sexta-feira, 6 de junho de 2025

O terror aéreo e o campo de batalha

Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

O avião tem permitido práticas culturais inteiramente novas e violentas, que transformaram a percepção e vivência que possuímos do mundo, aplicando políticas de guerra e de segurança de cima para baixo (ver ADEY, WHITEHEAD, WILLIAMS, 2013). Adey (2010), importante pesquisador do tema da aviação, destaca: com efeitos espaciais expressivos, “o espaço tem sido produzido, transfigurado e formado através da tecnologia do avião” (p. 6, tradução livre), criando novos significados e percepções da vida, sendo as pessoas ameaçadas por novas produções do espaço aéreo.

Essa capacidade de produzir terror aéreo não é algo tão recente. Sloterdijk (2009) lembra que na I Guerra Mundial, embora o avião fosse pouco utilizado, o espaço aéreo foi manipulado como arma de guerra. Ele ainda destaca que 22 de abril de 1915 marca o registro da primeira guerra de gás venenoso, quando nuvens de fumaça amarela subiram das trincheiras alemãs em direção às divisões francesas, causando pânico na linha de defesa francesa. Não por acaso, Sloterdijk considera que “o século XX será lembrado como a era cujo pensamento essencial consistiu em atingir não mais o corpo, mas o ambiente do inimigo” (2009, p. 14, tradução livre). Ao afirmar isso, ele lembra Shakespeare, para enfatizar que se considera a vida de outra pessoa tomando o meio pelo qual ela vive. Valendo-se disso, Sloterdijk conclui que, ao destituir a população de ar, impedindo-a de respirar, e arrebatar-lhe o ambiente indispensável à manutenção da vida, o agressor almeja privar o inimigo de um meio de sobrevivência. 

Na guerra moderna, se o “corpo do inimigo não pode mais ser liquidado com impactos diretos, em seguida, o atacante é forçado a tornar impossível a existência contínua do inimigo, por sua imersão direta em um ambiente inviável por um período suficientemente longo” (SLOTERDIJK, 2009, p. 15, tradução livre). Exemplo disso foi o fato de que, ainda na I Guerra Mundial, os soldados entrincheirados tornaram-se inacessíveis a armas convencionais: daí Sloterdijk salientar a descoberta do ambiente como um meio pelo qual se pode fazer a guerra, usando gás venenoso a fim de atingir as tropas, afetando as condições físicas do ambiente e, por conseguinte, as funções vitais do inimigo.

Ademais, Sloterdijk (2009) verifica que, na operação de ambientes artificiais para atacar as fragilidades biológicas dos adversários, a manipulação do ambiente age no sentido de criar uma modalidade de terrorismo atmosférico, que assume a forma de assalto às condições de “vida ambientais”. Por isso ele chama de atmoterrorismo a criação de ambientes artificiais para atingir os corpos e, mais precisamente, o sistema respiratório dos inimigos. Aviões militares também estariam, portanto, inseridos nessa lógica, ao provocarem pânico e destruição no ambiente de sobrevivência do inimigo. A cidade, principal alvo dessa modalidade de ataque, foi, segundo Graham (2004a; 2004b; 2011), objeto de ataques que, destinados a eliminar formas de vida humana, impuseram à cidade estratégias de guerra implicadas em desmodernização forçada, destruindo a infraestrutura urbana que possibilita a vida na cidade.

Durante a II Guerra Mundial os bombardeiros estratégicos haviam adquirido uma capacidade de destruição nunca vista antes, sendo empregados com capacidade de “alcançar ‘paralisia estratégica’, através da destruição dos sistemas de transporte, infraestruturas de água e de eletricidade e redes de comunicações” (GRAHAM, 2011, p. 266, tradução livre). Como destacou Graham, o bombardeio foi visto e empregado, com crescente frequência, como arma de guerra para reverter as cadeias de estágio de evolução econômica, levando as cidades atingidas de volta para a idade do carvão.

Todo esse potencial para a destruição e extermínio em massa foi demonstrado nos bombardeios de Dresden, Hamburgo e Tóquio, quando cidades inteiras sumiram do mapa. “A bomba atômica completou esta nova vulnerabilidade da cidade: aglomerações urbanas e populações inteiras foram destruídas instantaneamente em Hiroshima e Nagasaki”, lembra Martin Shaw (2004, p. 142, tradução livre). Com o aparecimento dos bombardeiros, a aviação militar havia se tornado uma arma capaz de levar ao extermínio instantâneo milhares de pessoas sem nenhum tipo de envolvimento direto com a guerra. Envolta por um olhar holográfico, a guerra no século XX foi travada em espaço tridimensional, e os ataques aéreos, desde a Blitz sobre Londres até os ataques terroristas de 11 de setembro – destacando-se o uso do avião-robô não tripulado em Gaza, no Afeganistão e no Iraque –, muito além de possibilidades de maior mobilidade, vieram a provocar terror, destruição e morte, através do emprego de aeronaves em operações militares (ADEY, 2010).

Nos ataques aéreos de 2003 sobre Bagdá, as operações do tipo “Choque e Pavor” tiveram objetivo estratégico e psicológico, já que buscavam:

[...] atingir diretamente os nós-chaves nas redes que sustentavam o complexo político-militar de Saddam Hussein, bem como a mais ampla moral do Iraque. [...]. Para isso, necessitou-se do uso de armas aéreas, que poderiam percorrer longas distâncias, em oposição às forças terrestres de territorialidade mais limitada, que exigem proximidade com os seus alvos antes de golpear. Se disparados por navios ou lançados de aviões, Choque e Pavor foi, portanto, concebido como um ataque vertical em que as chamadas “munições de precisão” choveram sobre locais-chaves no Iraque. Por outro lado, este assalto foi concebido como uma guerra espetacular. [...]. Para ter um efeito sobre o moral, Choque e Pavor teve de ser consumido pelos circuitos visuais dos canais de notícias (COWARD, 2013, p. 96-97, tradução livre).

Por meio desse método, os bombardeios tiveram, portanto, objetivo não apenas de destruir alvos estratégicos, mas também de provocar medo e paralisia, levando o inimigo à capitulação. Fadiga e paranoia foram efeitos provocados propositalmente no adversário para causar-lhe impotência, como observa Adey (2010). Essa estratégia não é uma novidade. Ainda no Iraque, muito antes da invasão norte-americana, lembra Weizman (2012), os ataques aéreos foram empregados em bombardeios capazes de possibilitar um desfecho rápido da guerra, e numa velocidade atroz foi difundido o terror no espaço, graças a um sistema de comunicação altamente eficiente e totalmente integrado à tática de “colonização ou ocupação” aérea do território.

No início da década de 1920, Winston Churchill, na época ministro da Guerra e do Ar do governo britânico, ficou impressionado com o que percebeu ser uma forma de controle colonial por meio do poder aéreo. De acordo com Weizman (2012), Churchill vendo o potencial da aviação como recurso de guerra, logo persuadiu o governo de seu país a investir na Força Aérea Real para assumir o controle da Mesopotâmia, atual Iraque, ao invés de utilizar grandes contingentes do Exército. Esse método foi empregado novamente pelos britânicos contra grupos revolucionários na Somália, no Egito, no Sudão, na Índia, na Palestina (durante a revolta de 1936–1939), no Afeganistão, em Jalalabad e em Cabul, antecipando a lógica de assassinatos praticados atualmente por drones.


Márcio José Mendonça é autor, entre outros livros e trabalhos, do recém lançado “Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha” (Editora Dialética) – Link: https://loja.editoradialetica.com/tecnologias/guerra-dos-drones-analise-e-perspectiva-do-campo-de-batalha-1244257741?srsltid=AfmBOooIOK4n-M-V3y2hSC4kmYHQ-Gc4WkQ-td7au6q18oM8QkBly3lc

 

Referências:

ADEY, Peter. Aerial life: spaces, mobilities, affects. Oxford: Wiley-Blackwell, 2010.

ADEY, Peter; WHITEHEAD, Mark; WILLIAMS, Alison J. Introduction: visual culture and verticality. In: ____ (Orgs.). From above: war, violence, and verticality. Nova York: Oxford University Press, 2013, p. 1-16.

COWARD, Martin. Networks, nodes and de-territorialised battlespace. In: ADEY, Peter; WHITEHEAD, Mark; WILLIAMS, Alison J. (Orgs.). From above: war, violence, and verticality. Nova York: Oxford University Press, 2013, 95-117. 

GRAHAM, Stephen. Cities as strategic sites: places annihilation and urban geopolitics. In: ____(Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004a. p. 31-53.

______. Cities under siege: the new military urbanism. Londres: Verso, 2011.

______. Constructing urbicide by bulldozer in the occupied territories. In: ____. Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004b. p. 192-213.

SHAW, Martin. New wars of the city: relationship of “urbicide” and “genocide”. In: GRAHAM, Stephen (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004, p. 141-153.

SLOTERDIJK, Peter. Terror from the air. New York: Semiotext, 2009.

WEIZMAN, Eyal. Hollow land: Israel’s architecture of occupation. Nova York: Verso, 2012.

 

 


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