domingo, 24 de agosto de 2025

Genocídio e solução final em Gaza

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Veterano de guerra norte-americano denúncia o programa de Ajuda Humanitária em Gaza como a última fase do genocídio palestino. Anthony Aguilar, um ex-combatente que esteve em vários cenários de guerra e que também esteve recentemente prestando serviços em pontos de ajuda humanitária no sul de Gaza, detalha como a Força de Defesa de Israel controla a distribuição de ajuda humanitária com o propósito de maximizar o extermínio de civis. Para mais detalhes assista “Anthony Aguilar revela crise humanitária em Gaza: por dentro dos pontos de ajuda” acessando: https://www.youtube.com/watch?v=goF14yH-XYc (Fonte: India & Global Left Português).




domingo, 3 de agosto de 2025

Dronefobia: pânico de drones e traumas de guerra

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça*

Qualquer pessoa que tenha mais de trinta anos deve lembrar-se que a ideia de uma aeronave que sobrevoa a baixa altura e que pode atacar alvos em solo não é uma novidade da guerra do século XXI. Antes disso a aparição de um drone, retratado no cinema hollywoodiano, em 1991, no filme “Exterminador do Futuro 2: o julgamento final”, mostra possivelmente a primeira aparição, em público, de um drone militar. Numa cena apocalítica do filme vemos máquinas caçando e eliminando humanos e um drone sobrevoando e iluminando o campo de batalha enquanto procura combatentes e dispara lasers contra alvos inimigos. Aquilo representado no cinema nos idos dos anos noventa já não é ficção em nossos dias.

Na Ucrânia ou na Faixa de Gaza os drones transformaram os sons comuns de qualquer cidade – carros, motos, cortadores de grama, ares-condicionados – em medos e insegurança permanente que soldados e civis, em áreas de conflito, estão sujeitos todos os dias. O terror psicológico provocado pelos Drones FPVs, pequenos e portáteis, já não está restrito à linha de frente e seus efeitos já são notáveis em combatentes e civis que vivem em cidades atacadas ou sob vigilância de drones. O medo de drones, a “dronefobia”, pode ser desencadeada por uma série de ruídos urbanos comuns, em que qualquer som mecânico que produza um zumbido semelhante ao de um drone, produz sensação de insegurança ou até mesmo pânico coletivo em pessoas sob efeito psicológico da dronefobia.

Na guerra moderna ataques aéreos e a capacidade de aeronaves de manipular o ambiente e criar uma modalidade de terror aéreo, é descrita por Sloterdijk (2009) como um tipo de terrorismo atmosférico, que ele chama de atmoterrorismo. Com os drones o atmoterrorismo amplia o campo de batalha no tempo e no espaço, da linha de frente e presença de soldados no campo de batalha, aos espaços e tempos da vida cotidiana incluindo civis e combatentes, todos agora envolvidos sob constante ameaça com a ampliação da escala e modalidades de ação dos drones. Assim, os drones alcançam e atingem espaços e experiências da vida ordinária, além do campo de batalha, produzindo efeitos e traumas de guerra que cruzam fronteiras e são mais duradores em soldados e não-combatentes vítimas do atmoterrorismo e dos efeitos psicológicos do medo de drone, a dronefobia.

*Autor de “Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro” (2022) e “Guerra dos drones: análise e perspectiva do campo de batalha” (2025). 


Referências:

GUNTER, Joel. ‘Dronefobia’: o trauma de soldados que retornam da guerra na Ucrânia. BBC News Brasil, 2 ago. 2025. 

MENDONÇCA, Márcio José. Guerra dos drones: análise e perspectiva do campo de batalha. São Paulo: Dialética, 2025. Link de acesso: https://loja.editoradialetica.com/tecnologias/guerra-dos-drones-analise-e-perspectiva-do-campo-de-batalha-1244257741?srsltid=AfmBOopjiGxHYhO_MK8-koXUXtgSy0y78CyWF1EtKkoEN6q5JD_wFWQo

SLOTERDIJK, Peter. Terror from the air. New York: Semiotext, 2009. 


 

sábado, 12 de julho de 2025

Hamas: túneis e resistência em camadas no ambiente urbano


Prof. Dr. Márcio José Mendonça

    Embora seja incerto dar a dimensão exata da rede de túneis do Hamas, especula-se que sua estrutura pode alcançar até 500 km de extensão, com os túneis mais profundos podendo chegar a 70 metros de profundidade. Diferentes dos túneis que atravessam a fronteira de Gaza com a finalidade de invadir o território israelense, os túneis no interior de Gaza estão equipados com eletricidade, iluminação e trilhos para assegurar a presença de militantes em seu interior por longos períodos. O Hamas usa esses túneis para escapar da observação e dos ataques israelenses, concentrando equipamentos e seu quartel-general no interior deles. Mesmo Israel enfrentando a estrutura dos túneis de Gaza há bastante tempo, ainda não conseguiu inutilizá-los.*

    Inicialmente projetados para burlar o cerco em Gaza, os túneis atendiam a necessidade de ligar os dois lados da fronteira entre o Egito e a Faixa de Gaza, em particular a cidade de Rafah, cortada ao meio pelo muro de separação na fronteira. Dessa forma, além de suprir as necessidades econômicas e comerciais, abastecendo a população de Gaza, os túneis possibilitavam que os palestinos mantivessem contato com familiares de ambos os lados do muro. Além da função de abastecimento e comércio, os túneis de Gaza, segundo Weizman (2025),** têm origem ligada à técnica de escavação de águas profundas praticada por antigas tribos locais. Sendo a disponibilidade de água na Faixa de Gaza muito escassa, tribos palestinas desenvolveram técnicas muito eficientes de escavar o subsolo à procura de água em profundidades de até cem metros.

    Assim, os túneis de Gaza na fronteira surgem da necessidade de ligação com o mundo exterior a partir da combinação de técnicas de escavação de poços profundos com as rotas comerciais, que percorrem a região e ligam Gaza, desde tempos antigos, a lugares muito distantes, estendendo-se do norte da África, na costa da Líbia, ao Eufrates, no atual Iraque. Da técnica de escavar poços profundos aliada à vocação para o comércio, surgiu a engenhosidade dos túneis como projeto de luta anticolonial, combinando conhecimentos indígenas, aproveitamento das rotas de comércio e a luta armada palestina.

    Como se sabe os túneis eram de famílias palestinas que não tinham ligação com grupos armados e muito menos propósitos militares. No entanto, a Faixa de Gaza há muito tempo é sinônimo de cerco; por isso os túneis passaram a ser instrumentos de luta contra as medidas de bloqueio. Lembra Weizman (2025) que na história das guerras de cerco os túneis são a maneira de contornar o cerco e de abastecer uma cidade sitiada. Antes de tudo, a utilização de túneis é uma maneira de chegar à retaguarda de um exército e atacá-lo de onde menos se espera. Sua engenharia representa uma forma de sobreviver ao bloqueio.

    De rotas comerciais, os túneis de Gaza tornaram-se meios para atacar os israelenses. Concretamente, foram feitas escavações sob as bases militares do inimigo com o objetivo de sequestrar soldados e colocar bombas debaixo de suas bases. Essa mudança de finalidade de tais rotas só ocorreu quando, em 2007, o Hamas assumiu o controle da Faixa de Gaza. Logo suas lideranças perceberam o potencial dos túneis e a oportunidade de organizar uma resistência baseada em camadas a partir de uma extensa rede rizomática de túneis, que permite o tráfego e abastecimento de material bélico para o seu interior, além da própria projeção de poder em ações de sabotagem ou até mesmo de ataque contra guarnições israelenses próximas da fronteira de Gaza. Se na Primeira Guerra Mundial, no cenário de guerra de trincheiras, eram os mineiros que escavavam túneis e colocavam explosivos sob as linhas alemãs, cem anos depois são os combatentes do Hamas que estão a usá-los como uma estratégia de resistência.

    Muito da capacidade palestina de resistir e de sobreviver e, acima de tudo, de ser um desafio militar real às forças israelenses tem a ver com a rede de túneis de Gaza. Este projeto arquitetônico que tem origem no conhecimento local e que surgiu como uma rede social, que conecta superfície e profundidade com milhões de nós e suas conexões, permite a Gaza não só respirar, mas também lutar e resistir às forças de ocupação israelense. Túneis que inicialmente foram escavados entre a fronteira do Egito e da Faixa de Gaza têm sido usados para o contrabando de uma variedade de itens e constituído uma das principais linhas de fornecimento de armas, explosivos e recrutas armados para a resistência palestina. Além da necessidade de ligação com o mundo externo, por conta do bloqueio de Gaza, os túneis configuram uma verdadeira rede de comunicação, que permite aos membros do Hamas se locomoverem por bairros e áreas de difícil acesso de Gaza, permanecendo móveis e operantes no espaço subterrâneo (WEIZMAN, 2012; 2025).

    Conhecido como Metrô de Gaza ou Gaza Inferior, mais do que abrigar combatentes e equipamentos militares, o sistema de túneis é composto por estruturas de concreto reforçado, água canalizada e ambientes climatizados. Essas estruturas aparentemente são fortes o suficiente para resistir à maioria dos ataques aéreos de Israel. A maioria dos túneis possuem diversos pontos de acesso e rotas, partindo de casas, edifícios, campos abertos e plantações. Suas principais rotas convergem para uma rota principal e ramificam-se novamente em várias passagens separadas que levam a diferentes pontos dentro e fora de Gaza, para o Egito e até mesmo para Israel. Dessa forma, se uma entrada é descoberta e desligada ou um túnel desmorona, outros podem continuar a ser utilizados e novos túneis de acesso podem ser escavados e conectados com a rota principal (WEIZMAN, 2012; 2025).

    Israel acusa frequentemente o Hamas de escavar túneis em Gaza por baixo de escolas, mesquitas ou hospitais. Assim, os israelenses alegam que os grupos armados palestinos usam instalações civis para fins militares. Embora, na maioria das vezes, Israel não apresente provas contundentes dessa prática, uma vez que o espaço urbano está sendo utilizado como campo de batalha e os conflitos ocorrem em todos os lugares, seja pela resistência palestina a se entrincheirar no espaço urbano seja pelo ataque indiscriminado de Israel às cidades palestinas, instalações e edifícios civis acabam fazendo parte, de uma forma ou de outra, à dinâmica espacial do combate urbano. Com a função de ligar e estabelecer conexão entre rotas e pontos diferentes fora de Gaza e no seu interior, túneis interligados sob áreas urbanas permitem que os grupos palestinos se movam rapidamente entre posições de ataque e de defesa e, como amplamente divulgado na internet,*** podem ainda ser escavados rapidamente para abrir caminho para fugas ou ataques-surpresa.

    Os túneis são um elemento vital na estratégia de guerra do Hamas, que os usa para esconder e transportar foguetes, cujas plataformas de lançamento podem ser ocultadas ou montadas e desmontadas rapidamente, para evitar que suas posições sejam facilmente localizadas e atacadas por Israel. Embora sejam eficientes em desativar esses lançamentos por meio de sistemas de localização rápida, as forças israelenses têm dificuldade em desbaratar lançamentos feitos a partir de estruturas instaladas no interior do solo e de dentro de edifícios, o que dificulta sua identificação e destruição. Israel usufrui do controle do espaço aéreo naquela região; entretanto, seu sistema de defesa antiaéreo, conhecido como Iron Dome, tem enfrentado dificuldades com lançamentos múltiplos de foguetes vindos de Gaza, que, em ação combinada com outros artefatos, foram capazes de saturar as defesas antiaéreas e atingir áreas povoadas no interior do território israelense.****

    Além do uso dos túneis para dificultar a localização das posições de lançamento de foguetes, as estruturas construídas pelos palestinos possuem muitas outras serventias de uso no combate, podendo os túneis ser equipados com explosivos, funcionando, assim, como túneis-bomba. Por meio de câmeras instaladas nos túneis, a entrada de tropas israelenses pode ser facilmente notada e as armadilhas em suas seções internas podem, então, ser acionadas contra os intrusos. Agindo assim, as facções palestinas têm se beneficiado do emprego dos túneis no combate urbano em Gaza e, por meio de câmeras instaladas no terreno, que saem dos túneis como se fossem escotilhas, têm sido capazes de observar o campo de batalha em tempo real mesmo quando a movimentação dos soldados israelenses é restrita ao interior de casas e edifícios, dentro de estruturas urbanas; de modo geral, nesses lugares os combatentes palestinos também conseguem monitorá-los por meio de sistemas de câmeras combinadas, que mostram a posição exata dos soldados israelenses no interior dessas edificações.

    Com base em equipamentos de vigilância, o Hamas foi efetivo em coordenar as suas ações e capaz de realizar uma série de emboscadas e ataques-surpresas, detonando explosivos no interior de edifícios ou insurgindo na retaguarda do inimigo. Nessas ações, combatentes palestinos foram vistos em inúmeros vídeos saindo do interior de túneis, próximos de veículos israelenses, para atacar o inimigo com armas antitanques e instalar explosivos magnéticos nos blindados, que, acoplados à armadura, eram detonados por dispositivos remotos logo em seguida.

    Especialmente contra blindados israelenses, uma tática comum dos combatentes do Hamas consistiu em instalar explosivos improvisados na traseira de tanques. Como parte de sua característica e engenharia, tanques de guerra possuem a blindagem menos espessa na traseira; por isso, essa superfície é mais vulnerável, constituindo um ponto fraco, que os combatentes palestinos procuraram explorar a seu favor. Em tais ações, com propósito de atingir tanques, os combatentes palestinos se aproximavam dos blindados e depositavam cargas explosivas próximas da traseira do veículo, com o intuito de causar danos maiores com a detonação dos explosivos, e evacuavam rapidamente, antes que os pilotos dos tanques e soldados israelenses pudessem notar sua presença. Algumas vezes essas operações também eram acompanhadas de ação de combatentes palestinos equipados com armas antitanques, como presenciamos na Figura 1, na execução de uma operação do Hamas contra blindados israelenses.*****

    Em muitos dos ataques registrados em vídeos que se tornaram conhecidos pela divulgação e cobertura em grupos e nas redes sociais, as equipes atacantes são vistas saindo de túneis subterrâneos que dão acesso a áreas mais amplas e abertas, onde muitas das vezes se concentram os tanques, ou simplesmente atacavam realizando disparos do interior dos edifícios e de seus escombros, contando com a vantagem operacional de conhecimento do ambiente caótico, típico de uma batalha urbana. Ademais, em vídeos propagados na internet, insurgentes palestinos são vistos se movimentando no interior dos prédios, passando por janelas e buracos feitos nas paredes, uma tática usada anteriormente por soldados israelenses em operações urbanas. Em tais operações os israelenses se habituaram a romper paredes ou estruturas de laje, evitando, assim, circular em áreas abertas para não serem atingidos por atiradores ou fogo de infantaria.

    Muitas dessas táticas implicam preparo do terreno, e os defensores, apoiando-se no espaço urbano como dispositivo de defesa, também as empregavam como forma de ataque, realizando operações de sabotagem e ataques-surpresa a partir de vários níveis ou camadas, movendo-se da superfície do espaço urbano às camadas subterrâneas mais profundas do interior de Gaza. A ação combinada do espaço urbano e de estruturas subterrâneas em múltiplas camadas permitiu ao Hamas e a outras facções palestinas usar diferentes estratégias de resistência espacial, ao transformar a Faixa de Gaza em um espaço de resistência ante as ações de ocupação colonial de Israel. Assim, as contraestratégias palestinas para combater as forças israelenses definiram um conjunto de relações sociais e dinâmicas espaciais que delimitam e afirmam o controle palestino sobre uma área geográfica como território simbólico e de pertencimento; portanto, também de resistência. Este espaço, que na verdade consiste no campo de batalha, pode então ser entendido como um espaço de dimensões flexíveis e elásticas, ou seja, em sentido mais estratégico, em aspecto volumétrico, concebido, então, em termos específicos, de acordo com Weizman (2002, 2004, 2012), como volume político.****** Espaço esse organizado em razão de várias camadas, permitindo aos palestinos combater as forças israelenses. Por isso, agora, as forças invasoras buscam sua total destruição.

    No geral, esta forma de resistência espacial rizomática esteve apoiada no espaço urbano e demais estruturas subterrâneas profundas, constituindo um dispositivo de defesa descentralizado que se manteve funcional a partir de numerosas ramificações. Vale dizer, ainda, que o corpo rizomático******* funciona como um organismo que se modifica e se adapta às mais diversas situações do campo de batalha, ora contraindo-se, ora expandindo-se. Nesse aspecto, esse corpo rizomático também apresenta múltiplas entradas e saídas. Por estes meios, muitas vezes, os grupos palestinos alcançaram êxito e foram mais efetivos em situação de combate, preparando emboscadas e escavando túneis no andamento do conflito. Tais ações permitiram aos palestinos manter a circulação de seus ativos e conectar os nós do corpo rizomático em ações combinadas de resistência. Dessa forma, os palestinos foram capazes de implementar diferentes modos de luta armada e resistência em diferentes espaços e tempos no campo de batalha.

Figura 1

Filmagem de operação do Hamas contra tanques israelenses mostra ação combinada de emprego de armas antitanques e explosivos improvisados.


Emprego de armas antitanque e explosivos improvisados em operação de insurgência do Hamas contra a FDI em Rafah, sul de Gaza. Na filmagem dois combatentes palestinos avançam a partir de uma abertura no chão e, ao saírem de túneis subterrâneos, correm em direção aos tanques israelenses. No vídeo publicado pelo Hamas, soldados e tanques israelenses são marcados com cor vermelha, identificados como alvos, também com uma seta vermelha, enquanto os palestinos são identificados pela cor verde, em referência ao Hamas. Após instalarem explosivos na traseira de dois tanques, os combatentes rapidamente evadem o local por uma abertura, mesmo local onde assistimos um terceiro combatente aparecer portando uma arma antitanque, disparada na sequência contra um terceiro blindado israelense. Na filmagem, no momento em que os combatentes palestinos evadem o local pelo interior do túnel escutam-se ainda o estrondo da detonação dos explosivos instalados próximo aos tanques e o grito dos combatentes palestinos: “Allahu Akbar” – frase que em árabe significa “Alá é Grande” ou “Alá é o Maior”.

Fonte: Vídeo do Hamas repercutido em canal do Telegram, maio de 2024.

Referências

* Sobre a infraestrutura da rede de túneis do Hamas na Faixa de Gaza, conferir as matérias da BBC News Brasil, publicada em 13 de out. de 2023, “O labirinto de túneis em Gaza que o Hamas diz ser maior que o metrô de Londres”, com acesso disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4nv2y7erx5o>. Verificar também “‘Teia de aranha’: o emaranhado de túneis do Hamas que põe Israel no escuro”, publicada pela Uol, 20 de nov. de 2023, disponível em <https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2023/11/20/o-emaranhado-de-tuneis-do-hamas-que-poe-israel-no-escuro.htm> e “‘Teia de aranha: como funciona a rede de túneis do Hamas em Gaza”, matéria de Felipe Barini e Renato Carvalho, publicada pelo O Globo, 16 de nov. de 2023, disponível no seguinte link <https://oglobo.globo.com/mundo/especial/teia-de-aranha-como-funciona-a-rede-de-tuneis-do-hamas-em-gaza.ghtml>.

** Conferir Eyal Weizman, “How Israel is engineering genocide and ethnic-cleansing in Gaza”, no canal Middle East Eye, 17 de abril de 2025, disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=0GThjS5hySc&t=1800s>.

***Inúmeros vídeos de combates urbanos em Gaza filmados pelas forças israelenses e por facções palestinas circulam na internet por meio das redes sociais, em canais do Youtube, grupos de Telegram e páginas do Instagram, Facebook ou X. Não é possível citar e indicar todas as publicações ou fontes audiovisuais consultadas que serviram de material para os comentários e análises apresentadas ao longo do artigo. No entanto, uma fonte que reúne relevante parte do material audiovisual que circulou em diferentes grupos e redes sociais está disponível para consulta em “Breaking news and analysis on day of the Gaza’s Al-Aqsa Flood” no canal The electronic intifada, no Youtube. A maior parte desta pesquisa se baseou fundamentalmente nos programas entre os meses de outubro de 2023 e junho de 2025, mas o canal e o seu site oficial (<https://electronicintifada.net/>) proporcionam muito além do que foi possível consultar, sendo uma fonte quase inesgotável de informações. Para mais detalhes sobre as operações militares em Gaza com foco especial nas formas de resistência das facções palestinas, deve-se consultar as intervenções de Jon Elmer acessando o link do programa disponível aqui:  <https://www.youtube.com/@TheElectronicIntifada/streams>. Além de sua participação semanal nesse programa, Jon Elmer possui uma conta no X, local onde publica vídeos que naturalmente seriam censurados no Youtube. Para mais detalhes, acessar @jonelmer na rede social X.

**** O Iron Dome, ou Domo de Ferro, em português, é um sistema de defesa antiaérea desenvolvido por Israel com o objetivo de interceptar mísseis de curto alcance e bombas de artilharia disparados de 4 a 70 quilômetros de distância visando áreas povoadas de seu território. Recentemente os foguetes Qassam, fabricados pelo Hamas e popularizados em Gaza, têm sido capazes de superar as defesas do Iron Dome, algo improvável até há pouco tempo. Um vídeo interessante do canal Sala de Guerra mostra como funciona o foguete Qassam do Hamas. Para mais detalhes, consultar “Como funciona o foguete Qassam do Hamas”, 15 de nov. de 2023, no Youtube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=A1FDRPyRl-w>.

***** Imagens da operação militar do Hamas presentes nas Figura 1, obtidas em grupos do Telegram, também constam nas análises de Jon Elmer no programa “Breaking news and analysis on day of the Gaza’s Al-Aqsa Flood”, no canal The electronic intifada, no Youtube.

****** Volume político é o termo usado por Weizman (2002, 2004, 2012) para fazer menção às estruturas e aos objetos que não apenas dividem o espaço, mas também funcionam como sistemas ópticos de controle a partir de uma matriz militar disposta em volume, ao invés de, no sentido mais convencional, superfície ou área.

******* Sobre o conceito de rizoma em uma concepção mais ampla, ver Deleuze e Guattari, “Mil platôs – capitalismo e esquizofrenia”, v. 1, 1995.

WEIZMAN, E. Hollow land: Israel’s architecture of occupation. Nova York: Verso, 2012.

______. Strategic points, flexible lines, tense surfaces, and political volumes: Ariel Sharon and the geometry of occupation. In: GRAHAM, S. (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd, 2004. p. 172-191.

______. The politics of verticality. Open Democracy. Londres, RU, texto de 11 partes disponibilizado entre 23 de abril e 1º de maio de 2002. Disponível em: <http://www.opendemocracy.net/>. Acesso em: 26 mar. 2014.

 


sexta-feira, 6 de junho de 2025

O terror aéreo e o campo de batalha

Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

O avião tem permitido práticas culturais inteiramente novas e violentas, que transformaram a percepção e vivência que possuímos do mundo, aplicando políticas de guerra e de segurança de cima para baixo (ver ADEY, WHITEHEAD, WILLIAMS, 2013). Adey (2010), importante pesquisador do tema da aviação, destaca: com efeitos espaciais expressivos, “o espaço tem sido produzido, transfigurado e formado através da tecnologia do avião” (p. 6, tradução livre), criando novos significados e percepções da vida, sendo as pessoas ameaçadas por novas produções do espaço aéreo.

Essa capacidade de produzir terror aéreo não é algo tão recente. Sloterdijk (2009) lembra que na I Guerra Mundial, embora o avião fosse pouco utilizado, o espaço aéreo foi manipulado como arma de guerra. Ele ainda destaca que 22 de abril de 1915 marca o registro da primeira guerra de gás venenoso, quando nuvens de fumaça amarela subiram das trincheiras alemãs em direção às divisões francesas, causando pânico na linha de defesa francesa. Não por acaso, Sloterdijk considera que “o século XX será lembrado como a era cujo pensamento essencial consistiu em atingir não mais o corpo, mas o ambiente do inimigo” (2009, p. 14, tradução livre). Ao afirmar isso, ele lembra Shakespeare, para enfatizar que se considera a vida de outra pessoa tomando o meio pelo qual ela vive. Valendo-se disso, Sloterdijk conclui que, ao destituir a população de ar, impedindo-a de respirar, e arrebatar-lhe o ambiente indispensável à manutenção da vida, o agressor almeja privar o inimigo de um meio de sobrevivência. 

Na guerra moderna, se o “corpo do inimigo não pode mais ser liquidado com impactos diretos, em seguida, o atacante é forçado a tornar impossível a existência contínua do inimigo, por sua imersão direta em um ambiente inviável por um período suficientemente longo” (SLOTERDIJK, 2009, p. 15, tradução livre). Exemplo disso foi o fato de que, ainda na I Guerra Mundial, os soldados entrincheirados tornaram-se inacessíveis a armas convencionais: daí Sloterdijk salientar a descoberta do ambiente como um meio pelo qual se pode fazer a guerra, usando gás venenoso a fim de atingir as tropas, afetando as condições físicas do ambiente e, por conseguinte, as funções vitais do inimigo.

Ademais, Sloterdijk (2009) verifica que, na operação de ambientes artificiais para atacar as fragilidades biológicas dos adversários, a manipulação do ambiente age no sentido de criar uma modalidade de terrorismo atmosférico, que assume a forma de assalto às condições de “vida ambientais”. Por isso ele chama de atmoterrorismo a criação de ambientes artificiais para atingir os corpos e, mais precisamente, o sistema respiratório dos inimigos. Aviões militares também estariam, portanto, inseridos nessa lógica, ao provocarem pânico e destruição no ambiente de sobrevivência do inimigo. A cidade, principal alvo dessa modalidade de ataque, foi, segundo Graham (2004a; 2004b; 2011), objeto de ataques que, destinados a eliminar formas de vida humana, impuseram à cidade estratégias de guerra implicadas em desmodernização forçada, destruindo a infraestrutura urbana que possibilita a vida na cidade.

Durante a II Guerra Mundial os bombardeiros estratégicos haviam adquirido uma capacidade de destruição nunca vista antes, sendo empregados com capacidade de “alcançar ‘paralisia estratégica’, através da destruição dos sistemas de transporte, infraestruturas de água e de eletricidade e redes de comunicações” (GRAHAM, 2011, p. 266, tradução livre). Como destacou Graham, o bombardeio foi visto e empregado, com crescente frequência, como arma de guerra para reverter as cadeias de estágio de evolução econômica, levando as cidades atingidas de volta para a idade do carvão.

Todo esse potencial para a destruição e extermínio em massa foi demonstrado nos bombardeios de Dresden, Hamburgo e Tóquio, quando cidades inteiras sumiram do mapa. “A bomba atômica completou esta nova vulnerabilidade da cidade: aglomerações urbanas e populações inteiras foram destruídas instantaneamente em Hiroshima e Nagasaki”, lembra Martin Shaw (2004, p. 142, tradução livre). Com o aparecimento dos bombardeiros, a aviação militar havia se tornado uma arma capaz de levar ao extermínio instantâneo milhares de pessoas sem nenhum tipo de envolvimento direto com a guerra. Envolta por um olhar holográfico, a guerra no século XX foi travada em espaço tridimensional, e os ataques aéreos, desde a Blitz sobre Londres até os ataques terroristas de 11 de setembro – destacando-se o uso do avião-robô não tripulado em Gaza, no Afeganistão e no Iraque –, muito além de possibilidades de maior mobilidade, vieram a provocar terror, destruição e morte, através do emprego de aeronaves em operações militares (ADEY, 2010).

Nos ataques aéreos de 2003 sobre Bagdá, as operações do tipo “Choque e Pavor” tiveram objetivo estratégico e psicológico, já que buscavam:

[...] atingir diretamente os nós-chaves nas redes que sustentavam o complexo político-militar de Saddam Hussein, bem como a mais ampla moral do Iraque. [...]. Para isso, necessitou-se do uso de armas aéreas, que poderiam percorrer longas distâncias, em oposição às forças terrestres de territorialidade mais limitada, que exigem proximidade com os seus alvos antes de golpear. Se disparados por navios ou lançados de aviões, Choque e Pavor foi, portanto, concebido como um ataque vertical em que as chamadas “munições de precisão” choveram sobre locais-chaves no Iraque. Por outro lado, este assalto foi concebido como uma guerra espetacular. [...]. Para ter um efeito sobre o moral, Choque e Pavor teve de ser consumido pelos circuitos visuais dos canais de notícias (COWARD, 2013, p. 96-97, tradução livre).

Por meio desse método, os bombardeios tiveram, portanto, objetivo não apenas de destruir alvos estratégicos, mas também de provocar medo e paralisia, levando o inimigo à capitulação. Fadiga e paranoia foram efeitos provocados propositalmente no adversário para causar-lhe impotência, como observa Adey (2010). Essa estratégia não é uma novidade. Ainda no Iraque, muito antes da invasão norte-americana, lembra Weizman (2012), os ataques aéreos foram empregados em bombardeios capazes de possibilitar um desfecho rápido da guerra, e numa velocidade atroz foi difundido o terror no espaço, graças a um sistema de comunicação altamente eficiente e totalmente integrado à tática de “colonização ou ocupação” aérea do território.

No início da década de 1920, Winston Churchill, na época ministro da Guerra e do Ar do governo britânico, ficou impressionado com o que percebeu ser uma forma de controle colonial por meio do poder aéreo. De acordo com Weizman (2012), Churchill vendo o potencial da aviação como recurso de guerra, logo persuadiu o governo de seu país a investir na Força Aérea Real para assumir o controle da Mesopotâmia, atual Iraque, ao invés de utilizar grandes contingentes do Exército. Esse método foi empregado novamente pelos britânicos contra grupos revolucionários na Somália, no Egito, no Sudão, na Índia, na Palestina (durante a revolta de 1936–1939), no Afeganistão, em Jalalabad e em Cabul, antecipando a lógica de assassinatos praticados atualmente por drones.


Márcio José Mendonça é autor, entre outros livros e trabalhos, do recém lançado “Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha” (Editora Dialética) – Link: https://loja.editoradialetica.com/tecnologias/guerra-dos-drones-analise-e-perspectiva-do-campo-de-batalha-1244257741?srsltid=AfmBOooIOK4n-M-V3y2hSC4kmYHQ-Gc4WkQ-td7au6q18oM8QkBly3lc

 

Referências:

ADEY, Peter. Aerial life: spaces, mobilities, affects. Oxford: Wiley-Blackwell, 2010.

ADEY, Peter; WHITEHEAD, Mark; WILLIAMS, Alison J. Introduction: visual culture and verticality. In: ____ (Orgs.). From above: war, violence, and verticality. Nova York: Oxford University Press, 2013, p. 1-16.

COWARD, Martin. Networks, nodes and de-territorialised battlespace. In: ADEY, Peter; WHITEHEAD, Mark; WILLIAMS, Alison J. (Orgs.). From above: war, violence, and verticality. Nova York: Oxford University Press, 2013, 95-117. 

GRAHAM, Stephen. Cities as strategic sites: places annihilation and urban geopolitics. In: ____(Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004a. p. 31-53.

______. Cities under siege: the new military urbanism. Londres: Verso, 2011.

______. Constructing urbicide by bulldozer in the occupied territories. In: ____. Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004b. p. 192-213.

SHAW, Martin. New wars of the city: relationship of “urbicide” and “genocide”. In: GRAHAM, Stephen (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004, p. 141-153.

SLOTERDIJK, Peter. Terror from the air. New York: Semiotext, 2009.

WEIZMAN, Eyal. Hollow land: Israel’s architecture of occupation. Nova York: Verso, 2012.

 

 


sábado, 10 de maio de 2025

Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha

LAÇAMENTO E DIVULGAÇÃO!

Márcio José Mendonça 

    A guerra dos drones já começou, e o aumento do emprego desses equipamentos no campo de batalha está modificando sensivelmente a maneira como combatentes lutam no terreno e como os civis sobrevivem a sua ação, em ambiente de combate moderno, nos conflitos atuais. Dos campos de batalha da guerra na Ucrânia ao conflito israelo-palestino, os drones estão desempenhando papel de destaque nas operações militares em diferentes cenários.

    Com a introdução dos drones em grande escala nos campos de batalha e com a inovação em matéria de emprego de meios militares que os equipamentos dronificados proporcionam, sua capacidade como arma de guerra em termos estratégicos, táticos e operacionais dispõe os drones como recurso tecnológico indispensável para qualquer força militar. Os drones estão mudando a realidade da guerra e impulsionando profundas transformações no campo de batalha do século XXI.


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sábado, 26 de abril de 2025

Gaza: cessar-fogo de mentira e futuro incerto

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

    Em resumo a proposta de cessar-fogo entre Israel e o Hamas consistia numa iniciativa em três etapas: primeiro um cessar-fogo temporário com a interrupção das hostilidades e a libertação de todos os israelenses mantidos em Gaza em troca de prisioneiros palestinos mantidos por Israel – essas iniciativas deveriam ser seguidas de entrada de ajuda humanitária em Gaza, que foram sistematicamente interrompidas por Israel – ; após essa etapa um cessar-fogo permanente acompanhado da retirada completa das tropas de Israel da Faixa de Gaza – que mais uma vez, também não foram cumpridas por Israel, que insiste em criar uma zona de amortecimento e de manter suas tropas ao longo de toda a franja interna de Gaza e ao longo da Rota 749, dividindo Gaza em duas – ; e só então, finalmente, a terceira etapa deveria entrar em vigor, com o processo de reconstrução da Faixa de Gaza, outro aspecto, que Israel a todo custo também deseja impedir.

    No entanto, além dos termos do acordo, importa avaliar, ainda que em perspectiva, a conjuntura geopolítica e as consequências do conflito a médio e longo prazo para palestinos e israelenses. Nesse sentido, sem a pretensão de esgotar o assunto ou de prever a evolução dos próximos acontecimentos, trata-se de avaliar, em primeiro lugar, os resultados concretos do campo de batalha, em vez de se basear pura e simplesmente em especulações e acordos que muitas vezes não são cumpridos. Para tanto, é importante destacar alguns pontos que podem ser levados em consideração, sem apresentar posições definitivas, que se resumem, a seguir, nos seguintes pontos em análise:

· Israel mesmo derrotado no campo de batalha, conseguiu uma importante vitória no cenário geopolítico regional, eliminado importantes lideranças das facções palestinas e do Hezbollah. Nesse ponto, alcançou êxito ao afastar a presença e diminuir a influência do Irã na região, uma vez que se beneficiou diretamente da queda de Bashar al-Assad, na Síria. Com a retirada do ex-presidente sírio do poder, não só a conexão Hezbollah-Irã fica prejudicada, mas a projeção de poder regional iraniana que estabelecia importante frente do “Eixo da Resistência” ao colonialismo e presença ocidental no Oriente Médio.

· A resistência palestina abre um novo capítulo da história de luta anticolonial e anti-imperialista. Suas ações no campo de batalha e formas de organização e de combate em ambiente urbano, podem ainda, influenciar e inspirar outras nações e povos oprimidos que lutam por sua soberania e independência.

· Israel não conseguiu neutralizar ou destruir o Hamas e o apoio popular dos palestinos de Gaza ao grupo aparentemente continua intacto.

· Israel também não conseguiu expulsar a população palestina da Faixa de Gaza embora a situação demográfica de quase dois milhões de palestinos seja incerta em favor dos interesses israelenses. É digno de observação, que as forças de ocupação, podem manipular o jogo político e usar de outros meios para fragmentar o território de Gaza ou forçar uma expulsão lenta e gradual de palestinos da região.

· A narrativa e os meios de propaganda israelenses foram seriamente afetados num processo em que a opinião pública mundial foi fortemente balançada a favor de uma opinião pró-palestina. Em virtude de inúmeros casos de abusos de prisioneiros, crimes de guerra e acusação de genocídio, a opinião pública mundial agora enxerga Israel como uma força de ocupação.

· A dimensão da crise humanitária na Faixa de Gaza pode escalonar com a destruição ampla e mássica da infraestrutura urbana e impedimentos de entrada de ajuda humanitária em Gaza. Nesse ponto, os meios e a capacidade de reconstrução da Faixa de Gaza certamente determinarão o rumo de acontecimentos futuros, sendo arriscado qualquer previsão, em virtude do campo político tensionado e incerto no momento.

· Os palestinos demonstraram incrível capacidade de luta em ambiente de combate urbano. Contudo, mesmo contando com apoio de alguns governos e grupos paramilitares que financiam e apoiam militarmente a resistência armada, o Hamas e demais grupos palestinos, não contam com o apoio direto de nenhuma potência global e aparentemente salvo o apoio do Irã, do Hezbollah e dos houthis iemenitas, continuam em fragrante isolamento diante de forte aliança ocidental com os interesses de Israel.

· A sociedade israelense está fracionada por disputas e interesses internos entre diferentes facções que disputam o poder e o governo em Israel. A crise instalada com a adoção da Diretiva Hannibal pelos militares e pouca iniciativa do governo de Benjamin Netanyahu em alcançar uma solução rápida para o retorno dos reféns, pode num futuro próximo, dividir ainda mais a sociedade israelense e produzir grande instabilidade.

· Israel enfrenta uma profunda crise econômica por conta do aumento dos gastos militares que podem impactar a sociedade israelense nos próximos anos.

· O conflito também estimulou um intenso fluxo de emigrantes que deixaram Israel desde o início das tensões e hostilidades com os palestinos.

· Israel historicamente não cumpre os acordos internacionais e entidades e organismos internacionais como a ONU, pouco ou nada fazem em relação as violações e negativas de Israel nesse âmbito. Por esse histórico, é duvidoso se Israel cumprirá qualquer tipo de acordo de paz.

· Os dois principais grupos políticos palestinos, o Hamas e o Fatah, ainda continuam divididos, embora a sociedade palestina tenha demonstrado grande capacidade de unidade, resiliência e resistência.

    É difícil ainda afirmar diante de inúmeras incertezas e variáveis sensíveis no cenário geopolítico, quem venceu, logrou maiores ganhos ou ainda pode se beneficiar do resultado da batalha em Gaza. Se a pergunta se refere explicitamente aos combates em Gaza, o Hamas saiu vencedor, haja visto que a organização não foi eliminada por Israel e foi capaz de resistir por longo tempo, causando muitas baixas aos combatentes e destruição de equipamentos israelenses. Se a pergunta invoca o cenário geopolítico, mesmo Israel saindo profundamente abalado no cenário mundial, em termos de governo, Benjamin Netanyahu se mantém no poder com o apoio estadunidense, situação que no plano geopolítico, com anuência de entidades e organismos internacionais controlados pelo imperialismo, permitem que Israel futuramente pratique outras violações contra a comunidade palestina.

    Ainda assim, os palestinos conquistaram uma grande vitória. Pela primeira vez os palestinos e seus apoiadores, conseguiram “cancelar” Israel e impor uma derrota midiática ao lobby sionista usando das redes sociais para denunciar a brutalidade do genocídio israelense em Gaza. Nunca antes a propaganda israelense falhou em manipular a narrativa e proteger Israel, encobrindo seus crimes, enquanto “demonizava” palestinos e justificava suas ações perante aos veículos de comunicação globais.

    Como inúmeras vezes declarou, Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), os ataques de Israel em Gaza dão conta do “primeiro genocídio televisionado da história”. Em virtude da amplitude da destruição e alto número de mortes de civis palestinos no conflito, crimes de guerra de Israel que incluem vídeos de crianças e mulheres atingidos por bombas e ataques indiscriminados em hospitais e escolas, foram repercutidos na internet por meio de telefones móveis e agora são de conhecimento público.

    O espetáculo da libertação dos reféns israelenses pelo Hamas após a assinatura do cessar-fogo, são outro episódio tratado como um desastre de propaganda por Israel. Enquanto que prisioneiros palestinos foram libertos por Israel como parte do acordo de cessar-fogo em situação de saúde precária e inúmeras denúncias envolvendo casos de torturas e maus tratos de palestinos nas prisões israelenses vieram ao conhecimento público. Os reféns israelenses além de serem vistos em bom estado de saúde física e mental nas cerimônias de entrega de reféns, relataram que receberam tratamento digno no cárcere, situação muito diferente que vivenciam os presos palestinos em Israel.

    Finalmente, em vez de apresentar algumas conclusões definitivas que certamente seriam apresadas, procuramos listar alguns pontos que podem ajudar a avaliar a situação e a conjuntura na região. Ainda assim, é importante ressaltar que não se trata de definir os rumos dos acontecimentos, mas de mostrar, apenas, que a guerra em Gaza ainda não terminou e que novos capítulos serão escritos, seja no campo de batalha ou na mesa de negociação nos próximos tempos. Após quebrar o cessar-fogo em Gaza e realizar um ataque que matou mais de quatrocentos palestinos, no último dia 18 de março, e outras sucessivas ações de violação e ataques visando civis em campos de refugiados, Israel agora também concentra suas ações na Cisjordânia. A resistência palestina também continua.



quarta-feira, 2 de abril de 2025

Guerra e urbanização no leste da Ucrânia

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A história da Ucrânia está repleta de manifestações de urbicídio em vários episódios em que cidades foram alvo de intervenção militar. Antes da invasão russa de fevereiro de 2022, a destruição de cidades no território ucraniano, processo com sinais de urbicídio* parcial, ocorreu no conflito de 2014-2016 em áreas urbanas de Donbas. De acordo com Slyvka e Zakutynnska (2016), na ocasião as regiões de Donetsk e Lugansk sofreram expressivas perdas de assentamentos urbanos, com significativos impactos sociais, destruição total ou parcial de moradias e infraestrutura, resultando em diminuição da densidade populacional em 20,2%.

Entre abril de 2014 e junho de 2016, as motivações do conflito entre ucranianos e russos estiveram vinculadas às demandas dos manifestantes no Leste que incluíam um referendo sobre a federalização da Ucrânia e o reconhecimento da língua russa como segundo idioma do país. Esse cenário de profunda crise evolui, entre outras razões, pelo aumento de hostilidades entre russos e ucranianos após a deposição do presidente Viktor Yanukovych, tido como um político pró-russo e aliado do presidente Vladimir Putin. O desenvolvimento das tensões entre russos e ucranianos, que foram acompanhadas de episódios de violência e perseguição contra russos em várias cidades ucranianas, estimulou as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk, de maioria russa, a reivindicarem sua separação da Ucrânia por meio da realização de um referendo popular, ainda em maio de 2014, quando os confrontos se intensificaram.**

Os conflitos armados ocorreram em áreas densamente povoadas da região de Donbas, com os grupos separatistas russos concentrando suas atividades na captura de estruturas administrativas e unidades militares. Grupos armados ucranianos, formados pelo exército, polícia militar (Guarda Nacional), Serviço de Segurança Nacional (NSS) e batalhões “voluntários”, como o Batalhão Azov,*** se opuseram aos separatistas russos. A maioria dos conflitos entre forças ucranianas e russas se concentraram em áreas urbanas e desde o início tiveram como objetivo a destruição de edifícios e infraestrutura urbana (SLYVKA, ZAKUTYNNSKA, 2016). 

Com o aumento do uso de armamento pesado, incluindo artilharia, mísseis, tanques e aviação militar, houve a destruição deliberada de edifícios e serviços urbanos críticos, como água e eletricidade. Com a invasão russa de 2022,**** a formação de uma linha de confronto entre forças ucranianas e forças pró-Rússia, agora com a presença do Exército russo em suas frentes de combate, evolui para uma extensa linha de contato, uma típica “zona tampão”, cujas manifestações de urbicídio mais severas, com a destruição de cidades por completo, se concentram nas áreas que percorrem a linha de combate entre ambas as forças. À medida que os combates se desenvolvem e as cidades e os assentamentos urbanos são implicados na dinâmica espacial do conflito, o campo de batalha tem se deslocado para os centros urbanos.

Segundo Kostyantyn Mezentsev e Oleksii Mezentsev (2022), somente nos primeiros 100 dias do início da invasão russa, em 2022, 147 cidades, aproximadamente um terço de todas as cidades da Ucrânia, foram significativamente atingidas por bombardeios ou combates urbanos. Nos ataques e combates urbanos, além de alvos militares e estratégicos, edifícios de valor simbólico, centros culturais, monumentos e uma ampla infraestrutura urbana sem aparente significância militar também foram destruídos. Embora K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) procurem mostrar o impacto dos ataques russos na estrutura urbana, deve-se considerar que as forças ucranianas também contribuíram com a destruição direta de edifícios e infraestrutura nos combates urbanos. Como força atacante os russos cercaram e sitiaram muitas cidades e assentamentos urbanos; contudo, o papel das forças ucranianas no cenário de guerra urbana não deve ser negligenciado, tendo em vista, por exemplo, os ataques com uso de drones e mísseis no interior da Rússia visando a centros urbanos e estruturas civis.

Pode-se afirmar que a destruição urbana é maior na zona de contato entre ambos os exércitos, onde a estrutura urbana tem sido assimilada ao contexto do combate, e o próprio espaço urbano consiste no campo de batalha. O emprego ucraniano dos assentamentos urbanos em apoio operacional e como defesas urbanas fortificadas e a crescente militarização dos espaços urbanos cotidianos e da infraestrutura das cidades colocam as cidades e a vida urbana na retórica da guerra com as disputas entre russos e ucranianos produzindo uma expressiva fragmentação do espaço urbano, envolvida em disputas territoriais e dinâmicas de des-re-territorialização.***** Nesse sentido, ambas as forças beligerantes visam a destruição da heterogeneidade, que é a essência da urbanidade, com o propósito de (re)territorializar a sua própria dinâmica urbana, marcada agora por um antagonismo pró-Rússia, fundado em uma visão da vida urbana e das cidades russas inscritas numa nostalgia soviética em confronto com o modo de vida ucraniano, ocidentalizado, que procura se apresentar moderno e em constante desenvolvimento, portanto, em aparente progresso.

É justamente nesse sentido que K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) indicam bem que a destruição de cidades e estruturas urbanas na Ucrânia tem sido planejada não só para atingir objetivos militares. O urbicídio ucraniano, para eles, além de toda a destruição, implica morte das cidades, motivada pela fuga e despovoamento dos assentamentos urbanos por causa da saída de moradores. Mariupol, uma cidade portuária e importante centro econômico, com mais de quatrocentos mil habitantes no início de 2022, é exemplo da dinâmica e dos processos de des-re-territorialização inscritos no contexto da guerra.****** Além de uma remoção forçada de moradores da cidade por causa dos combates, agora uma dinâmica de (re)territorialização pró-Rússia assume um caráter altamente excludente, em que se ignora qualquer identidade que não seja a russa e se promove um retorno nostálgico à vida urbana soviética, excluindo, de todas as maneiras, a presença de ucranianos que vivem naquela cidade.

Segundo o relatório da Human Rights Watch, “Our city was gone”: russia’s devastation of Mariupol, Ukraine (2024), o ataque russo em Mariupol******* (ver Figura 1) foi um dos mais destrutivos desde o início da guerra na Ucrânia, quando as forças russas e afiliadas fizeram uso de armas de vários tipos, incluindo bombardeios de tanques e artilharia pesada, lançadores de foguetes, mísseis e ataques aéreos em áreas povoadas. Esse tipo de armamento em áreas urbanas teve impactos devastadores sobre civis e infraestrutura urbana, deixando milhares de civis mortos e uma extensa destruição, que atingiu centenas de prédios residenciais, hospitais, instalações educacionais e infraestrutura de eletricidade e água. Além da destruição, o relatório também destaca que desde a ocupação da cidade as autoridades russas estão construindo novos edifícios residenciais como parte de seu plano declarado de reconstruir e urbanizar Mariupol até 2035. Em Mariupol as forças ocupantes estão eliminando características da identidade ucraniana por meio da destruição de referências culturais e simbólicas da paisagem da cidade, mudando o nome de ruas e incluindo a imposição de um currículo escolar russo. Além disso, estão exigindo que os residentes obtenham passaportes russos para fins de identificação e aquisição de benefícios. Famílias atingidas pela guerra e que perderam suas casas, para receber um imóvel reformado e oferecido pelo governo russo, precisam trocar seus antigos passaportes pelo passaporte russo.

Figura 1

Avanços das operações russas no primeiro ano da guerra com destaque

para o cerco e conquista de Mariupol 

Fonte: Alfredo Mergulhão, Luciano Ferreira e Paulo Assad, “Guerra na Ucrânia: entenda o primeiro ano do conflito em quatro mapas”, para O Globo (2013).

Em Mariupol a reconstrução da cidade é conduzida diretamente pelo Ministério de Defesa da Rússia. Sob administração russa, a cidade voltou a exibir símbolos soviéticos em monumentos. Desde que a cidade foi declarada “libertada” pelo presidente russo Vladimir Putin, em abril de 2022, a cidade passou a exibir os nomes de revolucionários do período soviético, além de símbolos antifascistas, que agora estampam os prédios do intenso processo de reconstrução da cidade. De acordo com Stefani Costa, 


Um dos locais que prova o desejo de uma rápida revitalização da região é Azovstal, considerado um dos maiores complexos siderúrgicos da Europa antes da sua destruição em março de 2022. A restauração do monumento em homenagem aos trabalhadores da fábrica que perderam as suas vidas durante a Grande Guerra Patriótica (como os russos chamam a Segunda Guerra Mundial) é um sinal de que os escombros, que cercam o belíssimo tributo à classe trabalhadora, já têm os seus dias contados (2024).

No monumento, um marinheiro, um trabalhador e um soldado, sob os símbolos da “foice e o martelo”, que formam a insígnia da bandeira soviética, dão as boas-vindas aos que se aproximam do que restou da siderúrgica depois que o Exército russo venceu as batalhas pelo complexo siderúrgico, culminando na rendição dos últimos soldados do Batalhão Azov, que se escondiam no interior de Azovstal (ver Figura 2). Outro exemplo icônico da (re)territorialização russa na cidade é o monumento no porto de Mariupol, que, agora repaginado, carrega as cores russas em vez do amarelo e azul da bandeira ucraniana (ver Figura 3).

Figura 2

Fachada do complexo metalúrgico e siderúrgico de Azovstal

Fonte: Stefani Costa, “Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos”, para Opera Mundi (2024). 



Figura 3

Monumento russo no Porto de Mariupol

Fonte: Stefani Costa, “Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos”, para Opera Mundi (2024). 

Para K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022), o que ocorreu em Mariupol e outras cidades ucranianas******** não foi apenas expulsão sistemática da população ucraniana e (re)territorialização russa, mas também substituição das antigas moradias e edifícios danificados por estruturas e moradias de baixa qualidade, com o intuito de produzir em tempo recorde uma urbanização fortemente amparada na identidade e cultura russa. Após o fim dos combates na cidade e estabilização do front, ainda em outubro de 2022, o Ministério de Construção e Habitação da Rússia divulgou um plano de repovoamento de Mariupol, que estabelece com bastante ênfase um programa de recuperação econômica da cidade. Segundo a matéria de Stefani Costa (2024), Moscou pretende, com isso, transformar Mariupol em um dos símbolos da recuperação das cidades retomadas durante a guerra; para tanto, busca torná-la um importante centro econômico e também uma referência da cultura russa na região.*********

O caso de Mariupol e os de outras cidades sob ocupação russa são certamente exemplos de sinais de urbicídio, que agora se materializam não pela destruição massiva de edifícios e infraestrutura urbana, mas pelo controle socioespacial e exclusão que caracterizam o urbicídio indireto de um modelo de reconstrução que visa instaurar uma homogeneidade territorial pró-Rússia. A urbanização do urbicídio não é um fenômeno exclusivo da Ucrânia. Na Palestina, com a construção de assentamentos israelenses em Território Palestino Ocupado (ver, por exemplo ABUJIDI, 2014), ou na Síria, com a reconstrução de cidades destruídas pela guerra (ver, por exemplo SHARP, 2016), os mecanismos de controle e segregação socioespacial instauram uma nova territorialidade. Na Ucrânia esse processo assume uma magnitude nunca antes vista. Assim que os combates cessam, soldados e tanques dão lugar aos operários e escavadeiras, e rapidamente o campo de batalha se transforma em um grande canteiro de obras. Este novo arranjo espacial visa a configuração de uma ordem socioespacial amparada em mecanismos de controle e exclusão da população ucraniana, em que a urbanização do urbicídio assume papel de destaque na configuração de um amplo guarda-chuva de proteção no entorno estratégico de influência russa.**********

* Por urbicídio entende-se as práticas e meios militares destinados, com fins políticos, que visam, no fundo, além de vencer o inimigo, a destruir o seu habitat, negando-lhe a cidade e o espaço urbano como substrato de reprodução ou esconderijo. Dessa maneira, o que estamos vendo na Ucrânia é um processo de destruição do espaço urbano com o objetivo de negá-lo ao inimigo como espaço de resistência. Trata-se, em termos simples, de uma forma de violência contra a cidade e seus habitantes, em outras palavras, de uma ação deliberada de destruição do ambiente construído e da urbanidade que propicia a vida na cidade, com a intenção de atingir pelo uso da força uma finalidade política. Para mais detalhes, conferir “Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro” (MENDONÇA, 2022). Link de acesso: https://loja.editoradialetica.com/humanidades/espaco-de-batalha-e-urbicidio-na-cidade-do-rio-de-janeiro?srsltid=AfmBOore8yHTMxe1suy-TEETL3ZGYsmg_oZewQpSx5JF7z6qGd5vw3V2

** Sobre as motivações e cenário geopolítico que influíam nas hostilidades entre ucranianos e russos, consultar Tomasz Konicz (2022). Sobre as manifestações e agitação civil vividas na Ucrânia entre 2013 e 2014 que incorreram na queda de Viktor Yanukovych, episódio que se tornou conhecido como Euromaidan, ver os documentários de Paul Moreira, “Ukraine: the masks of revolution” (2016), que mostra a interferência estrangeira nos protestos e a forma como questões internas da Ucrânia foram manipuladas, numa espécie de golpe brando, para derrubar Yanukovych; de outro ponto de vista, mais favorável às reivindicações ucranianas, mas ainda assim nos moldes de uma revolução colorida, consultar o documentário de Evgeny Afineesvky, “Winter on fire: Ukraine’s fight for freedom” (2015). Para uma visão de como movimentos de ativismo e manifestações democráticas de ordem nacional podem ser instrumentalizados por interesses externos, sugiro assistir, com um olhar crítico, o documentário de Richard Shaw, “Gene Sharp – how to start a revolution” (2011).

*** O Batalhão Azov foi fundado em 2014 como um batalhão de defesa territorial durante a guerra na região do Donbas. O regimento militar era formado por voluntários nacionalistas, criado para preencher a lacuna das defesas militares ucranianas. Em 2022 o regimento ganhou destaque durante a invasão russa da Ucrânia por lutar contra as forças russas na cidade de Mariupol. Após meses de combates intensos pela defesa da cidade, antes de se render às forças russas, o Batalhão Azov impôs uma feroz resistência aos invasores, ao sustentar uma posição de defesa no interior do complexo metalúrgico e siderúrgico de Azovstal. De acordo com Moscou, o Batalhão Azov era formado por combatentes de orientação nazifascista, e seus homens foram responsáveis por cometer uma série de crimes contra a população de origem russa, sendo seus líderes alvo prioritário da invasão.

**** Embora a mídia ocidental frequentemente retrate a invasão russa como uma agressão com pretensões expansionistas de Moscou, é importante ressaltar que o conjunto das forças ucranianas já estavam em conflito contra grupos de defesa russos, no leste do país, apoiados por Moscou, e que desde 2014 conflitos eram comuns, com os ucranianos e não somente os russos, atacando e bombardeando cidades na região do Donbas e suas adjacências.  

***** Aqui enfatizamos a dinâmica espacial de des-re-territorialização na perspectiva de destruição e reconstrução do espaço urbano visando a propósitos políticos com usos militares. Ou seja, esse processo é enfocado na perspectiva da dinâmica espacial de deslocamento (forçado ou não) e organização do espaço urbano implícito ao urbicídio. Essa leitura está em sintonia com processos de des-re-territorialização, que implicam dinâmicas próprias de construção e desconstrução de territórios na perspectiva dos “aglomerados humanos de exclusão” descritos por Haesbaert — territórios marcados por relações de precariedade física e simbólica como os campos de refugiados. De toda forma, para um enfoque mais amplo recomenda-se a leitura de seus trabalhos de 2007, 2009 e 2014.

****** Sobre a batalha entre russos e ucranianos por Mariupol, vale a pena conferir as produções mencionadas a seguir: “A batalha de Mariupol: quais os reais objetivos de Putin?”; “Guerra na Ucrânia – boletim #12 – o cerco de Mariupol”; “Como a Rússia venceu a sangrenta batalha por Mariupol”; “O fim da batalha de Mariupol”; e “Siege of Mariupol – animated analysis”, que, por fim, oferece uma interessante análise espacial das operações militares e combates na cidade. 

******* Consultar também a publicação digital multimídia “Beneath the rubble: documenting devastation and loss in Mariupol” (2024).

******** Embora Mariupol e outras cidades ocupadas pelas forças russas sejam formadas por população de maioria russa, preferimos o emprego da terminologia de cidades ucranianas com o propósito de mostrar que a cidade era antes da invasão russa administrada pela jurisdição do Estado ucraniano. Mesmo se considerarmos como concluída e legal a anexação dos territórios dos Oblasts de Donetsk, Lugansk, Zaporizhzhia e Kherson pela Rússia, questão que não deixa de ser controversa, mesmo após a realização dos referendos populares de 2022, é preferível, a título de redação do texto, ainda se referir às cidades ocupadas como territórios ucranianos.

********* Sobre a reconstrução da cidade de Mariupol, ver também: “Exército russo reconstrói edifícios em Mariupol e Volnovakha, na Ucrânia”; “Rússia quer entregar em setembro primeiras reconstruções em Mariupol”; “Ministério da Defesa da Rússia inspeciona trabalhos de reconstrução em Mariupol”; e “Brasileiro vê como Rússia está reconstruindo rapidamente cidade tomada”. 

********** K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) chamam a área de influência do entorno estratégico da Rússia de “Mundo Russo”.

Este artigo deve ser lido em complemento ao texto “Guerra urbana na Ucrânia”, publicado por Márcio J. Mendonça, no site A Terra é Redonda, em 17 de fevereiro de 2024. Link de acesso: https://aterraeredonda.com.br/guerra-urbana-na-ucrania/


Referências


ABUJIDI, N. Urbicide in Palestine: spaces of oppression and resilience. Nova York: Routledge, 2014.

COSTA, S. Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos. Opera Mundi. Brasil, 7 abr. 2024. Disponível em: <https://operamundi.uol.com.br/guerra-na-ucrania/agora-sob-ocupacao-russa-como-esta-a-cidade-de-mariupol/>. Acesso em: 9 jan. 2025.

Human Rights Watch. Beneath the rubble: documenting devastation and loss in Mariupol. Human Rights Watch, 2024. Disponível em: <https://www.hrw.org/feature/russia-ukraine-war-mariupol >. Acesso em: 9 jan. 2025.

______. “Our city was gone”: Russia’s devastation of Mariupol, Ukraine. Human Rights Watch, 2024. Disponível em: <https://www.hrw.org/sites/default/files/media_2024/02/ukraine0224web_0.pdf>. Acesso em: 9 jan. 2025.

HAESBAERT, R. Desterritorialização: entre as redes e os aglomerados de exclusão. In: CORRÊA, Roberto Lobato; GOMES, Paulo C. da Costa; CASTRO, Iná Elias de (Orgs.). Geografia: conceitos e temas. 12. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009, p. 165-205.

______. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

______. Viver no limite: território e multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

KONICZ, T. Ucrânia o “Grande Jogo”: a luta pelo poder entre o leste e o ocidente na crise global. Rio de Janeiro: Consequência Editora, 2022.

MENDONÇA, M. J. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Dialética, 2022.

MERGULHÃO, A; FERREIRA, L; ASSAD, P. Guerra na Ucrânia: entenda o primeiro ano do conflito em quatro mapas. O Globo. Brasil, 24 fev. 2023. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/02/guerra-na-ucrania-entenda-o-primeiro-ano-do-conflito-em-quatro-mapas.ghtml>. Acesso em: 11 jan. 2025.

MEZENTSEV, K.; MEZENTSEV, O. War and the city: Lessons from urbicide in Ukraine. . Czasopismo Geograficzne, v. 93, n. 3, p. 495-521, 2022.

SHARP, D. Urbicide and the arrangement of violence in Syria. In: SHARP, Deen; PANETTA, Claire (Orgs.). Beyond the square: urbanism and the Arab Uprisings. New York: Urban Research, 2016, p. 118-140.

SLYVKA, R. ZAKUTYNSKA, I. Spatial features of military urbicide in Ukraine. Acta Geographica Silesiana, v. 23, p. 97-109, 2016.

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