Prof. Dr. Márcio José Mendonça*
Qualquer pessoa que tenha mais de trinta
anos deve lembrar-se que a ideia de uma aeronave que sobrevoa a baixa altura e
que pode atacar alvos em solo não é uma novidade da guerra do século XXI. Antes
disso a aparição de um drone, retratado no cinema hollywoodiano, em 1991, no
filme “Exterminador do Futuro 2: o
julgamento final”, mostra possivelmente a primeira aparição, em público,
de um drone militar. Numa cena apocalítica do filme vemos máquinas caçando e
eliminando humanos e um drone sobrevoando e iluminando o campo de batalha
enquanto procura combatentes e dispara lasers contra alvos inimigos.
Aquilo representado no cinema nos idos dos anos noventa já não é ficção em
nossos dias.
Na Ucrânia ou na Faixa de Gaza os drones
transformaram os sons comuns de qualquer cidade – carros, motos, cortadores de
grama, ares-condicionados – em medos e insegurança permanente que soldados e
civis, em áreas de conflito, estão sujeitos todos os dias. O terror psicológico
provocado pelos Drones FPVs, pequenos e portáteis, já não está restrito à linha
de frente e seus efeitos já são notáveis em combatentes e civis que vivem em
cidades atacadas ou sob vigilância de drones. O medo de drones, a “dronefobia”,
pode ser desencadeada por uma série de ruídos urbanos comuns, em que qualquer
som mecânico que produza um zumbido semelhante ao de um drone, produz sensação
de insegurança ou até mesmo pânico coletivo em pessoas sob efeito psicológico
da dronefobia.
Na guerra moderna ataques aéreos e a capacidade de aeronaves de manipular o ambiente e criar uma modalidade de terror aéreo, é descrita por Sloterdijk (2009) como um tipo de terrorismo atmosférico, que ele chama de atmoterrorismo. Com os drones o atmoterrorismo amplia o campo de batalha no tempo e no espaço, da linha de frente e presença de soldados no campo de batalha, aos espaços e tempos da vida cotidiana incluindo civis e combatentes, todos agora envolvidos sob constante ameaça com a ampliação da escala e modalidades de ação dos drones. Assim, os drones alcançam e atingem espaços e experiências da vida ordinária, além do campo de batalha, produzindo efeitos e traumas de guerra que cruzam fronteiras e são mais duradores em soldados e não-combatentes vítimas do atmoterrorismo e dos efeitos psicológicos do medo de drone, a dronefobia.
*Autor de “Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro” (2022) e “Guerra dos drones: análise e perspectiva do campo de batalha” (2025).
Referências:
GUNTER,
Joel. ‘Dronefobia’: o trauma de soldados que retornam da guerra na Ucrânia. BBC News Brasil, 2 ago. 2025.
MENDONÇCA, Márcio José. Guerra dos drones: análise e perspectiva do campo de batalha. São Paulo: Dialética, 2025. Link de acesso: https://loja.editoradialetica.com/tecnologias/guerra-dos-drones-analise-e-perspectiva-do-campo-de-batalha-1244257741?srsltid=AfmBOopjiGxHYhO_MK8-koXUXtgSy0y78CyWF1EtKkoEN6q5JD_wFWQo
SLOTERDIJK,
Peter. Terror from the air. New York:
Semiotext, 2009.

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