sexta-feira, 6 de junho de 2025

O terror aéreo e o campo de batalha

Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

O avião tem permitido práticas culturais inteiramente novas e violentas, que transformaram a percepção e vivência que possuímos do mundo, aplicando políticas de guerra e de segurança de cima para baixo (ver ADEY, WHITEHEAD, WILLIAMS, 2013). Adey (2010), importante pesquisador do tema da aviação, destaca: com efeitos espaciais expressivos, “o espaço tem sido produzido, transfigurado e formado através da tecnologia do avião” (p. 6, tradução livre), criando novos significados e percepções da vida, sendo as pessoas ameaçadas por novas produções do espaço aéreo.

Essa capacidade de produzir terror aéreo não é algo tão recente. Sloterdijk (2009) lembra que na I Guerra Mundial, embora o avião fosse pouco utilizado, o espaço aéreo foi manipulado como arma de guerra. Ele ainda destaca que 22 de abril de 1915 marca o registro da primeira guerra de gás venenoso, quando nuvens de fumaça amarela subiram das trincheiras alemãs em direção às divisões francesas, causando pânico na linha de defesa francesa. Não por acaso, Sloterdijk considera que “o século XX será lembrado como a era cujo pensamento essencial consistiu em atingir não mais o corpo, mas o ambiente do inimigo” (2009, p. 14, tradução livre). Ao afirmar isso, ele lembra Shakespeare, para enfatizar que se considera a vida de outra pessoa tomando o meio pelo qual ela vive. Valendo-se disso, Sloterdijk conclui que, ao destituir a população de ar, impedindo-a de respirar, e arrebatar-lhe o ambiente indispensável à manutenção da vida, o agressor almeja privar o inimigo de um meio de sobrevivência. 

Na guerra moderna, se o “corpo do inimigo não pode mais ser liquidado com impactos diretos, em seguida, o atacante é forçado a tornar impossível a existência contínua do inimigo, por sua imersão direta em um ambiente inviável por um período suficientemente longo” (SLOTERDIJK, 2009, p. 15, tradução livre). Exemplo disso foi o fato de que, ainda na I Guerra Mundial, os soldados entrincheirados tornaram-se inacessíveis a armas convencionais: daí Sloterdijk salientar a descoberta do ambiente como um meio pelo qual se pode fazer a guerra, usando gás venenoso a fim de atingir as tropas, afetando as condições físicas do ambiente e, por conseguinte, as funções vitais do inimigo.

Ademais, Sloterdijk (2009) verifica que, na operação de ambientes artificiais para atacar as fragilidades biológicas dos adversários, a manipulação do ambiente age no sentido de criar uma modalidade de terrorismo atmosférico, que assume a forma de assalto às condições de “vida ambientais”. Por isso ele chama de atmoterrorismo a criação de ambientes artificiais para atingir os corpos e, mais precisamente, o sistema respiratório dos inimigos. Aviões militares também estariam, portanto, inseridos nessa lógica, ao provocarem pânico e destruição no ambiente de sobrevivência do inimigo. A cidade, principal alvo dessa modalidade de ataque, foi, segundo Graham (2004a; 2004b; 2011), objeto de ataques que, destinados a eliminar formas de vida humana, impuseram à cidade estratégias de guerra implicadas em desmodernização forçada, destruindo a infraestrutura urbana que possibilita a vida na cidade.

Durante a II Guerra Mundial os bombardeiros estratégicos haviam adquirido uma capacidade de destruição nunca vista antes, sendo empregados com capacidade de “alcançar ‘paralisia estratégica’, através da destruição dos sistemas de transporte, infraestruturas de água e de eletricidade e redes de comunicações” (GRAHAM, 2011, p. 266, tradução livre). Como destacou Graham, o bombardeio foi visto e empregado, com crescente frequência, como arma de guerra para reverter as cadeias de estágio de evolução econômica, levando as cidades atingidas de volta para a idade do carvão.

Todo esse potencial para a destruição e extermínio em massa foi demonstrado nos bombardeios de Dresden, Hamburgo e Tóquio, quando cidades inteiras sumiram do mapa. “A bomba atômica completou esta nova vulnerabilidade da cidade: aglomerações urbanas e populações inteiras foram destruídas instantaneamente em Hiroshima e Nagasaki”, lembra Martin Shaw (2004, p. 142, tradução livre). Com o aparecimento dos bombardeiros, a aviação militar havia se tornado uma arma capaz de levar ao extermínio instantâneo milhares de pessoas sem nenhum tipo de envolvimento direto com a guerra. Envolta por um olhar holográfico, a guerra no século XX foi travada em espaço tridimensional, e os ataques aéreos, desde a Blitz sobre Londres até os ataques terroristas de 11 de setembro – destacando-se o uso do avião-robô não tripulado em Gaza, no Afeganistão e no Iraque –, muito além de possibilidades de maior mobilidade, vieram a provocar terror, destruição e morte, através do emprego de aeronaves em operações militares (ADEY, 2010).

Nos ataques aéreos de 2003 sobre Bagdá, as operações do tipo “Choque e Pavor” tiveram objetivo estratégico e psicológico, já que buscavam:

[...] atingir diretamente os nós-chaves nas redes que sustentavam o complexo político-militar de Saddam Hussein, bem como a mais ampla moral do Iraque. [...]. Para isso, necessitou-se do uso de armas aéreas, que poderiam percorrer longas distâncias, em oposição às forças terrestres de territorialidade mais limitada, que exigem proximidade com os seus alvos antes de golpear. Se disparados por navios ou lançados de aviões, Choque e Pavor foi, portanto, concebido como um ataque vertical em que as chamadas “munições de precisão” choveram sobre locais-chaves no Iraque. Por outro lado, este assalto foi concebido como uma guerra espetacular. [...]. Para ter um efeito sobre o moral, Choque e Pavor teve de ser consumido pelos circuitos visuais dos canais de notícias (COWARD, 2013, p. 96-97, tradução livre).

Por meio desse método, os bombardeios tiveram, portanto, objetivo não apenas de destruir alvos estratégicos, mas também de provocar medo e paralisia, levando o inimigo à capitulação. Fadiga e paranoia foram efeitos provocados propositalmente no adversário para causar-lhe impotência, como observa Adey (2010). Essa estratégia não é uma novidade. Ainda no Iraque, muito antes da invasão norte-americana, lembra Weizman (2012), os ataques aéreos foram empregados em bombardeios capazes de possibilitar um desfecho rápido da guerra, e numa velocidade atroz foi difundido o terror no espaço, graças a um sistema de comunicação altamente eficiente e totalmente integrado à tática de “colonização ou ocupação” aérea do território.

No início da década de 1920, Winston Churchill, na época ministro da Guerra e do Ar do governo britânico, ficou impressionado com o que percebeu ser uma forma de controle colonial por meio do poder aéreo. De acordo com Weizman (2012), Churchill vendo o potencial da aviação como recurso de guerra, logo persuadiu o governo de seu país a investir na Força Aérea Real para assumir o controle da Mesopotâmia, atual Iraque, ao invés de utilizar grandes contingentes do Exército. Esse método foi empregado novamente pelos britânicos contra grupos revolucionários na Somália, no Egito, no Sudão, na Índia, na Palestina (durante a revolta de 1936–1939), no Afeganistão, em Jalalabad e em Cabul, antecipando a lógica de assassinatos praticados atualmente por drones.


Márcio José Mendonça é autor, entre outros livros e trabalhos, do recém lançado “Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha” (Editora Dialética) – Link: https://loja.editoradialetica.com/tecnologias/guerra-dos-drones-analise-e-perspectiva-do-campo-de-batalha-1244257741?srsltid=AfmBOooIOK4n-M-V3y2hSC4kmYHQ-Gc4WkQ-td7au6q18oM8QkBly3lc

 

Referências:

ADEY, Peter. Aerial life: spaces, mobilities, affects. Oxford: Wiley-Blackwell, 2010.

ADEY, Peter; WHITEHEAD, Mark; WILLIAMS, Alison J. Introduction: visual culture and verticality. In: ____ (Orgs.). From above: war, violence, and verticality. Nova York: Oxford University Press, 2013, p. 1-16.

COWARD, Martin. Networks, nodes and de-territorialised battlespace. In: ADEY, Peter; WHITEHEAD, Mark; WILLIAMS, Alison J. (Orgs.). From above: war, violence, and verticality. Nova York: Oxford University Press, 2013, 95-117. 

GRAHAM, Stephen. Cities as strategic sites: places annihilation and urban geopolitics. In: ____(Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004a. p. 31-53.

______. Cities under siege: the new military urbanism. Londres: Verso, 2011.

______. Constructing urbicide by bulldozer in the occupied territories. In: ____. Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004b. p. 192-213.

SHAW, Martin. New wars of the city: relationship of “urbicide” and “genocide”. In: GRAHAM, Stephen (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004, p. 141-153.

SLOTERDIJK, Peter. Terror from the air. New York: Semiotext, 2009.

WEIZMAN, Eyal. Hollow land: Israel’s architecture of occupation. Nova York: Verso, 2012.

 

 


sábado, 10 de maio de 2025

Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha

LAÇAMENTO E DIVULGAÇÃO!

Márcio José Mendonça 

    A guerra dos drones já começou, e o aumento do emprego desses equipamentos no campo de batalha está modificando sensivelmente a maneira como combatentes lutam no terreno e como os civis sobrevivem a sua ação, em ambiente de combate moderno, nos conflitos atuais. Dos campos de batalha da guerra na Ucrânia ao conflito israelo-palestino, os drones estão desempenhando papel de destaque nas operações militares em diferentes cenários.

    Com a introdução dos drones em grande escala nos campos de batalha e com a inovação em matéria de emprego de meios militares que os equipamentos dronificados proporcionam, sua capacidade como arma de guerra em termos estratégicos, táticos e operacionais dispõe os drones como recurso tecnológico indispensável para qualquer força militar. Os drones estão mudando a realidade da guerra e impulsionando profundas transformações no campo de batalha do século XXI.


Link: https://loja.editoradialetica.com/loja/produto.php?loja=791959&IdProd=1244257741&iniSession=1&hash=255726234 

sábado, 26 de abril de 2025

Gaza: cessar-fogo de mentira e futuro incerto

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

    Em resumo a proposta de cessar-fogo entre Israel e o Hamas consistia numa iniciativa em três etapas: primeiro um cessar-fogo temporário com a interrupção das hostilidades e a libertação de todos os israelenses mantidos em Gaza em troca de prisioneiros palestinos mantidos por Israel – essas iniciativas deveriam ser seguidas de entrada de ajuda humanitária em Gaza, que foram sistematicamente interrompidas por Israel – ; após essa etapa um cessar-fogo permanente acompanhado da retirada completa das tropas de Israel da Faixa de Gaza – que mais uma vez, também não foram cumpridas por Israel, que insiste em criar uma zona de amortecimento e de manter suas tropas ao longo de toda a franja interna de Gaza e ao longo da Rota 749, dividindo Gaza em duas – ; e só então, finalmente, a terceira etapa deveria entrar em vigor, com o processo de reconstrução da Faixa de Gaza, outro aspecto, que Israel a todo custo também deseja impedir.

    No entanto, além dos termos do acordo, importa avaliar, ainda que em perspectiva, a conjuntura geopolítica e as consequências do conflito a médio e longo prazo para palestinos e israelenses. Nesse sentido, sem a pretensão de esgotar o assunto ou de prever a evolução dos próximos acontecimentos, trata-se de avaliar, em primeiro lugar, os resultados concretos do campo de batalha, em vez de se basear pura e simplesmente em especulações e acordos que muitas vezes não são cumpridos. Para tanto, é importante destacar alguns pontos que podem ser levados em consideração, sem apresentar posições definitivas, que se resumem, a seguir, nos seguintes pontos em análise:

· Israel mesmo derrotado no campo de batalha, conseguiu uma importante vitória no cenário geopolítico regional, eliminado importantes lideranças das facções palestinas e do Hezbollah. Nesse ponto, alcançou êxito ao afastar a presença e diminuir a influência do Irã na região, uma vez que se beneficiou diretamente da queda de Bashar al-Assad, na Síria. Com a retirada do ex-presidente sírio do poder, não só a conexão Hezbollah-Irã fica prejudicada, mas a projeção de poder regional iraniana que estabelecia importante frente do “Eixo da Resistência” ao colonialismo e presença ocidental no Oriente Médio.

· A resistência palestina abre um novo capítulo da história de luta anticolonial e anti-imperialista. Suas ações no campo de batalha e formas de organização e de combate em ambiente urbano, podem ainda, influenciar e inspirar outras nações e povos oprimidos que lutam por sua soberania e independência.

· Israel não conseguiu neutralizar ou destruir o Hamas e o apoio popular dos palestinos de Gaza ao grupo aparentemente continua intacto.

· Israel também não conseguiu expulsar a população palestina da Faixa de Gaza embora a situação demográfica de quase dois milhões de palestinos seja incerta em favor dos interesses israelenses. É digno de observação, que as forças de ocupação, podem manipular o jogo político e usar de outros meios para fragmentar o território de Gaza ou forçar uma expulsão lenta e gradual de palestinos da região.

· A narrativa e os meios de propaganda israelenses foram seriamente afetados num processo em que a opinião pública mundial foi fortemente balançada a favor de uma opinião pró-palestina. Em virtude de inúmeros casos de abusos de prisioneiros, crimes de guerra e acusação de genocídio, a opinião pública mundial agora enxerga Israel como uma força de ocupação.

· A dimensão da crise humanitária na Faixa de Gaza pode escalonar com a destruição ampla e mássica da infraestrutura urbana e impedimentos de entrada de ajuda humanitária em Gaza. Nesse ponto, os meios e a capacidade de reconstrução da Faixa de Gaza certamente determinarão o rumo de acontecimentos futuros, sendo arriscado qualquer previsão, em virtude do campo político tensionado e incerto no momento.

· Os palestinos demonstraram incrível capacidade de luta em ambiente de combate urbano. Contudo, mesmo contando com apoio de alguns governos e grupos paramilitares que financiam e apoiam militarmente a resistência armada, o Hamas e demais grupos palestinos, não contam com o apoio direto de nenhuma potência global e aparentemente salvo o apoio do Irã, do Hezbollah e dos houthis iemenitas, continuam em fragrante isolamento diante de forte aliança ocidental com os interesses de Israel.

· A sociedade israelense está fracionada por disputas e interesses internos entre diferentes facções que disputam o poder e o governo em Israel. A crise instalada com a adoção da Diretiva Hannibal pelos militares e pouca iniciativa do governo de Benjamin Netanyahu em alcançar uma solução rápida para o retorno dos reféns, pode num futuro próximo, dividir ainda mais a sociedade israelense e produzir grande instabilidade.

· Israel enfrenta uma profunda crise econômica por conta do aumento dos gastos militares que podem impactar a sociedade israelense nos próximos anos.

· O conflito também estimulou um intenso fluxo de emigrantes que deixaram Israel desde o início das tensões e hostilidades com os palestinos.

· Israel historicamente não cumpre os acordos internacionais e entidades e organismos internacionais como a ONU, pouco ou nada fazem em relação as violações e negativas de Israel nesse âmbito. Por esse histórico, é duvidoso se Israel cumprirá qualquer tipo de acordo de paz.

· Os dois principais grupos políticos palestinos, o Hamas e o Fatah, ainda continuam divididos, embora a sociedade palestina tenha demonstrado grande capacidade de unidade, resiliência e resistência.

    É difícil ainda afirmar diante de inúmeras incertezas e variáveis sensíveis no cenário geopolítico, quem venceu, logrou maiores ganhos ou ainda pode se beneficiar do resultado da batalha em Gaza. Se a pergunta se refere explicitamente aos combates em Gaza, o Hamas saiu vencedor, haja visto que a organização não foi eliminada por Israel e foi capaz de resistir por longo tempo, causando muitas baixas aos combatentes e destruição de equipamentos israelenses. Se a pergunta invoca o cenário geopolítico, mesmo Israel saindo profundamente abalado no cenário mundial, em termos de governo, Benjamin Netanyahu se mantém no poder com o apoio estadunidense, situação que no plano geopolítico, com anuência de entidades e organismos internacionais controlados pelo imperialismo, permitem que Israel futuramente pratique outras violações contra a comunidade palestina.

    Ainda assim, os palestinos conquistaram uma grande vitória. Pela primeira vez os palestinos e seus apoiadores, conseguiram “cancelar” Israel e impor uma derrota midiática ao lobby sionista usando das redes sociais para denunciar a brutalidade do genocídio israelense em Gaza. Nunca antes a propaganda israelense falhou em manipular a narrativa e proteger Israel, encobrindo seus crimes, enquanto “demonizava” palestinos e justificava suas ações perante aos veículos de comunicação globais.

    Como inúmeras vezes declarou, Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), os ataques de Israel em Gaza dão conta do “primeiro genocídio televisionado da história”. Em virtude da amplitude da destruição e alto número de mortes de civis palestinos no conflito, crimes de guerra de Israel que incluem vídeos de crianças e mulheres atingidos por bombas e ataques indiscriminados em hospitais e escolas, foram repercutidos na internet por meio de telefones móveis e agora são de conhecimento público.

    O espetáculo da libertação dos reféns israelenses pelo Hamas após a assinatura do cessar-fogo, são outro episódio tratado como um desastre de propaganda por Israel. Enquanto que prisioneiros palestinos foram libertos por Israel como parte do acordo de cessar-fogo em situação de saúde precária e inúmeras denúncias envolvendo casos de torturas e maus tratos de palestinos nas prisões israelenses vieram ao conhecimento público. Os reféns israelenses além de serem vistos em bom estado de saúde física e mental nas cerimônias de entrega de reféns, relataram que receberam tratamento digno no cárcere, situação muito diferente que vivenciam os presos palestinos em Israel.

    Finalmente, em vez de apresentar algumas conclusões definitivas que certamente seriam apresadas, procuramos listar alguns pontos que podem ajudar a avaliar a situação e a conjuntura na região. Ainda assim, é importante ressaltar que não se trata de definir os rumos dos acontecimentos, mas de mostrar, apenas, que a guerra em Gaza ainda não terminou e que novos capítulos serão escritos, seja no campo de batalha ou na mesa de negociação nos próximos tempos. Após quebrar o cessar-fogo em Gaza e realizar um ataque que matou mais de quatrocentos palestinos, no último dia 18 de março, e outras sucessivas ações de violação e ataques visando civis em campos de refugiados, Israel agora também concentra suas ações na Cisjordânia. A resistência palestina também continua.



quarta-feira, 2 de abril de 2025

Guerra e urbanização no leste da Ucrânia

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A história da Ucrânia está repleta de manifestações de urbicídio em vários episódios em que cidades foram alvo de intervenção militar. Antes da invasão russa de fevereiro de 2022, a destruição de cidades no território ucraniano, processo com sinais de urbicídio* parcial, ocorreu no conflito de 2014-2016 em áreas urbanas de Donbas. De acordo com Slyvka e Zakutynnska (2016), na ocasião as regiões de Donetsk e Lugansk sofreram expressivas perdas de assentamentos urbanos, com significativos impactos sociais, destruição total ou parcial de moradias e infraestrutura, resultando em diminuição da densidade populacional em 20,2%.

Entre abril de 2014 e junho de 2016, as motivações do conflito entre ucranianos e russos estiveram vinculadas às demandas dos manifestantes no Leste que incluíam um referendo sobre a federalização da Ucrânia e o reconhecimento da língua russa como segundo idioma do país. Esse cenário de profunda crise evolui, entre outras razões, pelo aumento de hostilidades entre russos e ucranianos após a deposição do presidente Viktor Yanukovych, tido como um político pró-russo e aliado do presidente Vladimir Putin. O desenvolvimento das tensões entre russos e ucranianos, que foram acompanhadas de episódios de violência e perseguição contra russos em várias cidades ucranianas, estimulou as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk, de maioria russa, a reivindicarem sua separação da Ucrânia por meio da realização de um referendo popular, ainda em maio de 2014, quando os confrontos se intensificaram.**

Os conflitos armados ocorreram em áreas densamente povoadas da região de Donbas, com os grupos separatistas russos concentrando suas atividades na captura de estruturas administrativas e unidades militares. Grupos armados ucranianos, formados pelo exército, polícia militar (Guarda Nacional), Serviço de Segurança Nacional (NSS) e batalhões “voluntários”, como o Batalhão Azov,*** se opuseram aos separatistas russos. A maioria dos conflitos entre forças ucranianas e russas se concentraram em áreas urbanas e desde o início tiveram como objetivo a destruição de edifícios e infraestrutura urbana (SLYVKA, ZAKUTYNNSKA, 2016). 

Com o aumento do uso de armamento pesado, incluindo artilharia, mísseis, tanques e aviação militar, houve a destruição deliberada de edifícios e serviços urbanos críticos, como água e eletricidade. Com a invasão russa de 2022,**** a formação de uma linha de confronto entre forças ucranianas e forças pró-Rússia, agora com a presença do Exército russo em suas frentes de combate, evolui para uma extensa linha de contato, uma típica “zona tampão”, cujas manifestações de urbicídio mais severas, com a destruição de cidades por completo, se concentram nas áreas que percorrem a linha de combate entre ambas as forças. À medida que os combates se desenvolvem e as cidades e os assentamentos urbanos são implicados na dinâmica espacial do conflito, o campo de batalha tem se deslocado para os centros urbanos.

Segundo Kostyantyn Mezentsev e Oleksii Mezentsev (2022), somente nos primeiros 100 dias do início da invasão russa, em 2022, 147 cidades, aproximadamente um terço de todas as cidades da Ucrânia, foram significativamente atingidas por bombardeios ou combates urbanos. Nos ataques e combates urbanos, além de alvos militares e estratégicos, edifícios de valor simbólico, centros culturais, monumentos e uma ampla infraestrutura urbana sem aparente significância militar também foram destruídos. Embora K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) procurem mostrar o impacto dos ataques russos na estrutura urbana, deve-se considerar que as forças ucranianas também contribuíram com a destruição direta de edifícios e infraestrutura nos combates urbanos. Como força atacante os russos cercaram e sitiaram muitas cidades e assentamentos urbanos; contudo, o papel das forças ucranianas no cenário de guerra urbana não deve ser negligenciado, tendo em vista, por exemplo, os ataques com uso de drones e mísseis no interior da Rússia visando a centros urbanos e estruturas civis.

Pode-se afirmar que a destruição urbana é maior na zona de contato entre ambos os exércitos, onde a estrutura urbana tem sido assimilada ao contexto do combate, e o próprio espaço urbano consiste no campo de batalha. O emprego ucraniano dos assentamentos urbanos em apoio operacional e como defesas urbanas fortificadas e a crescente militarização dos espaços urbanos cotidianos e da infraestrutura das cidades colocam as cidades e a vida urbana na retórica da guerra com as disputas entre russos e ucranianos produzindo uma expressiva fragmentação do espaço urbano, envolvida em disputas territoriais e dinâmicas de des-re-territorialização.***** Nesse sentido, ambas as forças beligerantes visam a destruição da heterogeneidade, que é a essência da urbanidade, com o propósito de (re)territorializar a sua própria dinâmica urbana, marcada agora por um antagonismo pró-Rússia, fundado em uma visão da vida urbana e das cidades russas inscritas numa nostalgia soviética em confronto com o modo de vida ucraniano, ocidentalizado, que procura se apresentar moderno e em constante desenvolvimento, portanto, em aparente progresso.

É justamente nesse sentido que K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) indicam bem que a destruição de cidades e estruturas urbanas na Ucrânia tem sido planejada não só para atingir objetivos militares. O urbicídio ucraniano, para eles, além de toda a destruição, implica morte das cidades, motivada pela fuga e despovoamento dos assentamentos urbanos por causa da saída de moradores. Mariupol, uma cidade portuária e importante centro econômico, com mais de quatrocentos mil habitantes no início de 2022, é exemplo da dinâmica e dos processos de des-re-territorialização inscritos no contexto da guerra.****** Além de uma remoção forçada de moradores da cidade por causa dos combates, agora uma dinâmica de (re)territorialização pró-Rússia assume um caráter altamente excludente, em que se ignora qualquer identidade que não seja a russa e se promove um retorno nostálgico à vida urbana soviética, excluindo, de todas as maneiras, a presença de ucranianos que vivem naquela cidade.

Segundo o relatório da Human Rights Watch, “Our city was gone”: russia’s devastation of Mariupol, Ukraine (2024), o ataque russo em Mariupol******* (ver Figura 1) foi um dos mais destrutivos desde o início da guerra na Ucrânia, quando as forças russas e afiliadas fizeram uso de armas de vários tipos, incluindo bombardeios de tanques e artilharia pesada, lançadores de foguetes, mísseis e ataques aéreos em áreas povoadas. Esse tipo de armamento em áreas urbanas teve impactos devastadores sobre civis e infraestrutura urbana, deixando milhares de civis mortos e uma extensa destruição, que atingiu centenas de prédios residenciais, hospitais, instalações educacionais e infraestrutura de eletricidade e água. Além da destruição, o relatório também destaca que desde a ocupação da cidade as autoridades russas estão construindo novos edifícios residenciais como parte de seu plano declarado de reconstruir e urbanizar Mariupol até 2035. Em Mariupol as forças ocupantes estão eliminando características da identidade ucraniana por meio da destruição de referências culturais e simbólicas da paisagem da cidade, mudando o nome de ruas e incluindo a imposição de um currículo escolar russo. Além disso, estão exigindo que os residentes obtenham passaportes russos para fins de identificação e aquisição de benefícios. Famílias atingidas pela guerra e que perderam suas casas, para receber um imóvel reformado e oferecido pelo governo russo, precisam trocar seus antigos passaportes pelo passaporte russo.

Figura 1

Avanços das operações russas no primeiro ano da guerra com destaque

para o cerco e conquista de Mariupol 

Fonte: Alfredo Mergulhão, Luciano Ferreira e Paulo Assad, “Guerra na Ucrânia: entenda o primeiro ano do conflito em quatro mapas”, para O Globo (2013).

Em Mariupol a reconstrução da cidade é conduzida diretamente pelo Ministério de Defesa da Rússia. Sob administração russa, a cidade voltou a exibir símbolos soviéticos em monumentos. Desde que a cidade foi declarada “libertada” pelo presidente russo Vladimir Putin, em abril de 2022, a cidade passou a exibir os nomes de revolucionários do período soviético, além de símbolos antifascistas, que agora estampam os prédios do intenso processo de reconstrução da cidade. De acordo com Stefani Costa, 


Um dos locais que prova o desejo de uma rápida revitalização da região é Azovstal, considerado um dos maiores complexos siderúrgicos da Europa antes da sua destruição em março de 2022. A restauração do monumento em homenagem aos trabalhadores da fábrica que perderam as suas vidas durante a Grande Guerra Patriótica (como os russos chamam a Segunda Guerra Mundial) é um sinal de que os escombros, que cercam o belíssimo tributo à classe trabalhadora, já têm os seus dias contados (2024).

No monumento, um marinheiro, um trabalhador e um soldado, sob os símbolos da “foice e o martelo”, que formam a insígnia da bandeira soviética, dão as boas-vindas aos que se aproximam do que restou da siderúrgica depois que o Exército russo venceu as batalhas pelo complexo siderúrgico, culminando na rendição dos últimos soldados do Batalhão Azov, que se escondiam no interior de Azovstal (ver Figura 2). Outro exemplo icônico da (re)territorialização russa na cidade é o monumento no porto de Mariupol, que, agora repaginado, carrega as cores russas em vez do amarelo e azul da bandeira ucraniana (ver Figura 3).

Figura 2

Fachada do complexo metalúrgico e siderúrgico de Azovstal

Fonte: Stefani Costa, “Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos”, para Opera Mundi (2024). 



Figura 3

Monumento russo no Porto de Mariupol

Fonte: Stefani Costa, “Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos”, para Opera Mundi (2024). 

Para K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022), o que ocorreu em Mariupol e outras cidades ucranianas******** não foi apenas expulsão sistemática da população ucraniana e (re)territorialização russa, mas também substituição das antigas moradias e edifícios danificados por estruturas e moradias de baixa qualidade, com o intuito de produzir em tempo recorde uma urbanização fortemente amparada na identidade e cultura russa. Após o fim dos combates na cidade e estabilização do front, ainda em outubro de 2022, o Ministério de Construção e Habitação da Rússia divulgou um plano de repovoamento de Mariupol, que estabelece com bastante ênfase um programa de recuperação econômica da cidade. Segundo a matéria de Stefani Costa (2024), Moscou pretende, com isso, transformar Mariupol em um dos símbolos da recuperação das cidades retomadas durante a guerra; para tanto, busca torná-la um importante centro econômico e também uma referência da cultura russa na região.*********

O caso de Mariupol e os de outras cidades sob ocupação russa são certamente exemplos de sinais de urbicídio, que agora se materializam não pela destruição massiva de edifícios e infraestrutura urbana, mas pelo controle socioespacial e exclusão que caracterizam o urbicídio indireto de um modelo de reconstrução que visa instaurar uma homogeneidade territorial pró-Rússia. A urbanização do urbicídio não é um fenômeno exclusivo da Ucrânia. Na Palestina, com a construção de assentamentos israelenses em Território Palestino Ocupado (ver, por exemplo ABUJIDI, 2014), ou na Síria, com a reconstrução de cidades destruídas pela guerra (ver, por exemplo SHARP, 2016), os mecanismos de controle e segregação socioespacial instauram uma nova territorialidade. Na Ucrânia esse processo assume uma magnitude nunca antes vista. Assim que os combates cessam, soldados e tanques dão lugar aos operários e escavadeiras, e rapidamente o campo de batalha se transforma em um grande canteiro de obras. Este novo arranjo espacial visa a configuração de uma ordem socioespacial amparada em mecanismos de controle e exclusão da população ucraniana, em que a urbanização do urbicídio assume papel de destaque na configuração de um amplo guarda-chuva de proteção no entorno estratégico de influência russa.**********

* Por urbicídio entende-se as práticas e meios militares destinados, com fins políticos, que visam, no fundo, além de vencer o inimigo, a destruir o seu habitat, negando-lhe a cidade e o espaço urbano como substrato de reprodução ou esconderijo. Dessa maneira, o que estamos vendo na Ucrânia é um processo de destruição do espaço urbano com o objetivo de negá-lo ao inimigo como espaço de resistência. Trata-se, em termos simples, de uma forma de violência contra a cidade e seus habitantes, em outras palavras, de uma ação deliberada de destruição do ambiente construído e da urbanidade que propicia a vida na cidade, com a intenção de atingir pelo uso da força uma finalidade política. Para mais detalhes, conferir “Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro” (MENDONÇA, 2022). Link de acesso: https://loja.editoradialetica.com/humanidades/espaco-de-batalha-e-urbicidio-na-cidade-do-rio-de-janeiro?srsltid=AfmBOore8yHTMxe1suy-TEETL3ZGYsmg_oZewQpSx5JF7z6qGd5vw3V2

** Sobre as motivações e cenário geopolítico que influíam nas hostilidades entre ucranianos e russos, consultar Tomasz Konicz (2022). Sobre as manifestações e agitação civil vividas na Ucrânia entre 2013 e 2014 que incorreram na queda de Viktor Yanukovych, episódio que se tornou conhecido como Euromaidan, ver os documentários de Paul Moreira, “Ukraine: the masks of revolution” (2016), que mostra a interferência estrangeira nos protestos e a forma como questões internas da Ucrânia foram manipuladas, numa espécie de golpe brando, para derrubar Yanukovych; de outro ponto de vista, mais favorável às reivindicações ucranianas, mas ainda assim nos moldes de uma revolução colorida, consultar o documentário de Evgeny Afineesvky, “Winter on fire: Ukraine’s fight for freedom” (2015). Para uma visão de como movimentos de ativismo e manifestações democráticas de ordem nacional podem ser instrumentalizados por interesses externos, sugiro assistir, com um olhar crítico, o documentário de Richard Shaw, “Gene Sharp – how to start a revolution” (2011).

*** O Batalhão Azov foi fundado em 2014 como um batalhão de defesa territorial durante a guerra na região do Donbas. O regimento militar era formado por voluntários nacionalistas, criado para preencher a lacuna das defesas militares ucranianas. Em 2022 o regimento ganhou destaque durante a invasão russa da Ucrânia por lutar contra as forças russas na cidade de Mariupol. Após meses de combates intensos pela defesa da cidade, antes de se render às forças russas, o Batalhão Azov impôs uma feroz resistência aos invasores, ao sustentar uma posição de defesa no interior do complexo metalúrgico e siderúrgico de Azovstal. De acordo com Moscou, o Batalhão Azov era formado por combatentes de orientação nazifascista, e seus homens foram responsáveis por cometer uma série de crimes contra a população de origem russa, sendo seus líderes alvo prioritário da invasão.

**** Embora a mídia ocidental frequentemente retrate a invasão russa como uma agressão com pretensões expansionistas de Moscou, é importante ressaltar que o conjunto das forças ucranianas já estavam em conflito contra grupos de defesa russos, no leste do país, apoiados por Moscou, e que desde 2014 conflitos eram comuns, com os ucranianos e não somente os russos, atacando e bombardeando cidades na região do Donbas e suas adjacências.  

***** Aqui enfatizamos a dinâmica espacial de des-re-territorialização na perspectiva de destruição e reconstrução do espaço urbano visando a propósitos políticos com usos militares. Ou seja, esse processo é enfocado na perspectiva da dinâmica espacial de deslocamento (forçado ou não) e organização do espaço urbano implícito ao urbicídio. Essa leitura está em sintonia com processos de des-re-territorialização, que implicam dinâmicas próprias de construção e desconstrução de territórios na perspectiva dos “aglomerados humanos de exclusão” descritos por Haesbaert — territórios marcados por relações de precariedade física e simbólica como os campos de refugiados. De toda forma, para um enfoque mais amplo recomenda-se a leitura de seus trabalhos de 2007, 2009 e 2014.

****** Sobre a batalha entre russos e ucranianos por Mariupol, vale a pena conferir as produções mencionadas a seguir: “A batalha de Mariupol: quais os reais objetivos de Putin?”; “Guerra na Ucrânia – boletim #12 – o cerco de Mariupol”; “Como a Rússia venceu a sangrenta batalha por Mariupol”; “O fim da batalha de Mariupol”; e “Siege of Mariupol – animated analysis”, que, por fim, oferece uma interessante análise espacial das operações militares e combates na cidade. 

******* Consultar também a publicação digital multimídia “Beneath the rubble: documenting devastation and loss in Mariupol” (2024).

******** Embora Mariupol e outras cidades ocupadas pelas forças russas sejam formadas por população de maioria russa, preferimos o emprego da terminologia de cidades ucranianas com o propósito de mostrar que a cidade era antes da invasão russa administrada pela jurisdição do Estado ucraniano. Mesmo se considerarmos como concluída e legal a anexação dos territórios dos Oblasts de Donetsk, Lugansk, Zaporizhzhia e Kherson pela Rússia, questão que não deixa de ser controversa, mesmo após a realização dos referendos populares de 2022, é preferível, a título de redação do texto, ainda se referir às cidades ocupadas como territórios ucranianos.

********* Sobre a reconstrução da cidade de Mariupol, ver também: “Exército russo reconstrói edifícios em Mariupol e Volnovakha, na Ucrânia”; “Rússia quer entregar em setembro primeiras reconstruções em Mariupol”; “Ministério da Defesa da Rússia inspeciona trabalhos de reconstrução em Mariupol”; e “Brasileiro vê como Rússia está reconstruindo rapidamente cidade tomada”. 

********** K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) chamam a área de influência do entorno estratégico da Rússia de “Mundo Russo”.

Este artigo deve ser lido em complemento ao texto “Guerra urbana na Ucrânia”, publicado por Márcio J. Mendonça, no site A Terra é Redonda, em 17 de fevereiro de 2024. Link de acesso: https://aterraeredonda.com.br/guerra-urbana-na-ucrania/


Referências


ABUJIDI, N. Urbicide in Palestine: spaces of oppression and resilience. Nova York: Routledge, 2014.

COSTA, S. Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos. Opera Mundi. Brasil, 7 abr. 2024. Disponível em: <https://operamundi.uol.com.br/guerra-na-ucrania/agora-sob-ocupacao-russa-como-esta-a-cidade-de-mariupol/>. Acesso em: 9 jan. 2025.

Human Rights Watch. Beneath the rubble: documenting devastation and loss in Mariupol. Human Rights Watch, 2024. Disponível em: <https://www.hrw.org/feature/russia-ukraine-war-mariupol >. Acesso em: 9 jan. 2025.

______. “Our city was gone”: Russia’s devastation of Mariupol, Ukraine. Human Rights Watch, 2024. Disponível em: <https://www.hrw.org/sites/default/files/media_2024/02/ukraine0224web_0.pdf>. Acesso em: 9 jan. 2025.

HAESBAERT, R. Desterritorialização: entre as redes e os aglomerados de exclusão. In: CORRÊA, Roberto Lobato; GOMES, Paulo C. da Costa; CASTRO, Iná Elias de (Orgs.). Geografia: conceitos e temas. 12. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009, p. 165-205.

______. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

______. Viver no limite: território e multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

KONICZ, T. Ucrânia o “Grande Jogo”: a luta pelo poder entre o leste e o ocidente na crise global. Rio de Janeiro: Consequência Editora, 2022.

MENDONÇA, M. J. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Dialética, 2022.

MERGULHÃO, A; FERREIRA, L; ASSAD, P. Guerra na Ucrânia: entenda o primeiro ano do conflito em quatro mapas. O Globo. Brasil, 24 fev. 2023. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/02/guerra-na-ucrania-entenda-o-primeiro-ano-do-conflito-em-quatro-mapas.ghtml>. Acesso em: 11 jan. 2025.

MEZENTSEV, K.; MEZENTSEV, O. War and the city: Lessons from urbicide in Ukraine. . Czasopismo Geograficzne, v. 93, n. 3, p. 495-521, 2022.

SHARP, D. Urbicide and the arrangement of violence in Syria. In: SHARP, Deen; PANETTA, Claire (Orgs.). Beyond the square: urbanism and the Arab Uprisings. New York: Urban Research, 2016, p. 118-140.

SLYVKA, R. ZAKUTYNSKA, I. Spatial features of military urbicide in Ukraine. Acta Geographica Silesiana, v. 23, p. 97-109, 2016.

terça-feira, 11 de março de 2025

Cartografia do Genocídio

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Segundo Eyal Weizman, autor de “Hollow Land”, livro em que descreve as formas e técnicas de controle usadas por Israel na expansão das colônias sionistas e ocupação dos territórios palestinos, a guerra entre palestinos e israelenses não pode ser entendido apenas como um conflito bélico, mas em termos de uma ampla geometria espacial de controle que se baseia em projetos de construção e urbanização. Nesta obra Weizman desvenda os mecanismos de controle e como eles transformaram Gaza e a Cisjordânia em uma zona de guerra. Seu trabalho é uma leitura essencial para entender como a arquitetura e a infraestrutura são usadas como armas letais na formação de Israel.

Na nova edição do seu livro, Weizman explica também como os eventos após a invasão de Gaza em outubro de 2023 testemunham as políticas contínuas de opressão.

Por último, Weizman destaca como na cúpula da semana passada, em 4 de março, um novo plano para a reconstrução de Gaza foi apresentado por líderes árabes como uma alternativa ao plano de Trump de expulsar os palestinos de Gaza. Sua análise indica que essa iniciativa — que ganhou apoio do Conselho Europeu — inclui um plano diretor arquitetônico que leva adiante elementos-chave da destruição projetada por Israel de Gaza (conforme abordado no relatório "Cartografia do Genocídio", disponível em: https://bit.ly/cartography-of-genocide-report), com sua proposta de uma "zona tampão", corredores de segurança e rotas de ataque, que estão disponíveis em vídeo para acesso em: https://x.com/ForensicArchi/status/1899172410198303019?t=qTmgl5WCU0BklmT0cYpbow&s=08 

Hollow Land, Eyal Weizman


 


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Urbicídio por escavadeira na Palestina

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

O conflito israelo-palestino é certamente revelador de uma política de guerra em que se visa, como alvo, a urbanidade, ou seja, a própria cidade ou o espaço urbano, considerada a estrutura urbana como um todo. Ademais, a guerra entre palestinos e israelenses ocorre em termos de uma política de violência típica do urbicídio, em que ambos os lados estão atacando os espaços da vida urbana cotidiana com armas para interromper ou destruir a urbanidade sobre a qual se apoia a vida do inimigo. Israel, contudo, possui considerável superioridade bélica, sendo capaz de provocar o que Stephen Graham (2004a) chamou de “desmodernização forçada” da sociedade urbana palestina, isto é, uma forma de regressão econômica e social baseada na destruição da estrutura urbana.

Diante do novo cenário de combate em ambiente urbano, após pesadas baixas na década de 1980 no conflito urbano no Líbano, quando suas tropas foram alvo de atiradores e emboscadas, Israel reorientou a sua política de guerra colocando na mira a infraestrutura social da qual depende a sociedade palestina e a qual os combatentes utilizam como abrigo. Por conta da experiência desastrosa no Líbano, Ariel Sharon adotou uma estratégia direta sustentada por uma política de demolição de bairros inteiros pela FDI na primavera de 2002 com o objetivo de compelir os palestinos a um quadro de miséria e pobreza, destruindo milhares de casas. Em sentido estratégico, compreende-se que essa destruição é parte de uma política tridimensional, que consiste em configurar o território para abrir espaço para operações das tropas israelenses e permitir a expansão territorial de Israel, deslocando palestinos forçadamente, enquanto modela o território para controlá-lo de maneira mais eficaz (ver Graham 2004a; Weizman 2002, 2004, 2012; Abujidi 2014). Em Gaza, este método foi intensamente empregado por Benjamin Netanyahu, com uso de bombardeios e incursões de veículos blindados e escavadeiras para nivelar o terreno e impedir o uso da estrutura urbana não só como meio de experiência de vida coletiva, mas também como abrigo da resistência palestina.

Este método consiste numa tática de combate urbano baseado fundamental no uso de escavadeiras blindadas das FDI, conhecidas como Caterpillar D9, concebidas para destruir áreas palestinas construídas, removendo estradas e calçamentos de ruas, redes de energia elétrica e água, além de habitações, entre outros alvos visados. Como enalteceu um condutor da escavadeira ao derrubar uma casa palestina, sua ação estaria enterrando 40 ou 50 pessoas por gerações (Graham, 2004b). Declaração ainda mais surpreende foi feita pelo soldado e rabino Avraham Zerbib, que serviu no exército de Israel durante a invasão de Gaza. Em uma entrevista ao Canal 14 de uma emissora de TV israelense, Zerbib se vangloria de crimes de guerra que cometeu em Gaza e enquanto é indagado pelo entrevistador de seus feitos, recebe aplausos da plateia presente no programa. Sem embaraço o condutor da escavadeira afirma:

Em média, eu destruía 50 casas por semana. [...]. Estou falando de prédios inteiros. [...] Em Rafah, eles não têm nada para onde voltar. E em Jabalia, eles não têm nada para onde voltar. Não existe mais Jabalia, foi tudo destruído. Tudo, prédio atrás de prédio. Beit Hanoun e Beit Lahia, perdemos a oportunidade. Destruímos metade. O acordo [de cessar-fogo] veio quando estávamos quase lá. Por sinal, estávamos nos arredores, como você viu nos vídeos, Beit Hanoun e Beit Lahia. Eu disse ao oficial que tocaria uma melodia com a escavadeira D9. Você sabe como é a sensação de destruir um prédio de 7, 6, 5 andares? Eles têm milhares de mortos que os cachorros e gatos comeram porque ninguém recolheu [os corpos]. O que está acontecendo lá não pode ser descrito em palavras. [...] E eu espero que esse não seja o final. Hoje nós vimos como eles saíram e ainda temos muito trabalho a fazer. Mas... eles estão voltando para o nada, nada. Dezenas de milhares de famílias que não têm mais documentos, fotos de infância ou identidades. Eles não têm nada, nada, sem casa, nada. Eles não vão saber onde era a cada deles.*

Em vista disso, ao destruir casas palestinas, a ação de Israel não configuraria uma ação para atender um objetivo militar legítimo, mas, em espectro amplo, no tempo e no espaço, uma estratégia demográfica calculada para expulsar e impedir o retorno de palestinos ao território ao causar precariedade urbana e desestruturação do ambiente de forma a tornar inviável a manutenção da vida moderna no território pelo processo de desmodernização aplicado (ver Weizman 2002, 2004, 2012; Graham 2004b; Abujidi 2014).

De fato, destruir qualquer possibilidade de um futuro Estado Palestino, aniquilando a sua infraestrutura urbana e os seus símbolos culturais da paisagem, consiste em uma estratégia antiga da geopolítica de Israel para impedir a rápida urbanização palestina e seu crescimento demográfico dentro de Israel e nos Territórios Ocupados, o que poderia alterar o equilíbrio demográfico na região a favor dos palestinos (Graham, 2004b). Esse foi, inclusive, o “alerta vermelho” de Arnon Soffer, conceituado demógrafo israelense, em 2001. Segundo ele, o futuro do Estado de Israel estaria ameaçado a longo prazo pelo crescimento das cidades e aldeias palestinas. Para Soffer, o crescimento urbano proporcionado pelos palestinos configuraria uma importante mudança urbano-demográfica em desfavor dos israelenses. Graham cita os argumentos de Soffer, que faz menção à fabricação de uma ficção, de uma suposta “ameaça existencial”, talvez se referindo à ideia de um segundo Holocausto, se o crescimento populacional e processo de urbanização palestino continuasse:


O processo de urbanização em torno das fronteiras de Israel vai resultar em uma grande população árabe, que sofre com a pobreza e a fome, em torno do Estado judeu. Essas áreas tendem a se tornar um terreno fértil para a evolução de movimentos radicais Islâmicos... Na zona árabe o processo leva a uma urbanização de natureza selvagem, decorrente da ausência de uma política de planejamento e, em particular, a falta de fiscalização e aplicação da lei de construção. Todo mundo constrói como entende, e o resultado é centenas de vilarejos ilegais espalhados em todas as direções (Soffer, 2001 apud Graham, 2004b, p. 203, tradução livre). 

Apropriando-se dessa lógica, Efraim Eitam, general aposentado das FDI, concebeu os Territórios Ocupados como uma “bomba relógio demográfica e social” que a qualquer momento poderia explodir sobre Israel. Valendo-se disso, Eitam enfatizou que a construção espontânea de moradias palestinas seria um tumor cancerígeno destruindo o Estado de Israel, e que áreas urbanas e edifícios devem ser tratados, enfaticamente, como armas. Afirmações tais como as de Soffer e Eitam têm por intuito retratar áreas urbanas palestinas como territórios incognoscíveis, que abrigam “ninhos de terroristas” (Graham, 2004b).

Sendo ato deliberado para atingir objetivos políticos, ao retratar os palestinos como terroristas, Israel formula importante aspecto de legitimação de seus ataques com o propósito de alcançar o máximo de destruição e de atingir áreas civis palestinas, em que cabe o uso de linguagem de negação do “outro” e a identificação da urbanidade/espacialidade palestina como território inimigo a partir de intensa retórica de “desumanização” e “demonização”. Além das sucessivas intervenções militares e expansão dos assentamentos israelenses na Palestina, são exemplos de intensa propaganda para legitimar tanto o ataque quanto a destruição do lugar/espaço do inimigo, a campanha dos Estados Unidos de “Guerra ao Terror” que incorreram na invasão do Afeganistão e do Iraque ou mesmo as ações violentas de intervenção militar em favelas e espaços segregados do Rio de Janeiro legitimadas pelo discurso de “Guerra às Drogas”. Em todos os casos, independentemente de serem combatentes ou civis, as vítimas são retratadas como terroristas ou bandidos e o seu espaço social qualificado como ambiente perigoso ou hostil (ver com mais detalhes Abujidi, 2014; e Mendonça, 2022).

Figura

Escavadeira israelense usada como arma de guerra trabalha na destruição de edificações na Faixa de Gaza.

Fonte: desconhecida.


Referências:

ABUJIDI, N. Urbicide in Palestine: spaces of oppression and resilience. Nova York: Routledge, 2014.

GRAHAM, S. Cities as strategic sites: places annihilation and urban geopolitics In: GRAHAM, S. (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004a. p. 31-53.

GRAHAM, S. Constructing urbicide by bulldozer in the occupied territories. In: ____. Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004b. p. 192-213.

MENDONÇA, M. J. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Dialética, 2022.

WEIZMAN, E. Hollow land: Israel’s architecture of occupation. Nova York: Verso, 2012.

WEIZMAN, E. Strategic points, flexible lines, tense surfaces, and political volumes: Ariel Sharon and the geometry of occupation. In: GRAHAM, S. (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd, 2004. p. 172-191.

WEIZMAN, E. The politics of verticality. Open Democracy. Londres, Inglaterra, texto de 11 partes disponibilizado entre 23 de abril e 1º de maio de 2002. Disponível em: <http://www.opendemocracy.net/>. Acesso em: 26 de mar. 2014.

 

*Entrevista de Avraham Zerbib com legenda em português publicada na página do Instagram da Federação Árabe-Palestina no Brasil (FEPAL), 22 de janeiro de 2025. Disponível em: <https://www.instagram.com/reel/DFJPf0AOqDI/?igsh=cGtqcWkyYW5scHBj>.



domingo, 19 de janeiro de 2025

Cessar-fogo em Gaza: Quem venceu? 5 análises para entender o cenário geopolítico

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça 


Geopolítica da Copa: Argentina

Prof. Dr. Márcio José Mendonça A Geopolítica , enquanto campo de análise das relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, ...