sábado, 26 de abril de 2025

Gaza: cessar-fogo de mentira e futuro incerto

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

    Em resumo a proposta de cessar-fogo entre Israel e o Hamas consistia numa iniciativa em três etapas: primeiro um cessar-fogo temporário com a interrupção das hostilidades e a libertação de todos os israelenses mantidos em Gaza em troca de prisioneiros palestinos mantidos por Israel – essas iniciativas deveriam ser seguidas de entrada de ajuda humanitária em Gaza, que foram sistematicamente interrompidas por Israel – ; após essa etapa um cessar-fogo permanente acompanhado da retirada completa das tropas de Israel da Faixa de Gaza – que mais uma vez, também não foram cumpridas por Israel, que insiste em criar uma zona de amortecimento e de manter suas tropas ao longo de toda a franja interna de Gaza e ao longo da Rota 749, dividindo Gaza em duas – ; e só então, finalmente, a terceira etapa deveria entrar em vigor, com o processo de reconstrução da Faixa de Gaza, outro aspecto, que Israel a todo custo também deseja impedir.

    No entanto, além dos termos do acordo, importa avaliar, ainda que em perspectiva, a conjuntura geopolítica e as consequências do conflito a médio e longo prazo para palestinos e israelenses. Nesse sentido, sem a pretensão de esgotar o assunto ou de prever a evolução dos próximos acontecimentos, trata-se de avaliar, em primeiro lugar, os resultados concretos do campo de batalha, em vez de se basear pura e simplesmente em especulações e acordos que muitas vezes não são cumpridos. Para tanto, é importante destacar alguns pontos que podem ser levados em consideração, sem apresentar posições definitivas, que se resumem, a seguir, nos seguintes pontos em análise:

· Israel mesmo derrotado no campo de batalha, conseguiu uma importante vitória no cenário geopolítico regional, eliminado importantes lideranças das facções palestinas e do Hezbollah. Nesse ponto, alcançou êxito ao afastar a presença e diminuir a influência do Irã na região, uma vez que se beneficiou diretamente da queda de Bashar al-Assad, na Síria. Com a retirada do ex-presidente sírio do poder, não só a conexão Hezbollah-Irã fica prejudicada, mas a projeção de poder regional iraniana que estabelecia importante frente do “Eixo da Resistência” ao colonialismo e presença ocidental no Oriente Médio.

· A resistência palestina abre um novo capítulo da história de luta anticolonial e anti-imperialista. Suas ações no campo de batalha e formas de organização e de combate em ambiente urbano, podem ainda, influenciar e inspirar outras nações e povos oprimidos que lutam por sua soberania e independência.

· Israel não conseguiu neutralizar ou destruir o Hamas e o apoio popular dos palestinos de Gaza ao grupo aparentemente continua intacto.

· Israel também não conseguiu expulsar a população palestina da Faixa de Gaza embora a situação demográfica de quase dois milhões de palestinos seja incerta em favor dos interesses israelenses. É digno de observação, que as forças de ocupação, podem manipular o jogo político e usar de outros meios para fragmentar o território de Gaza ou forçar uma expulsão lenta e gradual de palestinos da região.

· A narrativa e os meios de propaganda israelenses foram seriamente afetados num processo em que a opinião pública mundial foi fortemente balançada a favor de uma opinião pró-palestina. Em virtude de inúmeros casos de abusos de prisioneiros, crimes de guerra e acusação de genocídio, a opinião pública mundial agora enxerga Israel como uma força de ocupação.

· A dimensão da crise humanitária na Faixa de Gaza pode escalonar com a destruição ampla e mássica da infraestrutura urbana e impedimentos de entrada de ajuda humanitária em Gaza. Nesse ponto, os meios e a capacidade de reconstrução da Faixa de Gaza certamente determinarão o rumo de acontecimentos futuros, sendo arriscado qualquer previsão, em virtude do campo político tensionado e incerto no momento.

· Os palestinos demonstraram incrível capacidade de luta em ambiente de combate urbano. Contudo, mesmo contando com apoio de alguns governos e grupos paramilitares que financiam e apoiam militarmente a resistência armada, o Hamas e demais grupos palestinos, não contam com o apoio direto de nenhuma potência global e aparentemente salvo o apoio do Irã, do Hezbollah e dos houthis iemenitas, continuam em fragrante isolamento diante de forte aliança ocidental com os interesses de Israel.

· A sociedade israelense está fracionada por disputas e interesses internos entre diferentes facções que disputam o poder e o governo em Israel. A crise instalada com a adoção da Diretiva Hannibal pelos militares e pouca iniciativa do governo de Benjamin Netanyahu em alcançar uma solução rápida para o retorno dos reféns, pode num futuro próximo, dividir ainda mais a sociedade israelense e produzir grande instabilidade.

· Israel enfrenta uma profunda crise econômica por conta do aumento dos gastos militares que podem impactar a sociedade israelense nos próximos anos.

· O conflito também estimulou um intenso fluxo de emigrantes que deixaram Israel desde o início das tensões e hostilidades com os palestinos.

· Israel historicamente não cumpre os acordos internacionais e entidades e organismos internacionais como a ONU, pouco ou nada fazem em relação as violações e negativas de Israel nesse âmbito. Por esse histórico, é duvidoso se Israel cumprirá qualquer tipo de acordo de paz.

· Os dois principais grupos políticos palestinos, o Hamas e o Fatah, ainda continuam divididos, embora a sociedade palestina tenha demonstrado grande capacidade de unidade, resiliência e resistência.

    É difícil ainda afirmar diante de inúmeras incertezas e variáveis sensíveis no cenário geopolítico, quem venceu, logrou maiores ganhos ou ainda pode se beneficiar do resultado da batalha em Gaza. Se a pergunta se refere explicitamente aos combates em Gaza, o Hamas saiu vencedor, haja visto que a organização não foi eliminada por Israel e foi capaz de resistir por longo tempo, causando muitas baixas aos combatentes e destruição de equipamentos israelenses. Se a pergunta invoca o cenário geopolítico, mesmo Israel saindo profundamente abalado no cenário mundial, em termos de governo, Benjamin Netanyahu se mantém no poder com o apoio estadunidense, situação que no plano geopolítico, com anuência de entidades e organismos internacionais controlados pelo imperialismo, permitem que Israel futuramente pratique outras violações contra a comunidade palestina.

    Ainda assim, os palestinos conquistaram uma grande vitória. Pela primeira vez os palestinos e seus apoiadores, conseguiram “cancelar” Israel e impor uma derrota midiática ao lobby sionista usando das redes sociais para denunciar a brutalidade do genocídio israelense em Gaza. Nunca antes a propaganda israelense falhou em manipular a narrativa e proteger Israel, encobrindo seus crimes, enquanto “demonizava” palestinos e justificava suas ações perante aos veículos de comunicação globais.

    Como inúmeras vezes declarou, Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), os ataques de Israel em Gaza dão conta do “primeiro genocídio televisionado da história”. Em virtude da amplitude da destruição e alto número de mortes de civis palestinos no conflito, crimes de guerra de Israel que incluem vídeos de crianças e mulheres atingidos por bombas e ataques indiscriminados em hospitais e escolas, foram repercutidos na internet por meio de telefones móveis e agora são de conhecimento público.

    O espetáculo da libertação dos reféns israelenses pelo Hamas após a assinatura do cessar-fogo, são outro episódio tratado como um desastre de propaganda por Israel. Enquanto que prisioneiros palestinos foram libertos por Israel como parte do acordo de cessar-fogo em situação de saúde precária e inúmeras denúncias envolvendo casos de torturas e maus tratos de palestinos nas prisões israelenses vieram ao conhecimento público. Os reféns israelenses além de serem vistos em bom estado de saúde física e mental nas cerimônias de entrega de reféns, relataram que receberam tratamento digno no cárcere, situação muito diferente que vivenciam os presos palestinos em Israel.

    Finalmente, em vez de apresentar algumas conclusões definitivas que certamente seriam apresadas, procuramos listar alguns pontos que podem ajudar a avaliar a situação e a conjuntura na região. Ainda assim, é importante ressaltar que não se trata de definir os rumos dos acontecimentos, mas de mostrar, apenas, que a guerra em Gaza ainda não terminou e que novos capítulos serão escritos, seja no campo de batalha ou na mesa de negociação nos próximos tempos. Após quebrar o cessar-fogo em Gaza e realizar um ataque que matou mais de quatrocentos palestinos, no último dia 18 de março, e outras sucessivas ações de violação e ataques visando civis em campos de refugiados, Israel agora também concentra suas ações na Cisjordânia. A resistência palestina também continua.



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