sábado, 26 de abril de 2025
Gaza: cessar-fogo de mentira e futuro incerto
quarta-feira, 2 de abril de 2025
Guerra e urbanização no leste da Ucrânia
Prof. Dr. Márcio José Mendonça
A história da Ucrânia está repleta de
manifestações de urbicídio em vários episódios em que cidades foram alvo de
intervenção militar. Antes da invasão russa de fevereiro de 2022, a destruição
de cidades no território ucraniano, processo com sinais de urbicídio* parcial, ocorreu
no conflito de 2014-2016 em áreas urbanas de Donbas. De acordo com Slyvka e
Zakutynnska (2016), na ocasião as regiões de Donetsk e Lugansk sofreram
expressivas perdas de assentamentos urbanos, com significativos impactos
sociais, destruição total ou parcial de moradias e infraestrutura, resultando
em diminuição da densidade populacional em 20,2%.
Entre abril de 2014 e junho de 2016, as
motivações do conflito entre ucranianos e russos estiveram vinculadas às
demandas dos manifestantes no Leste que incluíam um referendo sobre a
federalização da Ucrânia e o reconhecimento da língua russa como segundo idioma
do país. Esse cenário de profunda crise evolui, entre outras razões, pelo
aumento de hostilidades entre russos e ucranianos após a deposição do
presidente Viktor Yanukovych, tido como um político pró-russo e aliado do
presidente Vladimir Putin. O desenvolvimento das tensões entre russos e
ucranianos, que foram acompanhadas de episódios de violência e perseguição
contra russos em várias cidades ucranianas, estimulou as autoproclamadas repúblicas
de Donetsk e Lugansk, de maioria russa, a reivindicarem sua separação da Ucrânia
por meio da realização de um referendo popular, ainda em maio de 2014, quando
os confrontos se intensificaram.**
Os conflitos armados ocorreram em áreas
densamente povoadas da região de Donbas, com os grupos separatistas russos
concentrando suas atividades na captura de estruturas administrativas e
unidades militares. Grupos armados ucranianos, formados pelo exército, polícia
militar (Guarda Nacional), Serviço de Segurança Nacional (NSS) e batalhões
“voluntários”, como o Batalhão Azov,*** se opuseram aos separatistas russos. A
maioria dos conflitos entre forças ucranianas e russas se concentraram em áreas
urbanas e desde o início tiveram como objetivo a destruição de edifícios e
infraestrutura urbana (SLYVKA, ZAKUTYNNSKA, 2016).
Com o aumento do uso de armamento pesado,
incluindo artilharia, mísseis, tanques e aviação militar, houve a destruição
deliberada de edifícios e serviços urbanos críticos, como água e eletricidade.
Com a invasão russa de 2022,**** a formação de uma linha de confronto entre
forças ucranianas e forças pró-Rússia, agora com a presença do Exército russo
em suas frentes de combate, evolui para uma extensa linha de contato, uma
típica “zona tampão”, cujas manifestações de urbicídio mais severas, com a
destruição de cidades por completo, se concentram nas áreas que percorrem a
linha de combate entre ambas as forças. À medida que os combates se desenvolvem
e as cidades e os assentamentos urbanos são implicados na dinâmica espacial do
conflito, o campo de batalha tem se deslocado para os centros urbanos.
Segundo Kostyantyn Mezentsev e Oleksii
Mezentsev (2022), somente nos primeiros 100 dias do início da invasão russa, em
2022, 147 cidades, aproximadamente um terço de todas as cidades da Ucrânia,
foram significativamente atingidas por bombardeios ou combates urbanos. Nos
ataques e combates urbanos, além de alvos militares e estratégicos, edifícios
de valor simbólico, centros culturais, monumentos e uma ampla infraestrutura
urbana sem aparente significância militar também foram destruídos. Embora K.
Mezentsev e O. Mezentsev (2022) procurem mostrar o impacto dos ataques russos
na estrutura urbana, deve-se considerar que as forças ucranianas também
contribuíram com a destruição direta de edifícios e infraestrutura nos combates
urbanos. Como força atacante os russos cercaram e sitiaram muitas cidades e
assentamentos urbanos; contudo, o papel das forças ucranianas no cenário de
guerra urbana não deve ser negligenciado, tendo em vista, por exemplo, os
ataques com uso de drones e mísseis no interior da Rússia visando a centros
urbanos e estruturas civis.
Pode-se afirmar que a destruição urbana é
maior na zona de contato entre ambos os exércitos, onde a estrutura urbana tem
sido assimilada ao contexto do combate, e o próprio espaço urbano consiste no
campo de batalha. O emprego ucraniano dos assentamentos urbanos em apoio
operacional e como defesas urbanas fortificadas e a crescente militarização dos
espaços urbanos cotidianos e da infraestrutura das cidades colocam as cidades e
a vida urbana na retórica da guerra com as disputas entre russos e ucranianos
produzindo uma expressiva fragmentação do espaço urbano, envolvida em disputas
territoriais e dinâmicas de des-re-territorialização.***** Nesse sentido, ambas
as forças beligerantes visam a destruição da heterogeneidade, que é a essência
da urbanidade, com o propósito de (re)territorializar a sua própria dinâmica
urbana, marcada agora por um antagonismo pró-Rússia, fundado em uma visão da
vida urbana e das cidades russas inscritas numa nostalgia soviética em
confronto com o modo de vida ucraniano, ocidentalizado, que procura se
apresentar moderno e em constante desenvolvimento, portanto, em aparente
progresso.
É justamente nesse sentido que K.
Mezentsev e O. Mezentsev (2022) indicam bem que a destruição de cidades e
estruturas urbanas na Ucrânia tem sido planejada não só para atingir objetivos
militares. O urbicídio ucraniano, para eles, além de toda a destruição, implica
morte das cidades, motivada pela fuga e despovoamento dos assentamentos urbanos
por causa da saída de moradores. Mariupol, uma cidade portuária e importante
centro econômico, com mais de quatrocentos mil habitantes no início de 2022, é
exemplo da dinâmica e dos processos de des-re-territorialização inscritos no
contexto da guerra.****** Além de uma remoção forçada de moradores da cidade
por causa dos combates, agora uma dinâmica de (re)territorialização pró-Rússia
assume um caráter altamente excludente, em que se ignora qualquer identidade
que não seja a russa e se promove um retorno nostálgico à vida urbana
soviética, excluindo, de todas as maneiras, a presença de ucranianos que vivem
naquela cidade.
Segundo o relatório da Human Rights Watch, “Our city was gone”:
russia’s devastation of Mariupol, Ukraine (2024), o ataque russo em Mariupol*******
(ver Figura 1) foi um dos mais destrutivos desde o início da guerra na Ucrânia,
quando as forças russas e afiliadas fizeram uso de armas de vários tipos,
incluindo bombardeios de tanques e artilharia pesada, lançadores de foguetes,
mísseis e ataques aéreos em áreas povoadas. Esse tipo de armamento em áreas
urbanas teve impactos devastadores sobre civis e infraestrutura urbana,
deixando milhares de civis mortos e uma extensa destruição, que atingiu centenas
de prédios residenciais, hospitais, instalações educacionais e infraestrutura
de eletricidade e água. Além da destruição, o relatório também destaca que
desde a ocupação da cidade as autoridades russas estão construindo novos
edifícios residenciais como parte de seu plano declarado de reconstruir e
urbanizar Mariupol até 2035. Em Mariupol as forças ocupantes estão eliminando
características da identidade ucraniana por meio da destruição de referências
culturais e simbólicas da paisagem da cidade, mudando o nome de ruas e
incluindo a imposição de um currículo escolar russo. Além disso, estão exigindo
que os residentes obtenham passaportes russos para fins de identificação e
aquisição de benefícios. Famílias atingidas pela guerra e que perderam suas
casas, para receber um imóvel reformado e oferecido pelo governo russo,
precisam trocar seus antigos passaportes pelo passaporte russo.
Figura 1
Avanços das operações russas no primeiro ano da guerra
com destaque
para o cerco e
conquista de Mariupol
Fonte: Alfredo Mergulhão, Luciano Ferreira e Paulo
Assad, “Guerra na Ucrânia: entenda o primeiro ano do conflito em quatro mapas”,
para O Globo (2013).
Em Mariupol a reconstrução da cidade é conduzida diretamente pelo Ministério de Defesa da Rússia. Sob administração russa, a cidade voltou a exibir símbolos soviéticos em monumentos. Desde que a cidade foi declarada “libertada” pelo presidente russo Vladimir Putin, em abril de 2022, a cidade passou a exibir os nomes de revolucionários do período soviético, além de símbolos antifascistas, que agora estampam os prédios do intenso processo de reconstrução da cidade. De acordo com Stefani Costa,
Fonte: Stefani Costa, “Sob administração russa,
Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos”, para Opera Mundi
(2024).
Fonte: Stefani Costa, “Sob administração russa,
Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos”, para Opera Mundi
(2024).
Para K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022), o
que ocorreu em Mariupol e outras cidades ucranianas******** não foi apenas
expulsão sistemática da população ucraniana e (re)territorialização russa, mas também
substituição das antigas moradias e edifícios danificados por estruturas e
moradias de baixa qualidade, com o intuito de produzir em tempo recorde uma
urbanização fortemente amparada na identidade e cultura russa. Após o fim dos
combates na cidade e estabilização do front, ainda em outubro de 2022, o
Ministério de Construção e Habitação da Rússia divulgou um plano de
repovoamento de Mariupol, que estabelece com bastante ênfase um programa de
recuperação econômica da cidade. Segundo a matéria de Stefani Costa (2024),
Moscou pretende, com isso, transformar Mariupol em um dos símbolos da
recuperação das cidades retomadas durante a guerra; para tanto, busca torná-la
um importante centro econômico e também uma referência da cultura russa na
região.*********
O
caso de Mariupol e os de outras cidades sob ocupação russa são certamente
exemplos de sinais de urbicídio, que agora se materializam não pela destruição
massiva de edifícios e infraestrutura urbana, mas pelo controle socioespacial e
exclusão que caracterizam o urbicídio indireto de um modelo de reconstrução que
visa instaurar uma homogeneidade territorial pró-Rússia. A urbanização do
urbicídio não é um fenômeno exclusivo da Ucrânia. Na Palestina, com a
construção de assentamentos israelenses em Território Palestino Ocupado (ver,
por exemplo ABUJIDI, 2014), ou na Síria, com a reconstrução de cidades
destruídas pela guerra (ver, por exemplo SHARP, 2016), os mecanismos de
controle e segregação socioespacial instauram uma nova territorialidade. Na
Ucrânia esse processo assume uma magnitude nunca antes vista. Assim que os
combates cessam, soldados e tanques dão lugar aos operários e escavadeiras, e
rapidamente o campo de batalha se transforma em um grande canteiro de obras. Este novo arranjo espacial visa a configuração de uma ordem
socioespacial amparada em mecanismos de controle e exclusão da população
ucraniana, em que a urbanização do urbicídio assume papel de destaque na
configuração de um amplo guarda-chuva de proteção no entorno estratégico de
influência russa.**********
* Por urbicídio
entende-se as práticas e meios militares destinados, com
fins políticos, que visam, no fundo, além de vencer o inimigo, a destruir o seu
habitat, negando-lhe a cidade e o
espaço urbano como substrato de reprodução ou esconderijo. Dessa maneira,
o que estamos vendo na Ucrânia é um processo de destruição do espaço urbano com
o objetivo de negá-lo ao inimigo como espaço de resistência. Trata-se, em termos simples, de uma forma de violência
contra a cidade e seus habitantes, em outras palavras, de uma ação
deliberada de destruição do ambiente construído e da urbanidade que propicia a
vida na cidade, com a intenção de atingir pelo uso da força uma finalidade
política. Para mais detalhes, conferir “Espaço de batalha e urbicídio na cidade
do Rio de Janeiro” (MENDONÇA, 2022). Link de acesso: https://loja.editoradialetica.com/humanidades/espaco-de-batalha-e-urbicidio-na-cidade-do-rio-de-janeiro?srsltid=AfmBOore8yHTMxe1suy-TEETL3ZGYsmg_oZewQpSx5JF7z6qGd5vw3V2
** Sobre as motivações e cenário geopolítico
que influíam nas hostilidades entre ucranianos e russos, consultar Tomasz
Konicz (2022). Sobre as manifestações e agitação civil vividas na Ucrânia entre
2013 e 2014 que incorreram na queda de Viktor Yanukovych, episódio que se
tornou conhecido como Euromaidan, ver os documentários de Paul Moreira, “Ukraine:
the masks of revolution” (2016), que mostra a interferência estrangeira nos
protestos e a forma como questões internas da Ucrânia foram manipuladas, numa
espécie de golpe brando, para derrubar Yanukovych; de outro ponto de vista,
mais favorável às reivindicações ucranianas, mas ainda assim nos moldes de uma
revolução colorida, consultar o documentário de Evgeny Afineesvky, “Winter on
fire: Ukraine’s fight for freedom” (2015). Para uma visão de como movimentos de
ativismo e manifestações democráticas de ordem nacional podem ser
instrumentalizados por interesses externos, sugiro assistir, com um olhar
crítico, o documentário de Richard Shaw, “Gene Sharp – how to start a
revolution” (2011).
***
O Batalhão Azov foi fundado em 2014 como um batalhão de defesa territorial
durante a guerra na região do Donbas. O regimento militar era formado por
voluntários nacionalistas, criado para preencher a lacuna das defesas militares
ucranianas. Em 2022 o regimento ganhou destaque durante a invasão russa da
Ucrânia por lutar contra as forças russas na cidade de Mariupol. Após meses de
combates intensos pela defesa da cidade, antes de se render às forças russas, o
Batalhão Azov impôs uma feroz resistência aos invasores, ao sustentar uma
posição de defesa no interior do complexo metalúrgico e siderúrgico de
Azovstal. De acordo com Moscou, o Batalhão Azov era formado por combatentes de
orientação nazifascista, e seus homens foram responsáveis por cometer uma série
de crimes contra a população de origem russa, sendo seus líderes alvo
prioritário da invasão.
****
Embora a mídia ocidental frequentemente retrate a invasão russa como uma
agressão com pretensões expansionistas de Moscou, é importante ressaltar que o
conjunto das forças ucranianas já estavam em conflito contra grupos de defesa
russos, no leste do país, apoiados por Moscou, e que desde 2014 conflitos eram
comuns, com os ucranianos e não somente os russos, atacando e bombardeando
cidades na região do Donbas e suas adjacências.
*****
Aqui enfatizamos a dinâmica espacial de des-re-territorialização na perspectiva
de destruição e reconstrução do espaço urbano visando a propósitos políticos
com usos militares. Ou seja, esse processo é enfocado na perspectiva da
dinâmica espacial de deslocamento (forçado ou não) e organização do espaço
urbano implícito ao urbicídio. Essa leitura está em sintonia com processos de
des-re-territorialização, que implicam dinâmicas próprias de construção e
desconstrução de territórios na perspectiva dos “aglomerados humanos de
exclusão” descritos por Haesbaert — territórios marcados por relações de
precariedade física e simbólica como os campos de refugiados. De toda forma, para
um enfoque mais amplo recomenda-se a leitura de seus trabalhos de 2007, 2009 e
2014.
****** Sobre a batalha entre russos e ucranianos por Mariupol, vale a pena conferir as produções mencionadas a seguir: “A batalha de Mariupol: quais os reais objetivos de Putin?”; “Guerra na Ucrânia – boletim #12 – o cerco de Mariupol”; “Como a Rússia venceu a sangrenta batalha por Mariupol”; “O fim da batalha de Mariupol”; e “Siege of Mariupol – animated analysis”, que, por fim, oferece uma interessante análise espacial das operações militares e combates na cidade.
******* Consultar também a publicação digital multimídia “Beneath the rubble: documenting devastation and loss in Mariupol” (2024).
********
Embora Mariupol e outras cidades ocupadas pelas forças russas sejam formadas
por população de maioria russa, preferimos o emprego da terminologia de cidades
ucranianas com o propósito de mostrar que a cidade era antes da invasão russa
administrada pela jurisdição do Estado ucraniano. Mesmo se considerarmos como
concluída e legal a anexação dos territórios dos Oblasts de Donetsk, Lugansk,
Zaporizhzhia e Kherson pela Rússia, questão que não deixa de ser controversa,
mesmo após a realização dos referendos populares de 2022, é preferível, a
título de redação do texto, ainda se referir às cidades ocupadas como
territórios ucranianos.
********* Sobre a reconstrução da cidade de Mariupol, ver também: “Exército russo reconstrói edifícios em Mariupol e Volnovakha, na Ucrânia”; “Rússia quer entregar em setembro primeiras reconstruções em Mariupol”; “Ministério da Defesa da Rússia inspeciona trabalhos de reconstrução em Mariupol”; e “Brasileiro vê como Rússia está reconstruindo rapidamente cidade tomada”.
**********
K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) chamam a área de influência do entorno
estratégico da Rússia de “Mundo Russo”.
Este
artigo deve ser lido em complemento ao texto “Guerra urbana na Ucrânia”,
publicado por Márcio J. Mendonça, no site A Terra é Redonda, em 17 de fevereiro de 2024. Link de acesso: https://aterraeredonda.com.br/guerra-urbana-na-ucrania/
Referências
ABUJIDI, N. Urbicide in Palestine: spaces of oppression and resilience. Nova York: Routledge, 2014.
COSTA, S. Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos. Opera Mundi. Brasil, 7 abr. 2024. Disponível em: <https://operamundi.uol.com.br/guerra-na-ucrania/agora-sob-ocupacao-russa-como-esta-a-cidade-de-mariupol/>. Acesso em: 9 jan. 2025.
Human Rights Watch. Beneath the rubble: documenting devastation and loss in Mariupol. Human Rights Watch, 2024. Disponível em: <https://www.hrw.org/feature/russia-ukraine-war-mariupol >. Acesso em: 9 jan. 2025.
______. “Our city was gone”: Russia’s devastation of Mariupol, Ukraine. Human Rights Watch, 2024. Disponível em: <https://www.hrw.org/sites/default/files/media_2024/02/ukraine0224web_0.pdf>. Acesso em: 9 jan. 2025.
HAESBAERT, R. Desterritorialização: entre as redes e os aglomerados de exclusão. In: CORRÊA, Roberto Lobato; GOMES, Paulo C. da Costa; CASTRO, Iná Elias de (Orgs.). Geografia: conceitos e temas. 12. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009, p. 165-205.
______. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
______. Viver no limite: território e multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
KONICZ, T. Ucrânia o “Grande Jogo”: a luta pelo poder entre o leste e o ocidente na crise global. Rio de Janeiro: Consequência Editora, 2022.
MENDONÇA, M. J. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Dialética, 2022.
MERGULHÃO, A; FERREIRA, L; ASSAD, P. Guerra na Ucrânia: entenda o primeiro ano do conflito em quatro mapas. O Globo. Brasil, 24 fev. 2023. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/02/guerra-na-ucrania-entenda-o-primeiro-ano-do-conflito-em-quatro-mapas.ghtml>. Acesso em: 11 jan. 2025.
MEZENTSEV, K.; MEZENTSEV, O. War and the city: Lessons from urbicide in Ukraine. . Czasopismo Geograficzne, v. 93, n. 3, p. 495-521, 2022.
terça-feira, 11 de março de 2025
Cartografia do Genocídio
Prof. Dr. Márcio José Mendonça
Segundo Eyal
Weizman, autor de “Hollow Land”, livro em que descreve as formas e técnicas de
controle usadas por Israel na expansão das colônias sionistas e ocupação dos territórios palestinos, a guerra entre palestinos e israelenses não pode ser entendido apenas como um conflito bélico, mas em termos de uma ampla geometria espacial de controle que se baseia em projetos de construção e urbanização. Nesta obra Weizman desvenda os mecanismos de controle e como
eles transformaram Gaza e a Cisjordânia em uma zona de guerra. Seu trabalho é
uma leitura essencial para entender como a arquitetura e a infraestrutura são
usadas como armas letais na formação de Israel.
Na nova edição
do seu livro, Weizman explica também como os eventos após a invasão de Gaza em outubro
de 2023 testemunham as políticas contínuas de opressão.
Por último, Weizman destaca
como na cúpula da semana passada, em 4 de março, um novo plano para a
reconstrução de Gaza foi apresentado por líderes árabes como uma alternativa ao
plano de Trump de expulsar os palestinos de Gaza. Sua análise indica que essa
iniciativa — que ganhou apoio do Conselho Europeu — inclui um plano diretor
arquitetônico que leva adiante elementos-chave da destruição projetada por
Israel de Gaza (conforme abordado no relatório "Cartografia do Genocídio", disponível em: https://bit.ly/cartography-of-genocide-report), com sua proposta
de uma "zona tampão", corredores de segurança e rotas de ataque, que estão disponíveis em vídeo para acesso em: https://x.com/ForensicArchi/status/1899172410198303019?t=qTmgl5WCU0BklmT0cYpbow&s=08
domingo, 9 de fevereiro de 2025
Urbicídio por escavadeira na Palestina
Prof. Dr. Márcio José Mendonça
O conflito
israelo-palestino é certamente revelador de uma política de guerra em que se
visa, como alvo, a urbanidade, ou seja, a própria cidade ou o espaço urbano,
considerada a estrutura urbana como um todo. Ademais, a guerra entre palestinos
e israelenses ocorre em termos de uma política de violência típica do urbicídio,
em que ambos os lados estão atacando os espaços da vida urbana cotidiana com
armas para interromper ou destruir a urbanidade sobre a qual se apoia a vida do
inimigo. Israel, contudo, possui considerável superioridade bélica, sendo capaz
de provocar o que Stephen Graham (2004a) chamou de “desmodernização forçada” da
sociedade urbana palestina, isto é, uma forma de regressão econômica e social
baseada na destruição da estrutura urbana.
Diante do novo
cenário de combate em ambiente urbano, após pesadas baixas na década de 1980 no
conflito urbano no Líbano, quando suas tropas foram alvo de atiradores e
emboscadas, Israel reorientou a sua política de guerra colocando na mira a
infraestrutura social da qual depende a sociedade palestina e a qual os
combatentes utilizam como abrigo. Por conta da experiência desastrosa no
Líbano, Ariel Sharon adotou uma estratégia direta sustentada por uma política
de demolição de bairros inteiros pela FDI na primavera de 2002 com o objetivo
de compelir os palestinos a um quadro de miséria e pobreza, destruindo milhares
de casas. Em sentido estratégico, compreende-se que essa destruição é parte de
uma política tridimensional, que consiste em configurar o território para abrir
espaço para operações das tropas israelenses e permitir a expansão territorial
de Israel, deslocando palestinos forçadamente, enquanto modela o território
para controlá-lo de maneira mais eficaz (ver Graham 2004a; Weizman 2002, 2004,
2012; Abujidi 2014). Em Gaza, este método foi intensamente empregado por Benjamin
Netanyahu, com uso de bombardeios e incursões de veículos blindados e
escavadeiras para nivelar o terreno e impedir o uso da estrutura urbana não só
como meio de experiência de vida coletiva, mas também como abrigo da resistência
palestina.
Este método consiste numa tática de combate urbano baseado fundamental no uso de escavadeiras blindadas das FDI, conhecidas como Caterpillar D9, concebidas para destruir áreas palestinas construídas, removendo estradas e calçamentos de ruas, redes de energia elétrica e água, além de habitações, entre outros alvos visados. Como enalteceu um condutor da escavadeira ao derrubar uma casa palestina, sua ação estaria enterrando 40 ou 50 pessoas por gerações (Graham, 2004b). Declaração ainda mais surpreende foi feita pelo soldado e rabino Avraham Zerbib, que serviu no exército de Israel durante a invasão de Gaza. Em uma entrevista ao Canal 14 de uma emissora de TV israelense, Zerbib se vangloria de crimes de guerra que cometeu em Gaza e enquanto é indagado pelo entrevistador de seus feitos, recebe aplausos da plateia presente no programa. Sem embaraço o condutor da escavadeira afirma:
Em
média, eu destruía 50 casas por semana. [...]. Estou falando de prédios inteiros.
[...] Em Rafah, eles não têm nada para onde voltar. E em Jabalia, eles não têm
nada para onde voltar. Não existe mais Jabalia, foi tudo destruído. Tudo,
prédio atrás de prédio. Beit Hanoun e Beit Lahia, perdemos a oportunidade.
Destruímos metade. O acordo [de cessar-fogo] veio quando estávamos quase lá. Por
sinal, estávamos nos arredores, como você viu nos vídeos, Beit Hanoun e Beit
Lahia. Eu disse ao oficial que tocaria uma melodia com a escavadeira D9. Você sabe
como é a sensação de destruir um prédio de 7, 6, 5 andares? Eles têm milhares
de mortos que os cachorros e gatos comeram porque ninguém recolheu [os corpos].
O que está acontecendo lá não pode ser descrito em palavras. [...] E eu espero
que esse não seja o final. Hoje nós vimos como eles saíram e ainda temos muito
trabalho a fazer. Mas... eles estão voltando para o nada, nada. Dezenas de milhares
de famílias que não têm mais documentos, fotos de infância ou identidades. Eles
não têm nada, nada, sem casa, nada. Eles não vão saber onde era a cada deles.*
Em vista disso, ao destruir casas palestinas, a ação de Israel não configuraria uma ação para atender um objetivo militar legítimo, mas, em espectro amplo, no tempo e no espaço, uma estratégia demográfica calculada para expulsar e impedir o retorno de palestinos ao território ao causar precariedade urbana e desestruturação do ambiente de forma a tornar inviável a manutenção da vida moderna no território pelo processo de desmodernização aplicado (ver Weizman 2002, 2004, 2012; Graham 2004b; Abujidi 2014).
De fato, destruir qualquer possibilidade de um futuro Estado Palestino, aniquilando a sua infraestrutura urbana e os seus símbolos culturais da paisagem, consiste em uma estratégia antiga da geopolítica de Israel para impedir a rápida urbanização palestina e seu crescimento demográfico dentro de Israel e nos Territórios Ocupados, o que poderia alterar o equilíbrio demográfico na região a favor dos palestinos (Graham, 2004b). Esse foi, inclusive, o “alerta vermelho” de Arnon Soffer, conceituado demógrafo israelense, em 2001. Segundo ele, o futuro do Estado de Israel estaria ameaçado a longo prazo pelo crescimento das cidades e aldeias palestinas. Para Soffer, o crescimento urbano proporcionado pelos palestinos configuraria uma importante mudança urbano-demográfica em desfavor dos israelenses. Graham cita os argumentos de Soffer, que faz menção à fabricação de uma ficção, de uma suposta “ameaça existencial”, talvez se referindo à ideia de um segundo Holocausto, se o crescimento populacional e processo de urbanização palestino continuasse:
O processo de urbanização em torno das fronteiras de Israel vai resultar em uma grande população árabe, que sofre com a pobreza e a fome, em torno do Estado judeu. Essas áreas tendem a se tornar um terreno fértil para a evolução de movimentos radicais Islâmicos... Na zona árabe o processo leva a uma urbanização de natureza selvagem, decorrente da ausência de uma política de planejamento e, em particular, a falta de fiscalização e aplicação da lei de construção. Todo mundo constrói como entende, e o resultado é centenas de vilarejos ilegais espalhados em todas as direções (Soffer, 2001 apud Graham, 2004b, p. 203, tradução livre).
Apropriando-se
dessa lógica, Efraim Eitam, general aposentado das FDI, concebeu os Territórios
Ocupados como uma “bomba relógio demográfica e social” que a qualquer momento
poderia explodir sobre Israel. Valendo-se disso, Eitam enfatizou que a
construção espontânea de moradias palestinas seria um tumor cancerígeno
destruindo o Estado de Israel, e que áreas urbanas e edifícios devem ser
tratados, enfaticamente, como armas. Afirmações tais como as de Soffer e Eitam
têm por intuito retratar áreas urbanas palestinas como territórios
incognoscíveis, que abrigam “ninhos de terroristas” (Graham,
2004b).
Sendo
ato deliberado para atingir objetivos políticos, ao retratar os palestinos como
terroristas, Israel formula importante aspecto de legitimação de seus ataques
com o propósito de alcançar o máximo de destruição e de atingir áreas civis
palestinas, em que cabe o uso de linguagem de negação do “outro” e a
identificação da urbanidade/espacialidade
palestina como território
inimigo a partir de intensa retórica de “desumanização” e “demonização”.
Além das sucessivas intervenções militares e expansão dos assentamentos
israelenses na Palestina, são exemplos de intensa propaganda para legitimar
tanto o ataque quanto a destruição do lugar/espaço do inimigo, a campanha dos
Estados Unidos de “Guerra ao Terror” que incorreram na invasão do Afeganistão e
do Iraque ou mesmo as ações violentas de intervenção militar em favelas e
espaços segregados do Rio de Janeiro legitimadas pelo discurso de “Guerra às
Drogas”. Em todos os casos, independentemente de serem combatentes ou civis, as
vítimas são retratadas como terroristas ou bandidos e o seu espaço social
qualificado como ambiente perigoso ou hostil (ver com mais detalhes Abujidi,
2014; e Mendonça, 2022).
Figura
Escavadeira israelense usada como arma de guerra trabalha na destruição de edificações na Faixa de Gaza.
Fonte: desconhecida.
Referências:
ABUJIDI, N. Urbicide in Palestine: spaces of oppression and resilience. Nova York: Routledge, 2014.
GRAHAM, S. Cities as strategic sites: places annihilation and urban geopolitics In: GRAHAM, S. (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004a. p. 31-53.
GRAHAM, S. Constructing urbicide by bulldozer in the occupied territories. In: ____. Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004b. p. 192-213.
MENDONÇA, M. J. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Dialética, 2022.
WEIZMAN, E. Hollow land: Israel’s architecture of occupation. Nova York: Verso, 2012.
WEIZMAN, E. Strategic points, flexible lines, tense surfaces, and political volumes: Ariel Sharon and the geometry of occupation. In: GRAHAM, S. (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd, 2004. p. 172-191.
WEIZMAN, E. The
politics of verticality. Open Democracy. Londres,
Inglaterra, texto de 11 partes disponibilizado entre 23 de abril e 1º de maio
de 2002. Disponível em: <http://www.opendemocracy.net/>. Acesso em: 26 de
mar. 2014.
*Entrevista de Avraham Zerbib com legenda em português publicada na página do Instagram
da Federação Árabe-Palestina no Brasil (FEPAL), 22 de janeiro de 2025. Disponível
em: <https://www.instagram.com/reel/DFJPf0AOqDI/?igsh=cGtqcWkyYW5scHBj>.
domingo, 19 de janeiro de 2025
Cessar-fogo em Gaza: Quem venceu? 5 análises para entender o cenário geopolítico
Prof. Dr. Márcio José Mendonça
- Rogério
Anitablian: “Netanyahu vence em Gaza”. Link de acesso: https://www.youtube.com/watch?v=Q6Gn-DioUgE&list=WL&index=499
- Canal
Multipolar TV: “Guerra contra os palestinos e libaneses, Israel
reconhecerá a derrota de suas estratégias bélicas?”. Link de acesso: https://www.youtube.com/watch?v=6ctwhgNvKws&list=WL&index=499
- Opera Mundi: “Cessar-fogo
em Gaza: Vitória Palestina? 20 Minutos entrevistas Breno Altman”. Link de
acesso: https://www.youtube.com/watch?v=hn4ltCk985o&list=WL&index=502
- Salem Nasser:
“Cessar-fogo em Gaza e outras manchetes para 2025”. Link de acesso: https://www.youtube.com/watch?v=ZP4aDLwn0w8&list=WL&index=503
- The Electronic Intifada: “Breaking news and
analysis on day 1 of Gaza ceasefire”. Link de acesso: https://www.youtube.com/watch?v=pb4Lr097sxU

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025
Guerra urbana na Ucrânia
Prof. Dr. Márcio José Mendonça
A invasão russa da Ucrânia em 2022
demonstra mais uma vez a importância das cidades no cenário de combates em
ambientes urbanos. Embora as cidades fossem alvo de ações militares desde a
antiguidade, uma cronologia convencional do campo de batalha moderno pode considerar a Guerra Civil Espanhola o primeiro exemplo de combate de natureza
propriamente urbano. O próximo exemplo deve considerar sem dúvida a devastação
urbana da Segunda Guerra Mundial, cabendo destacar as batalhas por Stalingrado
e Berlim, além de mencionar o bombardeio indiscriminado de Dresden, Hamburgo e
Tóquio. Embora episódios emblemáticos em que a cidade foi alvo e os combates se
desenvolveram no espaço urbano, uma virada urbana mais explícita, só ocorreu
com as experiências dos Estados Unidos em Mogadíscio, em 1993, com o conflito
urbano travado em Sarajevo (1992-1996) e pela experiência russa em Grozny
(1994-1995). E se considerarmos os exemplos mais recentes de guerra urbana no
Iraque e na Síria, como parte dessa cronologia, todos incidentes denotam um
“uma virada histórica para a guerra urbana”, como argumenta Anthony King (2021,
p. 6, tradução livre; ver também GRAHAM, 2011; MENDONÇA, 2022; e DANIELSSON,
2024).
Tratando-se de guerra em ambiente urbano,
conflitos em cidades, são um tipo de conflito que se desenvolve em áreas
urbanas, com características próprias que exigem novos modos de comportamento e
de atuação dos soldados por conta da presença de muitos civis e do ambiente
construído que oferece complexidade extrema ao campo de batalha. Assim, a
compreensão do ambiente de conflito urbano demanda uma abordagem conceitual
mais ampla, que dê conta da dinâmica e complexidade de combate do espaço
urbano. Nesse âmbito, o geógrafo britânico Stephen
Graham (2011), especialista no tema, sugere o emprego da concepção de espaço de
batalha, em vez de campo de batalha, espaço em geral amplo e aberto. Segundo
argumenta Graham, o espaço de batalha não possui um front ou retaguarda, tampouco deve ser visto como uma
horizontalidade, mas como um espaço profundo de várias camadas, onde o combate
é sempre simultâneo à vida e a qualquer outra atividade. “O conceito de espaço
de batalha permeia tudo, indo das escalas moleculares da engenharia genética e
da nanotecnologia, passando pelos espaços cotidianos e experiências da vida da
cidade, até esferas planetárias do espaço e o ciberespaço da internet que
atravessa o globo” (GRAHAM, 2011, p. 31, tradução livre). Na perspectiva
enfatizada, o espaço de batalha pode ser qualquer lugar tomado como campo de
batalha, com diferentes níveis ou camadas espaciais, a partir das estruturas
preexistentes do lugar, que então são manipuladas por combatentes ou
construídas com finalidades militares. São lugares onde, muitas vezes, os combates
ocorrem em “espaços comuns” ou “ordinários”, em meio a salas de estar,
escolas, áreas industriais, hospitais e supermercados, ambientes
característicos de conflitos urbanos.
Todavia, é preciso observar, que muitos
dos princípios reconhecidos que caracterizam a guerra urbana e que são
aplicados hoje ao cenário densamente urbanizado e de grande densidade
demográfica, em cidades, já eram, aplicáveis ao período pré-moderno. Por isso,
para sua melhor apreciação, aos tempos modernos, John Spencer (2021) oferece
uma lista útil de oito critérios para descrever os princípios fundamentais da
guerra urbana moderna que, de acordo com Morag (2023), em síntese, podem ser
referidos da seguinte maneira:
1. Os defensores quase sempre têm uma
vantagem tática, especialmente em cidades, embora isso não signifique que estas
necessariamente terão sucesso no nível operacional ou estratégico de um
conflito;
2. O terreno urbano inibe a capacidade da
força atacante de usar inteligência, vigilância, reconhecimento, implantação de
meios aéreos e enfrentar os defensores à distância;
3. As forças atacantes têm dificuldade em
alcançar o elemento surpresa, pois eles são monitorados pelas tropas de defesa,
que podem permanecer escondidos dos atacantes;
4. Os edifícios, especialmente os feitos
de vigas de concreto reforçado ou de pedra, servem como bunkers fortificados a
partir dos quais as forças de defesa podem disparar sobre as forças atacantes;
5. Os invasores costumam usar munições, às
vezes poderosas, para acessar edifícios e negá-los às forças de defesa;
6. Os defensores têm a vantagem de uma
circulação relativamente livre dentro da cidade e conhecimento íntimo das ruas,
dos becos e dos labirintos — quando não estão sob vigilância ou ataque por
veículos aéreos não tripulados ou por outros meios;
7. Os defensores podem construir túneis,
depósitos de armas e uma série de outras instalações subterrâneas e usá-las
para acessar vários locais ao redor da cidade. Os invasores geralmente têm
pouco ou nenhum conhecimento sobre esses lugares;
8. Nem as forças de ataque nem as de
defesa podem dispor dos seus recursos numa localização de forma concentrada. A
concentração de forças é um dos fatores decisivos na guerra convencional no
campo de batalha, pois, historicamente, o objetivo das operações de campo era
concentrar suas forças para dizimar o exército inimigo. A incapacidade de usar
forças em massa tem desvantagens para ambos os lados, mas, no caso da força de
defesa em tela, que é uma força irregular, e a força de ataque, que é uma força
militar moderna — o que aconteceu em muitos casos da guerra urbana moderna
pós-Segunda Guerra Mundial — os recursos tecnológicos, numéricos, as vantagens
de treinamento e equipamento de um exército moderno não podem, em muitos casos,
ser aplicados tão eficazmente quanto seria possível em condições abertas de
guerra. Assim, a força militar moderna é muitas vezes forçada a lutar junto de
combatentes irregulares, com ambos os lados estando amplamente equiparados, uma
vez que carregam tipos de equipamentos semelhantes, e a vantagem de treinamento
que um soldado moderno tem pode ser relativamente negada pelo fato de o conhecimento
do terreno proporcionar uma defesa irregular ao combatente. Além disso, os
defensores irregulares geralmente têm tempo suficiente para preparar a sua
cidade para o conflito, incluindo a tomada de medidas como a escavação de
túneis, a construção de depósitos de munições, o estabelecimento de posições de
atiradores, a implantação de armadilhas e o planejamento de emboscadas.
Dessa forma, o conflito
urbano, muitas vezes uma guerra irregular, travada em áreas edificadas, difere
do combate convencional, ao ar livre, tanto no nível operacional quanto no
nível tático. Fatores que incluem a presença de civis e a complexidade do terreno
urbano são complicadores que interferem no conflito e que implicam em produção
de conhecimento e táticas para atuar no espaço urbano. Nesse sentido, embora Danielsson
(2024) muito bem descreva a trajetória histórica-conceitual (2024) pela qual a
ideia do urbano militar surgiu, a partir da necessidade de uma nova ordenação
espacial e epistêmica de ambientes urbanos, para se referir aos modos práticos
nos quais uma organização militar produz conhecimento, na busca de alcançar
proficiência militar em ambiente urbano por meio de ações administrativas e de
intervenções de caráter cirúrgico, que a princípio buscam gerar menos impacto
ou minimizar o dano colateral. É de fato notável, que os conflitos militares na Síria, na
Faixa de Gaza, além da guerra na Ucrânia, também mostram que o urbano é
tratado, mesmo agora, com profundo desenvolvimento de recursos tecnólogos, como
um espaço hostil, caótico e perigoso, que precisa ser domado ou até mesmo
completamente destruído. Assim, ações de guerra conduzidas em espaço urbano por
militares israelenses, americanos e russos, que ensejam vitórias militares no
cenário urbano, visam a destruição mais substancial do espaço urbano com o
propósito de atingir grupos que usam o ambiente construído como abrigo e
suporte para suas operações.
As cidades e sua extensa rede urbana
oferecem as forças de defesa, sitiadas em prédios e outras estruturas urbanas,
uma defesa significativamente baseada no espaço urbano por meio de esconderijos
e defesas montadas no ambiente construído. Vale dizer que combatentes abrigados
no espaço urbano, também podem contar, com as vantagens de extensa cobertura da
estrutura civil oferecida no combate urbano. Diferente de espaços amplos e
abertos, ambientes urbanos de combate são muito próximos; assim, dentro e ao
redor dos edifícios, é muito difícil garantir a segurança de não-combatentes.
Isto limita a
liberdade de movimento das forças invasoras convencionais e os torna mais
vulneráveis a ataques, enquanto as mortes de civis e a danos em propriedades
podem beneficiar as forças de defesa irregulares, atraindo atenção e ira contra
as forças invasoras. A morte de inocentes numa cidade pode influenciar a
opinião pública por parte dos habitantes na direção de fornecer apoio crescente
às forças irregulares e alimentar maior ódio às forças invasoras. Assim, os
defensores urbanos desfrutam de uma grande gama de vantagens, não apenas
taticamente, mas também em termos de impacto local, nacional, e opinião global,
algo que pode influenciar a política do país invasor, bem como suas relações
com seus aliados e parceiros comerciais (MORAG, 2023, p. 81, tradução livre).
Nesse aspecto, as cidades ucranianas têm
oferecido inestimável obstáculo as ações ofensivas das forças russas que
[...] buscam a ocupação de assentamentos e cidades após a supressão e destruição das poderosas fortificações ucranianas, depósitos de munições e esgotamento de suas reservas, impulsionando avanços de infantaria leve e mecanizada apenas com a retirada de forças ucranianas ou destruição amplas de suas unidades. Tal metodologia de combate se baseia fortemente na doutrina empregada na Segunda Guerra da Chechênia e na intervenção militar na Síria, no qual danos significativos à infraestrutura urbana são inseridos no contexto de eliminação completa da resistência e posterior avanço para eliminação de unidades remanescentes, porém esgotadas (LATERZA et al., 2023, p. 102.)
No cenário de guerra no leste ucraniano,
as forças ucranianas implementaram extensas defesas em profundidade ao longo de
toda a linha de contato com as regiões de Donetsk e Lugansk, que em sinergia
com as cidades, tem exigido muitos recursos e alto nível de tolerância de
perdas em vidas e material por parte dos russos. Vale ressaltar, para os
defensores ucranianos, as cidades tem oferecido inúmeras possibilidades de
deter e neutralizar as investidas russas que precisam avançar com cuidado
diante do risco de serem atraídos para uma armadilha. Até o momento os russos
não conquistaram nenhuma cidade que possa se definir como grande, seja em
aspecto demográfico ou densidade urbana, tendo em vista que os avanços em
direção a Kiev e Kharkiv, as maiores cidades ucranianas, foram impedidas por
feroz resistência baseada no espaço urbano. A conquista de densos núcleos
urbanos são operações complexas diante da presença de edifícios altos, áreas
industriais, escolas, hospitais, centros de distribuição de energia, além de
ruas e avenidas de diferentes tamanhos, dentre outras estruturas presentes na
extensa rede urbana da Ucrânia (ver LATERZA et al., 2023).
Como Rodolfo
Laterza et al. (2023)
nos ajudar a entender, as cidades ucranianas proporcionam muitas possibilidades
aos defensores que estão conseguindo êxito em desgastar as tropas russas que se
aventuram em terreno urbano. Os avanços de blindados pelas ruas os tornam alvos
fáceis, helicópteros igualmente são vulneráveis ao fogo de sistemas de defesas
instados na cidade, enquanto que a infantaria, para avançar, deve limpar cada
edificação antes de prosseguir, tornando o avanço lento e penoso com alto custo
em vidas devido à resistência urbana, às armadilhas, às emboscadas e demais
dispositivos improvisados instalados no terreno urbano, em ruas e edifícios.
Por isso, ao assumir o comando das operações militares russas na Ucrânia, em
outubro de 2022, o general Sergei Surovikin, conhecido como “general
Armagedom”, adotou modificações táticas e na estratégia militar russa e a fim
de evitar baixas e perdas de material, os russos agora a fim de facilitar a
progressão no terreno urbano, procuram cercar as cidades e usar fogo de
artilharia para destruir obstáculos e limpar o terreno, com o objetivo de
depreciar as defesas ucranianas.
Ainda de acordo com Rodolfo Laterza et
al. (2023), essa tática cumpre o objetivo de suspender o abastecimento das
tropas entrincheiradas na cidade e assim afetar as condições de subsistência da
resistência ucraniana. Nesse âmago, os ataques de artilharia além de destruir
fortificações, esconderijos, equipamentos e munições inimigas, objetivam também
nivelador o espaço urbano, ao destruir edifícios, diminuindo o fator vertical
de complexidade de várias camadas do espaço de batalha, presente nos edifícios.
Construções altas são eventualmente usadas como ponto de observação e disparo
de atiradores e armas antitanque contra tropas que avançam pelas ruas. Outro
fator de complexidade do espaço urbano ucraniano, são a presença de túneis e
áreas industriais, uma característica da herança soviética, portanto, comuns
nas cidades ucranianas, que oferecem um teatro de batalha de múltiplas camadas,
isto é, de vários volumes, no campo de batalha.
Embora os russos agora evitem invadir os
principais centros urbanos, o avanço pelo terreno no leste ucraniana,
necessariamente precisa lidar com a questão urbana. Assim visto, na medida em
que as cidades ucranianas passaram a ser usadas para desgastar as forças
russas, os generais de Putin, implementaram o arranjo tático de destruição
massiva do espectro urbano com ataques de artilharia e bombardeios aéreos
pesados com o propósito de enfraquecer as defesas ucranianas e modelar o campo
de batalha a favor dos russos, favorecendo o avanço das tropas invasoras no vazio
urbano destruído, para só em seguida ocupá-las. No entanto, a guerra urbana na
Ucrânia não é uma questão circunscrita apenas ao elemento militar, propriamente
dito, uma vez que, o cenário ucraniano ainda oferece outras camadas adicionais
de complexidade para os russos, ao lidar com o problema das cidades. Além da
dificuldade de avanço pelo terreno urbano, muitas cidades ucranianas são
habitadas por expressiva população russa. Segundo historiadores russos a cidade
de Kiev constitui o berço da civilização russa e, portanto, possui um
importante vínculo cultural e uma forte identidade com a civilização russa, não
sendo, de forma alguma, uma opção a sua destruição completa (ver LATERZA et
al., 2023).
Dessa forma, podemos evidenciar que os
russos procuram evitar grandes centros urbanos ucranianos pelas dificuldades
impostas ao avanço militar sobre o terreno urbanizado; também por questões
sensíveis de identidade e possíveis danos a arquitetura e histórica russa
compartilhada com os ucranianos. Em seu avanço pelo leste ucraniano, os russos
têm optado por ataques contra assentamentos urbanos pequenos e médios, embora
de significativo valor, estes centros minimizam um pouco o número de perdas
entre a população civil e exigem menor demanda do efetivo de tropas russas em
relação a uma incursão em Kiev, hoje, por exemplo, fora dos planos de Moscou.
Assim, é importante destacar, que a tática
de destruição de cidades e vilas ucranianas, mesmo massiva, não visa uma
destruição total e definitiva do espaço urbano ucraniano. Deve-se lembrar que
os assentamentos ucranianos são lugares habitados também por russos, por isso,
as ações militares de Moscou não devem ser vistas apenas como guerra de conquista
e destruição infame ou sem sentido, mas sim, uma ação militar de ocupação e
organização do espaço cultural e político russo na região em sentido
estratégico. Por esse aspecto, sobretudo, no âmbito do urbicídio* aplicado na
Ucrânia, embora genuíno, em suas características destrutivas, também implica em
urbanização como medida de (re)territorialização dos interesses de Moscou e da
população russa naquela região.
*
Por urbicídio entende-se as práticas e meios
militares destinados, com fins políticos, que visam, no fundo, além de vencer o
inimigo, a destruir o seu habitat,
negando-lhe a cidade e o espaço urbano como substrato de reprodução ou
esconderijo. Dessa maneira, o que estamos vendo na Ucrânia é um processo
de destruição do espaço urbano com o objetivo de negá-lo ao inimigo como espaço
de resistência. Trata-se, em termos simples, de uma
forma de violência contra a cidade e seus habitantes, em outras
palavras, de uma ação deliberada de destruição do ambiente construído e da
urbanidade que propicia a vida na cidade, com a intenção de atingir pelo uso da
força uma finalidade política (para mais detalhes, ver MENDONÇA, 2022).
Referências
DANIELSSON, Anna. The emergence of a military urban in and of war. Annals of the American Association of Geographers, p.1-15, nov. 2024.
GRAHAM, Stephen. Cities under siege: the new military urbanism. Londres:
Verso, 2011.
KING, Anthony. Urban warfare in the twenty-first century. Cambridge, RU: Polity Press, 2021.
LATERZA, Rodolfo Queiroz [et al.]. Guerra na Ucrânia: análises e perspectiva: o conflito militar que está mudando a geopolítica mundial. São Paulo: D´Plácido, 2023.
MENDONÇA,
Márcio José. Espaço de batalha e
urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Dialética, 2022.
MORAG, Nadav. Urban warfare: the recent Israeli experience. Journal of Strategic Security, v. 16, n. 3, p. 78-99, 2023.
SPENCER, John. The eight rules of urban warfare and why we must work to change them. Modern War Institute, 1º de dezembro de 2021. Disponível em: <https://mwi.usma.edu/the-eight-rules-of-urban-warfare-and-why-we-must-work-to-change-them/>. Acesso em: 6 de janeiro de 2024.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2025
Palestina Livre 2025
Prof. Dr. Márcio José Mendonça
Como os mais atentos as atividades e publicações de
nossa página já estão cientes, estamos concluindo o livro “Guerra dos Drones:
análise e perspectiva do campo de batalha”. Este livro será lançado ainda no primeiro trimestre de 2025. Contudo,
muitos outros projetos nos aguardam em 2025. Além do livro que irá analisar o
impacto e transformação do campo de batalha pela introdução dos drones em
cenário de guerra, estamos dando início ao projeto de desenvolvimento de um
segundo livro, sobre o tema da guerra na Faixa de Gaza.
Assim, o livro “Palestina Livre: 500 dias de
combate e resistência palestina ao extermínio israelense na Faixa de Gaza”, irá
analisar os acontecimentos na Faixa de Gaza desde o dia 7 de outubro, com foco
nas formas de combate da resistência palestina baseadas em terreno urbano contra
a ocupação e extermínio dirigido por Israel. Para tanto, o livro além de analisar o
contexto do combate em terreno urbano, ou seja, da guerra em ambiente urbano,
pretende focalizar com destaque, as táticas e formas de organização da
resistência armada palestina na Faixa de Gaza.
Este projeto consiste numa versão ampliada do trabalho publicado em julho de 2024, pela revista Ensaios de Geografia, com o título de “Guerra urbana em Gaza: 100 dias de combate entre Israel e Palestina” (https://periodicos.uff.br/ensaios_posgeo/article/view/61784), que agora, ampliado e revisto, almeja realizar uma análise mais profunda do campo de batalha e do esforço de guerra da resistência palestina.
Desde agora, todos estão convidados a conhecer um
pouco sobre as formas de luta e organização da resistência palestina. Que a
verdade e o rigor acadêmico guiem cada palavra e virgula dessa história.
Dronefobia: o medo de drones
Prof. Dr. Márcio José Mendonça Drones já são uma realidade em emprego de meios civis e estão transformando profundamente o cenário da guerra...
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