (2022), com foco na Guerra da Ucrânia, além do nosso trabalho publicado recentemente sobre a guerra na Faixa de Gaza (Mendonça, 2024), fornecem um debate preliminar e talvez um caminho para trabalhos posteriores de maior vulto. 



* Presidente da FEPAL - Federação Árabe Palestina do Brasil. 

** Vídeo disponível no Portal Mídia / TV Mídia no Youtube (26 de abril de 2024): https://www.youtube.com/watch?v=F6zSVQ20nsg


Fontes:

HORBYK, Roman. The war phone”: mobile communication on the frontline in Eastern Ukraine. Digital War, v. 3, s/p, dezembro. 2022. Link de acesso: https://www.researchgate.net/publication/364620136_The_war_phone_mobile_communication_on_the_frontline_in_Eastern_Ukraine

 

MENDONÇA, Márcio José. Guerra Urbana em Gaza: 100 dias de combate entre Israel e Palestina. Ensaios de Geografia. v. 11, nº 24, p.1-30, 2024. Link de acesso: https://periodicos.uff.br/ensaios_posgeo/article/view/61784

terça-feira, 2 de julho de 2024

Guerra urbana em Gaza

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Em recente artigo publicado pela Revista Ensaios de Geografia, analiso o emprego de táticas, tecnologias e abordagens de guerra urbana entre Israel e a resistência palestina, cuja principal facção é o Hamas, sitiada na Faixa de Gaza, ao longo de cem dias de combate, entre outubro de 2023 e janeiro de 2024. O trabalho consiste numa minuciosa avaliação dos combates urbanos na Faixa de Gaza e para efeito de estudo, o trabalho realiza uma abordagem dialética das trajetórias dos grupos armados em conflito no espaço urbano da Faixa de Gaza com o propósito de compreender as dinâmicas espaciais implicadas no espaço de batalha.

Dessa maneira, o artigo busca, por meio da análise comparativa de interpretação socioespacial/territorial do conflito, evidenciar as concepções de combate aplicadas no terreno a partir das táticas e formas de organização do território, bem como os respectivos meios militares empregados. Assim, o artigo evidencia que as dinâmicas espaciais dos grupos armados em disputa no território configuram o espaço de batalha ordenado por múltiplas camadas espaciais. Com enfoque nas táticas dos grupos em combate no espaço urbano da Faixa de Gaza, observa-se que Israel opera por meio do urbicídio, pratica que consiste na destruição deliberada do espaço urbano enquanto política de guerra. Por sua vez, os grupos palestinos, em sua luta insurgente, usam do ambiente urbano para organizar suas ações de resistência em situação de combate urbano.

Leia o artigo na integra acessando o link: https://periodicos.uff.br/ensaios_posgeo/article/view/61784

Cartoon de Osama hajjaj (disponível no Instagram)

 


domingo, 16 de junho de 2024

Tensões na geopolítica da Eurocopa 2024

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A maior competição de futebol da Europa iniciou no último dia 14 de junho. Com sede na Alemanha e com 24 equipes participantes, poucas vezes na história, o torneio foi alvo de tantas tensões e conflitos como a Eurocopa de 2024 promete. O esporte muitas vezes reflete o contexto social e o cenário geopolítico das nações envolvidas. O futebol, por exemplo, esporte mais popular do mundo, não foge à regra e pode muito bem ser o palco de aumento das tensões ou um importante instrumento de pacificação dos conflitos.

Para compreender o cenário que envolve a Eurocopa de 2024, basta um breve olhar sobre as nações no tabuleiro da geopolítica europeia dos últimos tempos, começando pelo antigo barril de pólvora dos Balcãs. A região foi o estopim da Primeira Guerra Mundial quando o arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria, herdeiro ao trono austro-húngaro, foi assassinado em 1914 na cidade de Sarajevo. Não muito diferente do início do século passado, a região nas últimas décadas, vive em frequente ebulição desde a desagregação da Iugoslávia. No final dos anos 1980, a morte do Marechal Josip Broz, conhecido como Tito, um líder popular e importante figura da unidade nacional iugoslava, que reunia sérvios, croatas, bósnios, eslovenos, albaneses, macedônios e montenegrinos, numa mesma identidade nacional de uma frágil colcha de retalhos de uma federação de repúblicas, que compunham a Iugoslávia. Foi acompanhada de uma acentuada crise no regime socialista no Leste Europeu, assim, o súbito colapso das repúblicas iugoslavas rapidamente evoluiu para uma Guerra Civil que deixou além de 140 mil mortos, profundas feridas nos povos da península balcânica e fronteiras indefinidas na região.

Após dez anos de conflitos recheados com períodos de maior violência e breves calmarias, vividos entre 1991-2001, durante a Guerra Civil Iugoslava. O mapa da região mudou totalmente e a grande Iugoslávia desapareceu por completo dando origem a pequenos Estados (Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Montenegro e Kosovo). No entanto, disputas territoriais continuam em pauta e as rivalidades após anos de uma paz velada, estão novamente a flor da pele na região. A Sérvia, principal força político e militar da ex-Iugoslávia, se julga vítima da agressão do Ocidente, com apoio da OTAN, que levou ao seu enfraquecimento regional e perda de territórios. Nesse âmbito, o arrastar da fragmentação da Iugoslávia com o último desmembramento do Kosovo, de maioria albanesa, mas com uma importante minoria sérvia, é outro exemplo do aumento das tensões na região e um reflexo que o conflito está longe do fim. A Sérvia não reconhece até hoje a independência do Kosovo e responsabiliza o Ocidente, por interferência da OTAN, entenda-se Estados Unidos e seus principais aliados europeus, por atuar na região contra os sérvios, antigos aliados dos russos, estimulando e apoiando movimentos separatistas nacionalistas com o propósito de enfraquecer a hegemonia regional dos sérvios nos Balcãs, o que fatidicamente culminou com o fim da Iugoslávia.

No novo mapa da região balcânica, os sérvios viram sua fronteira mudar de lugar por mais de uma vez e o seu país mudar de nome sucessivamente ao longo dos últimos anos. Um exemplo das mudanças repentinas que os sérvios tiveram que enfrentar pode ser vista, de forma ilustrativa, no caso do ex-jogador de futebol sérvio, Dejan Stankovic, que por conta das frequentes mudanças de nome de seu país, foi o único futebolista da história a disputar três Copas do Mundo por três países diferentes (figura abaixo).


Futebol Mil Grau (Facebook)

E as tensões prometidas para a Eurocopa de 2024 já vieram à tona, hoje, 16 de junho, três dias apenas após o início da competição. O problema ocorreu entre torcedores da Sérvia, da Albânia, e da Inglaterra (os famosos hooligans), que entraram em confronto na cidade alemã de Gelsenkirchen quando acompanhavam a partida da Sérvia contra a Inglaterra. Como vimos as rivalidades entre as nações balcânicas remonta aos conflitos étnicos dos Balcãs e problemas ainda maiores são prováveis de ocorrer nessa Eurocopa, nas próximas partidas, no jogo em que a Croácia enfrenta a Albânia, no próximo dia 19 de junho, e a Sérvia encara a Eslovênia, na sequência, na data de 20 de junho.

Exemplos de hostilidades entre nações da antiga Iugoslávia são frequentes em competições esportivas. Em 2018, durante a Copa do Mundo, na Rússia, muitos devem se lembrar, os jogadores da Suíça Xhaka e Shaqiri, celebraram a virada por 2-1 contra os sérvios, cruzando as mãos e entrelaçando os polegares (figura abaixo). O sinal foi uma referência à águia que integra a bandeira da Albânia, país que reconhece e apoia a existência do estado de Kosovo. Para os jogadores, a atitude tem explicação em suas famílias. Os pais de Xhaka fugiram da região dos Balcãs durante a Guerra Civil Iugoslava. Já Shaqiri, por sua vez, nasceu em Gjilan, município que pertence atualmente ao Kosovo, de maioria albanesa, mas foi com seus pais para a Suíça por causa da guerra na região.

Xhaka comemora gol contra a Sérvia fazendo alusão à bandeira da Albânia, na Copa do Mundo de 2018, na Rússia (internet)

As tensões para a Euro2024 não param por aí. O conflito no Leste Europeu, entre Ucrânia e Rússia, é o mais mortífero da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial e pode arrastar toda a Europa para uma guerra mundial envolvendo não só os europeus, mas os Estados Unidos também, que financiam e apoiam diretamente os ucranianos por intermédio da OTAN. A Rússia está suspensa de competições oficiais da FIFA e UEFA, o que explica sua ausência da Eurocopa, mas os ucranianos se classificaram para a competição e sua presença implica em um grande aparato de segurança e aumento das tensões. Não que os russos planejem um atentado, mas a presença ucraniana em detrimento da exclusão russa das competições, de forma unilateral, expressa a tentativa de usar da competição com fins políticos, fato que os russos se queixam acusando a mídia Ocidental de manipular a opinião pública.

Manifestações políticas durante a Eurocopa podem ocorrer e são esperadas por conta da Guerra na Ucrânia e do conflito na Faixa de Gaza, com o genocídio palestino em curso que a mídia corporativa tenta esconder. Mas isso não é tudo, a ascensão de partidos de extrema direita, ligados a grupos neofascistas na Alemanha, sede do torneio, na França, na Espanha, em Portugal e outros países, são outro elemento a colocar mais pimenta no caldeirão europeu no decorrer da competição. Futebol e política andam junto na Euro2024. 



quinta-feira, 6 de junho de 2024

Urbanização do urbicídio no Rio de Janeiro

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

O urbicídio consiste no uso da violência política como meio de atacar e destruir de forma deliberada o ambiente urbano, em que se apoia a vida de um grupo ou população definida como inimigo. Na guerra da Bósnia, nos anos 1990, ao conflito na Ucrânia ou na Palestina, o urbicídio tem sido empregado para negar o espaço urbano enquanto ambiente de existência coletiva e ao destruir a estrutura urbana que ampara a vida de um determinado agrupamento, que ali habita, age no sentido de criar homogeneidades territoriais e espaços profundamente segregados por meio do uso de força militar.

No Rio de Janeiro, embora o urbicídio seja menos intenso e não implique na destruição completa da cidade ou da estrutura urbana, o método da violência política por meios militares do urbicídio, também é empregado de forma sistemática com o elemento adicional de interagir e participar da construção/produção do espaço urbano, portanto, uma forma híbrida de urbicídio. Assim, o urbicídio funciona como uma dinâmica de espoliação/despossessão, que atua de forma predatória destruindo os comuns urbanos em nossa época, pela luta do monopólio da renda urbana, ou seja, uma forma de monopólio da renda de caráter urbicida, que assume, nesse caso, uma roupagem de atividade econômica, porém ilegal e destrutiva com a participação de grupos armados como traficantes de drogas, grupos milicianos e a participação das forças de repressão do Estado.

A esse mecanismo que age pela operacionalização da atividade urbicida, de cunho exploratório e espoliativo, gerando economias políticas predatórias, que organizam um nicho de mercadorias e serviços urbanos ilegais, denomina-se de “urbanização do urbicídio”, ou seja, uma forma de espoliação/despossessão do espaço urbano, que se dá mediante ao uso de violência física e simbólica, inerente à prática de apropriação do espaço urbano e de seus recursos, com grupos armados, os mais diversos, apropriando de uma série de atividades, vinculadas à construção civil e oferta de infraestrutura e serviços na cidade. Para mais detalhes sobre o tema, aplicado ao caso do Rio de Janeiro, consulte o artigo abaixo: https://periodicos.ufrb.edu.br/index.php/novos-olhares-sociais/article/view/4738


Foto Rede Brasil Atual

terça-feira, 7 de maio de 2024

Invasão a Rafah

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Ontem, dia 6 de maio, Israel concedeu aval ao último estágio do genocídio palestino e operações de invasão a cidade de Rafah, ao sul da Faixa de Gaza, iniciaram-se, hoje, e estão em curso nesse momento. Após o Hamas realizar uma importante concessão e aceitar o cessar-fogo imposto por Israel, Benjamin Netanyahu autorizou o ataque ao último refúgio palestino na estreita faixa de terra daquele território, pelo Sul, nos limites com a fronteira egípcia. Hoje, dia 7 de maio, militares israelenses assumiram o controle do lado de Gaza da passagem de Rafah, pela única passagem entre Gaza e o Egito, um ponto de entrada crucial para a ajuda humanitária ao enclave palestino sitiado.

Rafah é uma das maiores cidades da Faixa de Gaza e por causa do conflito centenas de milhares de palestinos se refugiaram na cidade e em suas imediações, na tentativa de fugir dos ataques e combates mais intensos, que se concentram mais ao norte. Embora a região concentre a maior parte da população palestina, desde o início da guerra, com presença significativa de crianças e mulheres, Netanyahu, primeiro-ministro israelense justifica a invasão com o propósito de libertar os reféns israelenses sequestrados desde o dia 7 de outubro e com a finalidade última de eliminar o Hamas da região.  

Entretanto, o real objetivo de Israel, nem sempre dito pela mídia hegemônica, consiste, na verdade, na destruição daquilo que ainda resta de infraestrutura urbana, na Faixa de Gaza, ao colocar em prática a etapa final do plano urbicida. O "urbicídio palestino" caracteriza-se dessa forma pela completa destruição de toda e qualquer estrutura urbana que ampara a sociedade palestina, com o propósito de forçar o deslocamento da população daquela região, em mais uma onda de refugiados para os países vizinhos, em particular o Egito. Em outras palavras, o urbicídio colocado em marcha por Israel, é um método de guerra urbana, empregado contra a população civil com o objetivo de inviabilizar a existência palestina na Faixa de Gaza, ao destruir a infraestrutura física e qualquer possibilidade dos palestinos habitarem o território.

Nesse sentido, na medida em que a fome aumenta e os conflitos se intensificam na região, sobretudo nas proximidades ao muro que separa Gaza do Egito, Israel provavelmente pretende abrir a fronteira pela passagem de Rafah ou, talvez, até mesmo, derrubar o muro, provavelmente acusando o Hamas do feito, permitindo, melhor dizendo, forçando os palestinos a cruzar a fronteira em direção ao Sinai, no Egito. As intenções de Israel no prolongamento do conflito, assim atendem, portanto, a dois objetivos:


·      Completar o plano urbicida em Gaza e inviabilizar o retorno de palestinos para suas casas, ao tornar o território inabitável;
·     Tornar as fronteiras entre o Egito e a Faixa de Gaza suficientemente porosas ou abertas para impor uma fuga mássica de refugiados.


Foto de Said Hassan

Adquira o livro “Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro” pelo link: https://www.amazon.com.br/Espa%C3%A7o-batalha-urbic%C3%ADdio-cidade-Janeiro/dp/6525233526/ref=tmm_pap_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=&sr= 


domingo, 5 de maio de 2024

Geopolítica do “Caveirão” no policiamento ostensivo do Rio de Janeiro

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Não é novidade que a política de segurança pública do Rio de Janeiro se transformou numa política de extermínio de inimigos. Dentro desse modelo de “in-segurança”, os mesmos policiais, que são milicianos e muitos deles associados ao tráfico de drogas ilícitas, também atuam como exterminadores de “bandidos” e de suspeitos nas favelas, à revelia da lei. Nesse sentido, vale salientar, ainda, que a construção da imagem do inimigo é o caminho utilizado para aplicar a política de exceção e de extermínio de traficantes de drogas ou qualquer pessoa definida como suspeito, na visão do pobre e negro, como perigoso. A definição da favela como território inimigo e como espaço “caótico” e “desordenado”, lugar de “bandido”, como se diz nas entrelinhas, opera a ressignificação da favela como um espaço de criminalidade, e do favelado, como inimigo. Com base nesse conceito operacional, a segurança pública coloca, em prática, políticas de guerra em operações militares em áreas urbanas densamente povoadas.

Muitos estudos e relatos dão conta da ação violenta da polícia em comunidades pobres do Rio de Janeiro, em que os policiais, não distinguindo moradores de traficantes, tratam toda a população como criminosa, adotando uma visão estereotipada, a respeito da população favelada. Alguns relatos narram inclusive, a ação policial, que ao entrar nas comunidades, cantam uma música que diz: “Vou te pegar, vou te matar, vou sugar a tua alma”. Tais ações têm gerado grande ressentimento, na população, em relação à polícia; esta, em geral, vê os policiais como piores do que os traficantes.

O blindado da polícia militar, “Caveirão”, cumpre nesse modelo de policiamento um papel importante. Esses veículos, que, em sua primeira versão, eram adaptados, são agora fabricados especialmente para a função de combate urbano em favelas e espaços segregados, densamente povoados, por conta de operações mais ostensivas, como foi a “pacificação” do Complexo do Alemão, quando o BOPE precisou apelar para veículos das Forças Armadas. O emprego do “Caveirão” é ideal em terrenos acidentados, no entanto, como muitos relatos dão conta, sua ação não é restrita ao combate urbano contra traficantes e bandidos. É comum em incursões em favelas e espaços segregados do Rio de Janeiro, o emprego do veículo em ações contra a população. Em muitos vídeos que circulam pela internet, feitos por moradores, é notável que os condutores do “Caveirão”, em certas situações, usam o veículo como uma arma de guerra, para abrir caminho sobre veículos civis estacionados.

Em um desses vídeos, que teve repercussão na grande mídia, podemos ver que um blindado da polícia força passagem em um beco estreito, danificando os automóveis dos moradores da Vila Kennedy, em Bangu, Zona Oeste do Rio, que se encontravam estacionados. Nas imagens feitas por um morador, é possível ver que um blindado da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) atinge dois carros e uma moto, que estão estacionados nas calçadas. O morador que gravou o vídeo reclamou da conduta dos policiais: “Passou aqui, ó, viu que não dava pra passar dois carros, eu no portão, não pediu pra eu tirar o carro. Eu no portão, não pediu pra eu poder tirar o carro. Fez essa merda aí. Só coisa de trabalhador, olha as placas aí.. vai bater de novo! Vai bater de novo!! Ó, meu carro, cara, não!”, grita o homem no vídeo, enquanto o blindado retorna e passa pela via uma segunda vez e amassa os carros estacionados. Em resposta ao ocorrido, a equipe do DRFC notificou que marginais haviam colocado barricadas, em diversas vias, para dificultar a ação policial e que, em algumas vias, os moradores deixaram seus carros estacionados na rua, sem se preocuparem com a necessidade de passagem dos veículos da polícia, como se os moradores, em operações militares, se sentissem seguros para sair de suas casas para manobrar seus automóveis. Se assim fizessem, poderiam levar um tiro em situação de confronto com traficantes. É válido frisar que, na Zona Sul, jamais uma Ferrari foi atingida por um veículo blindado da polícia*.

Além de combater traficantes territorializados em favelas e espaços segregados do Rio de Janeiro, com o efeito de intimidar e amedrontar a população que vive em ambientes marcados por profunda precariedade social, o “Caveirão”, em suas ações de incursão nas favelas, atendem a uma importante função de controle social, afim de domesticar a população pobre, negra e segregada do Rio de Janeiro, a partir da configuração da favela e dos espaços segregados, como lugares de exclusão, a partir da definição da favela como território inimigo, ou seja, um espaço “caótico” e “desordenado”, lugar de “bandido”. Lugar então que justifica ações violentas da polícia no combate ao crime, mas também, contra os populares, que vivem naquele território. Dessa forma, por associação ou não ao crime, bairros populares (e as pessoas que ali vivem) são definidos como territórios inimigos, de uma guerra de classe, contra negros e pobres, trabalhadores em outras palavras.

Veículo Maverick Paramount, intitulado “Caveirão”, adquirido pelo governo do Rio de Janeiro, em exposição na Feira Internacional de Segurança e Defesa (LAAD), com pintura e brasão do BOPE.

 

Fonte: Foto de Jorge Rodrigues para a Revista Auto Esporte, em 11 de abril de 2013.

*Sobre esse fato, pode-se consultar a reportagem do G1Globo, intitulada Veículo blindado da Polícia Civil danifica carros de moradores da Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio de Janeiro, publicada em 25 de maio de 2017 e disponível no endereço eletrônico da rede de notícias (https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/veiculo-blindado-da-policia-civil-danifica-carros-de-moradores-da-vila-kennedy-zona-oeste-do-rio.ghtml). Outros vídeos similares circulam pela internet. Em um deles, na Rocinha, supostamente gravado no mês de setembro de 2017, um “Caveirão” passa por cima de algumas motocicletas, sem antes solicitar que sejam retiradas para liberar a sua passagem. Incidentes desse tipo são comuns e também foram registrados por câmeras de smartphones em 28 de outubro de 2018, dia da eleição de Jair Bolsonaro para presidente do Brasil.

O texto acima consiste em uma adaptação de um trecho do livro “Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro”, escrito por Márcio Mendonça. Adquira o livro aqui: https://www.amazon.com.br/Espa%C3%A7o-batalha-urbic%C3%ADdio-cidade-Janeiro/dp/6525233526/ref=tmm_pap_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=&sr= 


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