quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Guerra urbana na Ucrânia

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A invasão russa da Ucrânia em 2022 demonstra mais uma vez a importância das cidades no cenário de combates em ambientes urbanos. Embora as cidades fossem alvo de ações militares desde a antiguidade, uma cronologia convencional do campo de batalha moderno pode considerar a Guerra Civil Espanhola o primeiro exemplo de combate de natureza propriamente urbano. O próximo exemplo deve considerar sem dúvida a devastação urbana da Segunda Guerra Mundial, cabendo destacar as batalhas por Stalingrado e Berlim, além de mencionar o bombardeio indiscriminado de Dresden, Hamburgo e Tóquio. Embora episódios emblemáticos em que a cidade foi alvo e os combates se desenvolveram no espaço urbano, uma virada urbana mais explícita, só ocorreu com as experiências dos Estados Unidos em Mogadíscio, em 1993, com o conflito urbano travado em Sarajevo (1992-1996) e pela experiência russa em Grozny (1994-1995). E se considerarmos os exemplos mais recentes de guerra urbana no Iraque e na Síria, como parte dessa cronologia, todos incidentes denotam um “uma virada histórica para a guerra urbana”, como argumenta Anthony King (2021, p. 6, tradução livre; ver também GRAHAM, 2011; MENDONÇA, 2022; e DANIELSSON, 2024).

Tratando-se de guerra em ambiente urbano, conflitos em cidades, são um tipo de conflito que se desenvolve em áreas urbanas, com características próprias que exigem novos modos de comportamento e de atuação dos soldados por conta da presença de muitos civis e do ambiente construído que oferece complexidade extrema ao campo de batalha. Assim, a compreensão do ambiente de conflito urbano demanda uma abordagem conceitual mais ampla, que dê conta da dinâmica e complexidade de combate do espaço urbano. Nesse âmbito, o geógrafo britânico Stephen Graham (2011), especialista no tema, sugere o emprego da concepção de espaço de batalha, em vez de campo de batalha, espaço em geral amplo e aberto. Segundo argumenta Graham, o espaço de batalha não possui um front ou retaguarda, tampouco deve ser visto como uma horizontalidade, mas como um espaço profundo de várias camadas, onde o combate é sempre simultâneo à vida e a qualquer outra atividade. “O conceito de espaço de batalha permeia tudo, indo das escalas moleculares da engenharia genética e da nanotecnologia, passando pelos espaços cotidianos e experiências da vida da cidade, até esferas planetárias do espaço e o ciberespaço da internet que atravessa o globo” (GRAHAM, 2011, p. 31, tradução livre). Na perspectiva enfatizada, o espaço de batalha pode ser qualquer lugar tomado como campo de batalha, com diferentes níveis ou camadas espaciais, a partir das estruturas preexistentes do lugar, que então são manipuladas por combatentes ou construídas com finalidades militares. São lugares onde, muitas vezes, os combates ocorrem em “espaços comuns” ou “ordinários”, em meio a salas de estar, escolas, áreas industriais, hospitais e supermercados, ambientes característicos de conflitos urbanos.

Todavia, é preciso observar, que muitos dos princípios reconhecidos que caracterizam a guerra urbana e que são aplicados hoje ao cenário densamente urbanizado e de grande densidade demográfica, em cidades, já eram, aplicáveis ao período pré-moderno. Por isso, para sua melhor apreciação, aos tempos modernos, John Spencer (2021) oferece uma lista útil de oito critérios para descrever os princípios fundamentais da guerra urbana moderna que, de acordo com Morag (2023), em síntese, podem ser referidos da seguinte maneira:

1. Os defensores quase sempre têm uma vantagem tática, especialmente em cidades, embora isso não signifique que estas necessariamente terão sucesso no nível operacional ou estratégico de um conflito;

2. O terreno urbano inibe a capacidade da força atacante de usar inteligência, vigilância, reconhecimento, implantação de meios aéreos e enfrentar os defensores à distância;

3. As forças atacantes têm dificuldade em alcançar o elemento surpresa, pois eles são monitorados pelas tropas de defesa, que podem permanecer escondidos dos atacantes;

4. Os edifícios, especialmente os feitos de vigas de concreto reforçado ou de pedra, servem como bunkers fortificados a partir dos quais as forças de defesa podem disparar sobre as forças atacantes;

5. Os invasores costumam usar munições, às vezes poderosas, para acessar edifícios e negá-los às forças de defesa;

6. Os defensores têm a vantagem de uma circulação relativamente livre dentro da cidade e conhecimento íntimo das ruas, dos becos e dos labirintos — quando não estão sob vigilância ou ataque por veículos aéreos não tripulados ou por outros meios;

7. Os defensores podem construir túneis, depósitos de armas e uma série de outras instalações subterrâneas e usá-las para acessar vários locais ao redor da cidade. Os invasores geralmente têm pouco ou nenhum conhecimento sobre esses lugares;

8. Nem as forças de ataque nem as de defesa podem dispor dos seus recursos numa localização de forma concentrada. A concentração de forças é um dos fatores decisivos na guerra convencional no campo de batalha, pois, historicamente, o objetivo das operações de campo era concentrar suas forças para dizimar o exército inimigo. A incapacidade de usar forças em massa tem desvantagens para ambos os lados, mas, no caso da força de defesa em tela, que é uma força irregular, e a força de ataque, que é uma força militar moderna — o que aconteceu em muitos casos da guerra urbana moderna pós-Segunda Guerra Mundial — os recursos tecnológicos, numéricos, as vantagens de treinamento e equipamento de um exército moderno não podem, em muitos casos, ser aplicados tão eficazmente quanto seria possível em condições abertas de guerra. Assim, a força militar moderna é muitas vezes forçada a lutar junto de combatentes irregulares, com ambos os lados estando amplamente equiparados, uma vez que carregam tipos de equipamentos semelhantes, e a vantagem de treinamento que um soldado moderno tem pode ser relativamente negada pelo fato de o conhecimento do terreno proporcionar uma defesa irregular ao combatente. Além disso, os defensores irregulares geralmente têm tempo suficiente para preparar a sua cidade para o conflito, incluindo a tomada de medidas como a escavação de túneis, a construção de depósitos de munições, o estabelecimento de posições de atiradores, a implantação de armadilhas e o planejamento de emboscadas.

Dessa forma, o conflito urbano, muitas vezes uma guerra irregular, travada em áreas edificadas, difere do combate convencional, ao ar livre, tanto no nível operacional quanto no nível tático. Fatores que incluem a presença de civis e a complexidade do terreno urbano são complicadores que interferem no conflito e que implicam em produção de conhecimento e táticas para atuar no espaço urbano. Nesse sentido, embora Danielsson (2024) muito bem descreva a trajetória histórica-conceitual (2024) pela qual a ideia do urbano militar surgiu, a partir da necessidade de uma nova ordenação espacial e epistêmica de ambientes urbanos, para se referir aos modos práticos nos quais uma organização militar produz conhecimento, na busca de alcançar proficiência militar em ambiente urbano por meio de ações administrativas e de intervenções de caráter cirúrgico, que a princípio buscam gerar menos impacto ou minimizar o dano colateral. É de fato notável, que os conflitos militares na Síria, na Faixa de Gaza, além da guerra na Ucrânia, também mostram que o urbano é tratado, mesmo agora, com profundo desenvolvimento de recursos tecnólogos, como um espaço hostil, caótico e perigoso, que precisa ser domado ou até mesmo completamente destruído. Assim, ações de guerra conduzidas em espaço urbano por militares israelenses, americanos e russos, que ensejam vitórias militares no cenário urbano, visam a destruição mais substancial do espaço urbano com o propósito de atingir grupos que usam o ambiente construído como abrigo e suporte para suas operações.

As cidades e sua extensa rede urbana oferecem as forças de defesa, sitiadas em prédios e outras estruturas urbanas, uma defesa significativamente baseada no espaço urbano por meio de esconderijos e defesas montadas no ambiente construído. Vale dizer que combatentes abrigados no espaço urbano, também podem contar, com as vantagens de extensa cobertura da estrutura civil oferecida no combate urbano. Diferente de espaços amplos e abertos, ambientes urbanos de combate são muito próximos; assim, dentro e ao redor dos edifícios, é muito difícil garantir a segurança de não-combatentes.

Isto limita a liberdade de movimento das forças invasoras convencionais e os torna mais vulneráveis a ataques, enquanto as mortes de civis e a danos em propriedades podem beneficiar as forças de defesa irregulares, atraindo atenção e ira contra as forças invasoras. A morte de inocentes numa cidade pode influenciar a opinião pública por parte dos habitantes na direção de fornecer apoio crescente às forças irregulares e alimentar maior ódio às forças invasoras. Assim, os defensores urbanos desfrutam de uma grande gama de vantagens, não apenas taticamente, mas também em termos de impacto local, nacional, e opinião global, algo que pode influenciar a política do país invasor, bem como suas relações com seus aliados e parceiros comerciais (MORAG, 2023, p. 81, tradução livre).

Nesse aspecto, as cidades ucranianas têm oferecido inestimável obstáculo as ações ofensivas das forças russas que

[...] buscam a ocupação de assentamentos e cidades após a supressão e destruição das poderosas fortificações ucranianas, depósitos de munições e esgotamento de suas reservas, impulsionando avanços de infantaria leve e mecanizada apenas com a retirada de forças ucranianas ou destruição amplas de suas unidades. Tal metodologia de combate se baseia fortemente na doutrina empregada na Segunda Guerra da Chechênia e na intervenção militar na Síria, no qual danos significativos à infraestrutura urbana são inseridos no contexto de eliminação completa da resistência e posterior avanço para eliminação de unidades remanescentes, porém esgotadas (LATERZA et al., 2023, p. 102.)

No cenário de guerra no leste ucraniano, as forças ucranianas implementaram extensas defesas em profundidade ao longo de toda a linha de contato com as regiões de Donetsk e Lugansk, que em sinergia com as cidades, tem exigido muitos recursos e alto nível de tolerância de perdas em vidas e material por parte dos russos. Vale ressaltar, para os defensores ucranianos, as cidades tem oferecido inúmeras possibilidades de deter e neutralizar as investidas russas que precisam avançar com cuidado diante do risco de serem atraídos para uma armadilha. Até o momento os russos não conquistaram nenhuma cidade que possa se definir como grande, seja em aspecto demográfico ou densidade urbana, tendo em vista que os avanços em direção a Kiev e Kharkiv, as maiores cidades ucranianas, foram impedidas por feroz resistência baseada no espaço urbano. A conquista de densos núcleos urbanos são operações complexas diante da presença de edifícios altos, áreas industriais, escolas, hospitais, centros de distribuição de energia, além de ruas e avenidas de diferentes tamanhos, dentre outras estruturas presentes na extensa rede urbana da Ucrânia (ver LATERZA et al., 2023). 

Como Rodolfo Laterza et al. (2023) nos ajudar a entender, as cidades ucranianas proporcionam muitas possibilidades aos defensores que estão conseguindo êxito em desgastar as tropas russas que se aventuram em terreno urbano. Os avanços de blindados pelas ruas os tornam alvos fáceis, helicópteros igualmente são vulneráveis ao fogo de sistemas de defesas instados na cidade, enquanto que a infantaria, para avançar, deve limpar cada edificação antes de prosseguir, tornando o avanço lento e penoso com alto custo em vidas devido à resistência urbana, às armadilhas, às emboscadas e demais dispositivos improvisados instalados no terreno urbano, em ruas e edifícios. Por isso, ao assumir o comando das operações militares russas na Ucrânia, em outubro de 2022, o general Sergei Surovikin, conhecido como “general Armagedom”, adotou modificações táticas e na estratégia militar russa e a fim de evitar baixas e perdas de material, os russos agora a fim de facilitar a progressão no terreno urbano, procuram cercar as cidades e usar fogo de artilharia para destruir obstáculos e limpar o terreno, com o objetivo de depreciar as defesas ucranianas.

Ainda de acordo com Rodolfo Laterza et al. (2023), essa tática cumpre o objetivo de suspender o abastecimento das tropas entrincheiradas na cidade e assim afetar as condições de subsistência da resistência ucraniana. Nesse âmago, os ataques de artilharia além de destruir fortificações, esconderijos, equipamentos e munições inimigas, objetivam também nivelador o espaço urbano, ao destruir edifícios, diminuindo o fator vertical de complexidade de várias camadas do espaço de batalha, presente nos edifícios. Construções altas são eventualmente usadas como ponto de observação e disparo de atiradores e armas antitanque contra tropas que avançam pelas ruas. Outro fator de complexidade do espaço urbano ucraniano, são a presença de túneis e áreas industriais, uma característica da herança soviética, portanto, comuns nas cidades ucranianas, que oferecem um teatro de batalha de múltiplas camadas, isto é, de vários volumes, no campo de batalha.

Embora os russos agora evitem invadir os principais centros urbanos, o avanço pelo terreno no leste ucraniana, necessariamente precisa lidar com a questão urbana. Assim visto, na medida em que as cidades ucranianas passaram a ser usadas para desgastar as forças russas, os generais de Putin, implementaram o arranjo tático de destruição massiva do espectro urbano com ataques de artilharia e bombardeios aéreos pesados com o propósito de enfraquecer as defesas ucranianas e modelar o campo de batalha a favor dos russos, favorecendo o avanço das tropas invasoras no vazio urbano destruído, para só em seguida ocupá-las. No entanto, a guerra urbana na Ucrânia não é uma questão circunscrita apenas ao elemento militar, propriamente dito, uma vez que, o cenário ucraniano ainda oferece outras camadas adicionais de complexidade para os russos, ao lidar com o problema das cidades. Além da dificuldade de avanço pelo terreno urbano, muitas cidades ucranianas são habitadas por expressiva população russa. Segundo historiadores russos a cidade de Kiev constitui o berço da civilização russa e, portanto, possui um importante vínculo cultural e uma forte identidade com a civilização russa, não sendo, de forma alguma, uma opção a sua destruição completa (ver LATERZA et al., 2023).

Dessa forma, podemos evidenciar que os russos procuram evitar grandes centros urbanos ucranianos pelas dificuldades impostas ao avanço militar sobre o terreno urbanizado; também por questões sensíveis de identidade e possíveis danos a arquitetura e histórica russa compartilhada com os ucranianos. Em seu avanço pelo leste ucraniano, os russos têm optado por ataques contra assentamentos urbanos pequenos e médios, embora de significativo valor, estes centros minimizam um pouco o número de perdas entre a população civil e exigem menor demanda do efetivo de tropas russas em relação a uma incursão em Kiev, hoje, por exemplo, fora dos planos de Moscou.

Assim, é importante destacar, que a tática de destruição de cidades e vilas ucranianas, mesmo massiva, não visa uma destruição total e definitiva do espaço urbano ucraniano. Deve-se lembrar que os assentamentos ucranianos são lugares habitados também por russos, por isso, as ações militares de Moscou não devem ser vistas apenas como guerra de conquista e destruição infame ou sem sentido, mas sim, uma ação militar de ocupação e organização do espaço cultural e político russo na região em sentido estratégico. Por esse aspecto, sobretudo, no âmbito do urbicídio* aplicado na Ucrânia, embora genuíno, em suas características destrutivas, também implica em urbanização como medida de (re)territorialização dos interesses de Moscou e da população russa naquela região.

 

* Por urbicídio entende-se as práticas e meios militares destinados, com fins políticos, que visam, no fundo, além de vencer o inimigo, a destruir o seu habitat, negando-lhe a cidade e o espaço urbano como substrato de reprodução ou esconderijo. Dessa maneira, o que estamos vendo na Ucrânia é um processo de destruição do espaço urbano com o objetivo de negá-lo ao inimigo como espaço de resistência. Trata-se, em termos simples, de uma forma de violência contra a cidade e seus habitantes, em outras palavras, de uma ação deliberada de destruição do ambiente construído e da urbanidade que propicia a vida na cidade, com a intenção de atingir pelo uso da força uma finalidade política (para mais detalhes, ver MENDONÇA, 2022).

 

Referências

DANIELSSON, Anna. The emergence of a military urban in and of war. Annals of the American Association of Geographers, p.1-15, nov. 2024.

GRAHAM, Stephen. Cities under siege: the new military urbanism. Londres: Verso, 2011.

KING, Anthony. Urban warfare in the twenty-first century. Cambridge, RU: Polity Press, 2021.

LATERZA, Rodolfo Queiroz [et al.]. Guerra na Ucrânia: análises e perspectiva: o conflito militar que está mudando a geopolítica mundial. São Paulo: D´Plácido, 2023.

MENDONÇA, Márcio José. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Dialética, 2022.

MORAG, Nadav. Urban warfare: the recent Israeli experience. Journal of Strategic Security, v. 16, n. 3, p. 78-99, 2023.

SPENCER, John. The eight rules of urban warfare and why we must work to change them. Modern War Institute, 1º de dezembro de 2021. Disponível em: <https://mwi.usma.edu/the-eight-rules-of-urban-warfare-and-why-we-must-work-to-change-them/>. Acesso em: 6 de janeiro de 2024.




sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Palestina Livre 2025

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Como os mais atentos as atividades e publicações de nossa página já estão cientes, estamos concluindo o livro “Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha”. Este livro será lançado ainda no primeiro trimestre de 2025. Contudo, muitos outros projetos nos aguardam em 2025. Além do livro que irá analisar o impacto e transformação do campo de batalha pela introdução dos drones em cenário de guerra, estamos dando início ao projeto de desenvolvimento de um segundo livro, sobre o tema da guerra na Faixa de Gaza.

Assim, o livro “Palestina Livre: 500 dias de combate e resistência palestina ao extermínio israelense na Faixa de Gaza”, irá analisar os acontecimentos na Faixa de Gaza desde o dia 7 de outubro, com foco nas formas de combate da resistência palestina baseadas em terreno urbano contra a ocupação e extermínio dirigido por Israel. Para tanto, o livro além de analisar o contexto do combate em terreno urbano, ou seja, da guerra em ambiente urbano, pretende focalizar com destaque, as táticas e formas de organização da resistência armada palestina na Faixa de Gaza.

Este projeto consiste numa versão ampliada do trabalho publicado em julho de 2024, pela revista Ensaios de Geografia, com o título de “Guerra urbana em Gaza: 100 dias de combate entre Israel e Palestina” (https://periodicos.uff.br/ensaios_posgeo/article/view/61784), que agora, ampliado e revisto, almeja realizar uma análise mais profunda do campo de batalha e do esforço de guerra da resistência palestina.

Desde agora, todos estão convidados a conhecer um pouco sobre as formas de luta e organização da resistência palestina. Que a verdade e o rigor acadêmico guiem cada palavra e virgula dessa história. 

Ilustração de divulgação

sábado, 28 de dezembro de 2024

Guerra das máquinas e o futuro do campo de batalha

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

O teatro de guerra na Ucrânia tem produzido uma intensa corrida tecnomilitar entre russos e ucranianos com emprego de diversos tipos de robores terrestres e drones no campo de batalha. Em 16 de dezembro, os ucranianos anunciaram o primeiro assalto totalmente robotizado em trincheiras no campo de batalha, com emprego de dezenas de veículos terrestres não tripulados equipados com metralhadoras e minas terrestres, apoiados com o suporte aéreo de drones kamikazes de visão em primeira pessoa, operando em conjunto e total sinergia em um ataque realizado nas imediações de Kharkiv. O emprego combinado desses equipamentos, segundo os ucranianos, garantiu o avanço seguro da infantaria no terreno tomando posições russas na área norte de Kharkiv.

Tais inovações tecnológicas no campo de batalha fazem parte da implementação de um programa ucraniano, chamado Brave1 (Ukranian Defense Innovations), que busca alcançar uma série de soluções tecnológicas inovadoras em cenário de combate a partir do emprego de inteligência artificial e guerra eletrônica. Esse avanço tecnológico reflete a tentativa da Ucrânia de superar limitações de mão de obra para evitar baixas humanas no campo de batalha, enquanto os russos também têm desenvolvido suas próprias soluções criando uma competição tecnológica entre os dois países.

Neste momento há diversos robôs atuando no campo de batalha como apoio de fogo e suporte logístico. São exemplos os cães robôs que são usados em missões de patrulhamento e entrega de suprimentos. Estes robôs são ágeis e podem atuar em terrenos difíceis para localizar armadilhas e minas terrestres, além de transportar cargas e armamentos. Na guerra robótica, outro destaque são os robôs kamikazes, um tipo de drone terrestre que pode realizar missões de ataque kamikaze, transporte de suprimentos e criação cortinas de fumaça, entre outros usos. Mas a principal aplicação de veículos kamikaze consiste no pronto emprego em missões suicidas, implantado minas terrestres antipessoais ou explosivos para destruir tanques e fortificações mantendo os operadores em distância segura.

No teatro ucraniano, os robôs de apoio de fogo estão emergindo como ferramentas crucias no campo de batalha moderno, integrando tecnologia avançada com táticas militares para alcançar maior eficiência, precisão e segurança. Estes robôs já estão operando de forma autônoma por meio do avanço de implementação de inteligência artificial. Dessa forma, as introduções dessas armas acrescentam novas camadas de complexidade no campo de batalha e dão um deslumbre das guerras do futuro altamente robotizadas, um verdadeiro campo de batalha cyber tecnológico.

A operação militar na Ucrânia, seguida pelo conflito na Palestina, provou que o conflito moderno, seja em trincheiras, seja nos mares, seja nas cidades, é diferente daqueles que vimos até o século XX. Na guerra moderna os sistemas automatizados, equipamentos controlados remotamente à distância, versáteis e furtivos, como os drones e robores terrestres, estão conquistando espaço e são fundamentais no campo de batalha em inúmeras aplicações. Isso não significa que a infantaria tenha perdido sua importância; ela continua indispensável para atacar, ocupar e manter o terreno. No entanto, sem o apoio de drones e outros sistemas robotizados as tropas em solo e os equipamentos militares no campo de batalha tornam-se vulneráveis e podem até mesmo se tornar obsoletos. Em guerras que, independentemente do ambiente, dependem cada vez mais de sistemas que proporcionem consciência situacional, os diversos tipos de drones e veículos terrestres não tripulados são fundamentais para missões de ataque, transmissão de informações e codificação de dados.  


Drone terrestre ucraniano instala barreiras de minas antitanque no terreno. 

Fonte: “Guerras pelo mundo”, no Instagram, 26 de janeiro de 2024.




domingo, 15 de dezembro de 2024

Top 5 análises para entender a queda de Bashar al-Assad e os últimos acontecimentos na Síria

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

(Pepe Café) Síria: uma tragédia interminável: https://www.youtube.com/watch?v=E3BLED0X9h4

(Pepe Café) Síria pós-Assad: a morte de uma nação: https://www.youtube.com/watch?v=7mS50EK8lZc

(Brasil 247) Forças do Brasil –  Síria: Vitória de Pirro: https://www.youtube.com/watch?v=6oxw2vHBfB8

(Anitablian) Urgente / A Síria não existe mais: https://www.youtube.com/watch?v=wpR6F4rOYOg&t=1272s

(Opera Mundi) Qual o futuro da Síria? – Paulo Sérgio Pinheiro – programa 20 minutos: https://www.youtube.com/watch?v=bfGMaP3UAeg&t=3639s 

Bashar al-Assad (ex-presidente da Síria)


sábado, 23 de novembro de 2024

Drones: projeção de poder e mundos possíveis

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Os conflitos na Ucrânia, na Palestina e no Líbano, provaram ao mundo, que a guerra moderna, seja ela travada em trincheiras, seja nos mares, seja nas cidades, é diferente daqueles que vimos até o século XX. Na guerra moderna os sistemas automatizados, equipamentos controlados remotamente à distância, versáteis e furtivos, como os drones, estão conquistando espaço e são fundamentais no campo de batalha, para uma finalidade de meios e aplicações. Isso não significa que a infantaria tenha perdido sua importância; ela continua indispensável para atacar, ocupar e manter o terreno. No entanto, sem o apoio de drones, as tropas em solo e os equipamentos militares no campo de batalha tornam-se vulneráveis e podem até mesmo se tornar obsoletos. Em guerras que, independentemente do ambiente, dependem cada vez mais de sistemas que proporcionem consciência situacional, os diversos tipos de drones são fundamentais para missões de ataque, transmissão de informações e codificação de dados.  

Para russos, ucranianos, israelenses e até mesmo para o Hamas, na Faixa de Gaza, o comando e o controle das operações, no campo de batalha, mudaram e agora grupos de assaltos são acompanhados por drones. Exemplos na Guerra da Ucrânia não faltam e na Palestina, o Hamas, também empregou drones no ataque de 7 de outubro de 2023, enquanto os drones israelenses continuam a sobrevoar o território da Faixa de Gaza e o Hezbollah ataca forças israelenses com drones, ao longo da fronteira no sul do Líbano. Para todos os casos, drones são usados em tarefas de vigilância, localização e designação de alvos, empregados, por fim, em ataques às posições de artilharia inimiga, em verdadeiras caçadas aos combatentes em terreno e contra equipamentos militares e infraestruturas civis.

Além de maior consciência situacional e precisão nos ataques, os drones possibilitam projeção de poder a longas distâncias. O emprego de drones na Guerra da Ucrânia, consiste num exemplo evidente da projeção de poder aéreo nas profundezas territoriais, tendo visto que drones russos e ucranianos conseguem furar defesas aéreas e atingir alvos no interior de ambos os países. O contra-ataque iraniano do dia 13 de abril, em resposta ao ataque israelense a sua embaixada na Síria, também corrobora com a ideia que estamos entrando na era dos ataques do tipo enxame, com emprego de ações coordenadas entre vários drones em situações de conflito, entre Estados-nacionais, mas também, por grupos armados diversos de diferentes matizes. Nesse âmbito, o Hezbollah, em junho de 2024, divulgou um vídeo feito por um drone da organização, que conseguiu adentrar dezenas de quilômetros no interior de Israel e além de monitorar áreas sensíveis, como a Base Naval de Haifa, acenou que poderia atacar pontos vitais no interior de Israel sem maiores empecilhos.

Os drones desempenham um importante papel na guerra de armas combinadas, empregada com uso de mísseis e drones, cujo o campo de batalha, já não é mais uma linha de contato entre dois exércitos, mas uma ampla área que recobre milhares de quilômetros e inclui uma série de camadas atmosféricas. Neste cenário de combate cada vez mais extenso, os russos estão dronificando bombas não guiadas, de pouca precisão, conhecidas como “bombas burras”, por meio da acoplagem de dispositivos planadores guiados que funcionam por geolocalização e a partir dessa nova técnica, utilizando bombas de até três mil toneladas (Bombas FAB-3000) em ataques contra o interior da Ucrânia. Os ataques realizados à considerável distância por aeronaves russas, do tipo SU-34, são feitos por bombas que seguem uma rota de coalizão e podem ser ajustados ao alvo de impacto remotamente.

Os ucranianos, por seu turno, também estão desenvolvendo seus dispositivos e além dos drones navais, de grande impacto na guerra marítima travada no Mar Negro, criaram muitos outros dispositivos eficientes na guerra terrestre. Destaque, em particular, para o drone Baba Yaga, descrito como um “drone bombardeiro vampiro”, apelido em referência à criatura mitológica eslava, Baba Yaga, uma espécie de bruxa sobrenatural que algumas vezes é traduzida no Ocidente, também como Bicho Papão. Na verdade, um drone de pequenas dimensões, capaz de carregar cargas explosivas maiores que o seu diâmetro e mais pesadas que a massa do drone, temido por soldados russos no campo de batalha.

Outra inovação, em matéria de drones empregados pelos ucranianos, foi posto em ação no segundo semestre de 2024. Essa nova arma, diferente de todos os demais modelos de drones desenvolvidos até então, foi apelidado de Drone Dragão, tendo em vista que consiste numa espécie de lançador de chamas aéreo, que literalmente cospe fogo de cima para baixo, em posição vertical. Estes drones amplamente utilizados por Kiev, são empregados com o propósito de queimar áreas verdes e florestas, afim de evitar a formação de esconderijos para soldados e equipamentos russos. Para isso, as aeronaves utilizam uma substância altamente incendiária chamada térmita para colocar fogo na vegetação. Os russos, embora não tenham tido inicialmente a mesma criatividade dos ucranianos com uso de drones lançadores de chamas, agora também estão aplicando os seus protótipos em campo de batalha.

Não só uma tendência, mas uma realidade do espaço de batalha tridimensional, repleto de armas de fogo, de sensores e equipamentos virtuais, com os drones e uma gama de dispositivos, o campo de batalha passa a ser um holograma virtual, em que as camadas atmosféricas são ambientes atmosféricos de combate povoados com drones e outras aeronaves.

Do teatro de guerra em trincheiras ou nos oceanos, na guerra urbana, também, os drones estão se destacando, sendo empregados, além de missões de ataque, em operações de reconhecimento em ruas, na identificação de emboscadas e na busca de fortificações ou até mesmo em operações de infiltração em esconderijos, bases e túneis inimigos. Assim, o uso de drones para múltiplas tarefas, no campo de batalha, inscreve uma mudança de paradigma do combate, em que o controle do espaço, por sistemas vigilância e de armas combinadas, representam um importante papel na doutrina militar e na estrutura organizacional de operações militares, cujo o controle do espaço de batalha, enquanto conteúdo e forma, de um espaço multiverso, é cada vez mais fundamental. Nesse cenário de operações, as ações de combate ocorrem e são coordenadas entre o espaço subterrâneo de bunkers e túneis e o espaço aéreo, repleto de sistemas de vigilância interconectados. O sucesso na guerra depende do controle tridimensional do campo de batalha, em uma disputa por volumes — do ciberespaço ao bunker mais profundo —, em vez de uma simples conquista territorial.

Todavia, para alento da humanidade, mesmo na era do capitalismo tecnológico, nem todos os usos de inovações tecnológicas são voltados para a guerra e controle disciplinar da sociedade. Embora os drones sejam convencionalmente associados às práticas e operações no meio militar, eles também possuem muitos usos civis e podem, muito bem, ser reconceptualizados e empregados numa verdadeira “reimaginação coletiva”, com usos solidários e fins pacíficos como parte de uma mudança operativa na política atmosférica. O espaço aéreo e a manipulação de ambientes atmosféricos são uma questão em disputa, envolvendo as tecnologias e os mundos que podem vir a ser construídos e reivindicados por atores não hegemônicos, que estão a lutar contra a atual ordem global.

Outros usos e políticas espaciais não violentas através do emprego de drones são possíveis. Kaplan (2020), por exemplo, mostra que o uso de drones por “jornalistas amadores” ou “testemunhas civis”, para denunciar o uso da violência estatal contra a população, em movimentos de protesto, estão a enfrentar a dronificação militar do espaço aéreo e dispostos a criar novas possibilidades de uma política atmosférica mais humana e não necessariamente voltada para a guerra. Os drones são a nova fronteira de disputa entre os propósitos coletivos de uso das tecnologias, em benefício de uma maioria e os usos destrutivos da geopolítica hegemônica do mundo capitalista. Independente da forma de conceptualização dos drones que está se impondo, o futuro não foi escrito e ainda há um mundo de possibilidades com uso dos drones em favor da humanidade.


KAPLAN, Caren. Atmospheric politics: protest drones and the ambiguity of airspace. Digital War, v. 1, p. 50-57, março. 2020.

*Este texto consiste num fragmento do livro "Guerra dos drones: análise e perspectiva do campo de batalha" em fase de finalização. 

**Leia também "Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro". Adquira o seu livro pelo link:
https://loja.editoradialetica.com/humanidades/espaco-de-batalha-e-urbicidio-na-cidade-do-rio-de-janeiro 

domingo, 20 de outubro de 2024

365 dias de combate em Gaza e a guerra no Líbano

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Após um ano de conflito entre as forças israelenses e os grupos palestinos na Faixa de Gaza, a destruição completa do espaço urbano deixa claro que Israel visou o espaço urbano com o propósito de destruir a estrutura urbana que ampara e sustenta a vida da população que ali vive, sejam eles, combatentes ou civis. O urbicídio como método de guerra para destruir o ambiente urbano que permite uma resistência baseada na cidade, foi então, empregado como poucas vezes se viu, na história recente, de tal forma, que nessa altura, mesmo os maiores defensores da narrativa de combate ao terrorismo, teriam dificuldade de esconder o genocídio praticado por Israel contra mulheres e crianças palestinas indefesas, assassinadas aos milhares.

Embora a história e o conflito atual entre israelenses e palestinos demonstre, que ambos os lados estão agindo com o propósito de modelar o espaço urbano para abrir caminho para operações militares, para assim atingir o inimigo severamente. É fato, que neste momento, Israel está mais próximo de desferir um ataque fatal, do que o Hamas ou o Hezbollah, de conquistar uma vitória militar que seja realmente impositiva aos israelenses. O cenário atual, com a decapitação das principais lideranças do Hamas e do Hezbollah, além de ser um significativo golpe político na resistência armada ao sionismo, demonstra uma certa fragilidade do Eixo da Resistência sob liderança do Irã.

Nesse sentido, se o Hezbollah e principalmente o Hamas, na Faixa de Gaza, demonstraram muita resiliência para enfrentar um inimigo inegavelmente muito superior militarmente. Agora, o Hamas, totalmente cercado e significativamente deteriorado após meses de combate e resistência ferrenha, demonstra também, esgotamento de seus recursos, tanto em meios materiais quanto humanos. É verdade, que no combate corpo a corpo pelas ruas e pelos escombros de Gaza, os combatentes palestinos ainda são capazes de causar danos, sobretudo a contar com o uso de lançadores portáteis de granadas e com o fator surpresa no ambiente urbano. Por outro lado, o avanço de Israel no terreno e não menos relevante a diminuição de ataques palestinos por meio de foguetes contra o solo israelense, deixam, também claro, que as capacidades de combate dos grupos palestinos de enfrentar Israel está se deteriorando.

Todos sabemos, que os insurgentes palestinos, eram incapazes de efetuar uma guerra prolongada contra Israel em terreno aberto, por isso, procuraram atrair as forças israelenses para o interior de Gaza e assim impor uma derrota militar aos invasores. Por meio de ações combinadas de guerrilha e guerra de atrito, as táticas dos grupos palestinos se baseiam em preparação do terreno, com a elaboração de armadilhas e abrigos subterrâneos, os conhecidos túneis, que foram e ainda estão sendo muito empregados em operações de ataque, na retaguarda do inimigo, provocando muitas baixas as tropas israelenses. 

Contudo, o prolongar do conflito e cerco em Gaza, com apoio estadunidense que abastece Israel regularmente, implica em um desafio ainda maior, com Israel impondo uma destruição ampla e sistemática de toda a estrutura social e física no qual se apoia a vida da sociedade palestina – uma verdadeira aniquilação de Gaza. É claro, que no campo de batalha, ao entrar em Gaza e agora no Líbano, os soldados israelenses estão expostos aos ataques de seus inimigos em combate direto e sujeitos a emboscadas e ataques inesperados, de tropas bem treinadas. Dessa vez, israelenses não estão a lutar contra palestinos ou libaneses desarmados e sem treinamento militar adequado como foi em outros momentos. Com a presença prolongada de soldados israelenses no campo de batalha, em Gaza, na Cisjordânia ou no sul do Líbano, eles são alvos fáceis de guerrilheiros que conhecem o ambiente urbano das cidades palestinas ou o relevo acidentado do sul do Líbano, sendo o custo para eles, independente de toda superioridade tecnológica, sem dúvida, muito alto. Todavia, Israel pretende dobrar a aposta para afastar os grupos rivais de suas fronteiras e assim impor uma vitória duradoura na região, ainda que arrisque muitas fichas e fique na torcida para o Irã não se envolver diretamente na guerra. Israel hoje sabe que não pode vencer o Hamas ou o Hezbollah em combate corpo a corpo em ambiente urbano, mas sabe que pode destruir cidades e vilas palestinas e libanesas em uma grande extensão de destruição urbicida.

Por isso, mesmo que o Hamas e os demais grupos palestinos, a considerar os combates urbanos, tenham muito das vezes, vencido as tropas israelenses em solo, em matéria de combate direto. Os danos em Gaza infligidos por Israel são de tal magnitude, deixando o território sem condições de habitabilidade, ao provocar um total retrocesso social e econômico, tornando a resistência não só mais difícil, mas também, desastrosa para os civis que ali vivem.

O desenrolar do conflito e o futuro da resistência as ações de Israel agora implicam no envolvimento mais direto do Irã e num preço ainda mais alto, que não só palestinos e libaneses, mas iranianos, sírios e todo o Eixo da Resistência, precisa estar disposto a pagar para enfrentar Israel, se de fato quiser frear o seu avanço e impor uma derrota expressiva ao sionismo. Gaza diante do poder de Israel, com apoio econômico e militar dos Estados Unidos e com toda a negligência da ONU, não possui condições de resistir eternamente. Embora a luta palestina por sua existência já seja heroica, os palestinos precisam não só de apoio, mas de ajuda ampla e irrestrita. Daí a grande questão: até onde o Irã está disposto a se envolver no conflito?


                                                           

Nasrallah e Sinwar

(ex-líderes do Hezbollah e do Hamas eliminados por Israel)

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Dronificação do crime em megacidades do Sul Global*

Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

Com a dronificação do espaço de batalha em diferentes cenários, os drones militares e de uso civil adaptados para combate, estão sendo cada vez mais empregados em ambiente urbano na Ucrânia, na Faixa de Gaza e em muitos outros lugares, em situações de guerra, mas também, como Ian Shaw (2016) observou, doravante, em ações de vigilância e policiamento ostensivo de significativos contingentes de população excedente que vivem em áreas urbanas e nas grandes metrópoles do planeta.

Embora os drones militares e sistemas de vigilância dronificados tenham sido primeiro implantados em espaços periféricos do planeta, em áreas tribais do Paquistão, Iêmen, Somália, Afeganistão e nos territórios palestinos ocupados, em suma territórios de disputa colonial, o seu uso é cada vez mais recorrente nos grandes centros urbanos com o propósito de controlar a população excedente do capitalismo. Um número cada vez maior de trabalhadores descartados do sistema de acumulação, são então, alvos das técnicas capitalistas contemporâneas de controle e vigilância aplicadas de cima para baixo, verticalmente no espaço, como parte de um programa de securitização da vida, que Ian Shaw (2016) chamou de “dronificação da violência estatal”.

Contudo, a dronificação e implantação de sistemas de vigilância e securitização da vida, não é restrita as ações do Estado e do policiamento ostensivo, comum em grandes centros urbanos do planeta. Em megacidades do Sul Global, como o Rio de Janeiro, traficantes de drogas já operam drones com propósitos de monitorar e vigiar a ação de grupos rivais ou da própria polícia no território controlado pelas facções. A nova fase de dronificação dos mecanismos de securitização conduzida por grupos ilegais vai além da simples e pura gestão da pobreza excedente por meio da intervenção estatal. Agora grupos de traficantes de drogas no Rio de Janeiro participam também da guerra urbana por meio do uso de recursos aéreos, acessando e controlando aeronaves não tripuladas. No Rio de Janeiro, essas facções usam drones adaptados para uso militar, por meio do qual vigiam a ação da polícia e de grupos rivais enquanto patrulham ruas e becos de favelas da cidade.

O baixo custo e a facilidade operacional dos drones, expandiu as fronteiras de uso dos drones militares dos campos de batalha no Leste Europeu e do Oriente Média ao espaço urbano do Sul Global. Dessa forma, os drones estão a povoar todas as esferas da vida e a constituir um importante mecanismo atmosférico de violência e vigilância vertical, que ao aplicar uma política de guerra e de segurança de cima para baixo, produzem efeitos cada vez mais sensíveis na vida daquelas pessoas que vivem em espaços segregados e de grande insegurança, comuns em favelas do Rio de Janeiro, onde seus moradores agora também estão sujeitos a ação violenta de drones controlados por grupos criminosos que sobrevoam sobre suas cabeças.


* O texto acima consiste em um trecho adaptado do livro em desenvolvimento, “Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha”, escrito por Márcio José Mendonça, em etapa de conclusão. O artigo foi fundamentado na reportagem do Fantástico: “Investigação mostra como militar da Marinha ajudou facção a armar drones no Rio de Janeiro”, exibida em 22 de setembro e disponível no portal do G1 através do acesso ao seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=yv8ZFOHYDFI&list=WL&index=438

 

Fonte: SHAW, Ian G.R. The urbanization of drone warfare: policing surplus populations in the dronepolis. Geographia Helvetica, v. 71, p.19-28, 2016.





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