terça-feira, 11 de março de 2025

Cartografia do Genocídio

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Segundo Eyal Weizman, autor de “Hollow Land”, livro em que descreve as formas e técnicas de controle usadas por Israel na expansão das colônias sionistas e ocupação dos territórios palestinos, a guerra entre palestinos e israelenses não pode ser entendido apenas como um conflito bélico, mas em termos de uma ampla geometria espacial de controle que se baseia em projetos de construção e urbanização. Nesta obra Weizman desvenda os mecanismos de controle e como eles transformaram Gaza e a Cisjordânia em uma zona de guerra. Seu trabalho é uma leitura essencial para entender como a arquitetura e a infraestrutura são usadas como armas letais na formação de Israel.

Na nova edição do seu livro, Weizman explica também como os eventos após a invasão de Gaza em outubro de 2023 testemunham as políticas contínuas de opressão.

Por último, Weizman destaca como na cúpula da semana passada, em 4 de março, um novo plano para a reconstrução de Gaza foi apresentado por líderes árabes como uma alternativa ao plano de Trump de expulsar os palestinos de Gaza. Sua análise indica que essa iniciativa — que ganhou apoio do Conselho Europeu — inclui um plano diretor arquitetônico que leva adiante elementos-chave da destruição projetada por Israel de Gaza (conforme abordado no relatório "Cartografia do Genocídio", disponível em: https://bit.ly/cartography-of-genocide-report), com sua proposta de uma "zona tampão", corredores de segurança e rotas de ataque, que estão disponíveis em vídeo para acesso em: https://x.com/ForensicArchi/status/1899172410198303019?t=qTmgl5WCU0BklmT0cYpbow&s=08 

Hollow Land, Eyal Weizman


 


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Urbicídio por escavadeira na Palestina

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

O conflito israelo-palestino é certamente revelador de uma política de guerra em que se visa, como alvo, a urbanidade, ou seja, a própria cidade ou o espaço urbano, considerada a estrutura urbana como um todo. Ademais, a guerra entre palestinos e israelenses ocorre em termos de uma política de violência típica do urbicídio, em que ambos os lados estão atacando os espaços da vida urbana cotidiana com armas para interromper ou destruir a urbanidade sobre a qual se apoia a vida do inimigo. Israel, contudo, possui considerável superioridade bélica, sendo capaz de provocar o que Stephen Graham (2004a) chamou de “desmodernização forçada” da sociedade urbana palestina, isto é, uma forma de regressão econômica e social baseada na destruição da estrutura urbana.

Diante do novo cenário de combate em ambiente urbano, após pesadas baixas na década de 1980 no conflito urbano no Líbano, quando suas tropas foram alvo de atiradores e emboscadas, Israel reorientou a sua política de guerra colocando na mira a infraestrutura social da qual depende a sociedade palestina e a qual os combatentes utilizam como abrigo. Por conta da experiência desastrosa no Líbano, Ariel Sharon adotou uma estratégia direta sustentada por uma política de demolição de bairros inteiros pela FDI na primavera de 2002 com o objetivo de compelir os palestinos a um quadro de miséria e pobreza, destruindo milhares de casas. Em sentido estratégico, compreende-se que essa destruição é parte de uma política tridimensional, que consiste em configurar o território para abrir espaço para operações das tropas israelenses e permitir a expansão territorial de Israel, deslocando palestinos forçadamente, enquanto modela o território para controlá-lo de maneira mais eficaz (ver Graham 2004a; Weizman 2002, 2004, 2012; Abujidi 2014). Em Gaza, este método foi intensamente empregado por Benjamin Netanyahu, com uso de bombardeios e incursões de veículos blindados e escavadeiras para nivelar o terreno e impedir o uso da estrutura urbana não só como meio de experiência de vida coletiva, mas também como abrigo da resistência palestina.

Este método consiste numa tática de combate urbano baseado fundamental no uso de escavadeiras blindadas das FDI, conhecidas como Caterpillar D9, concebidas para destruir áreas palestinas construídas, removendo estradas e calçamentos de ruas, redes de energia elétrica e água, além de habitações, entre outros alvos visados. Como enalteceu um condutor da escavadeira ao derrubar uma casa palestina, sua ação estaria enterrando 40 ou 50 pessoas por gerações (Graham, 2004b). Declaração ainda mais surpreende foi feita pelo soldado e rabino Avraham Zerbib, que serviu no exército de Israel durante a invasão de Gaza. Em uma entrevista ao Canal 14 de uma emissora de TV israelense, Zerbib se vangloria de crimes de guerra que cometeu em Gaza e enquanto é indagado pelo entrevistador de seus feitos, recebe aplausos da plateia presente no programa. Sem embaraço o condutor da escavadeira afirma:

Em média, eu destruía 50 casas por semana. [...]. Estou falando de prédios inteiros. [...] Em Rafah, eles não têm nada para onde voltar. E em Jabalia, eles não têm nada para onde voltar. Não existe mais Jabalia, foi tudo destruído. Tudo, prédio atrás de prédio. Beit Hanoun e Beit Lahia, perdemos a oportunidade. Destruímos metade. O acordo [de cessar-fogo] veio quando estávamos quase lá. Por sinal, estávamos nos arredores, como você viu nos vídeos, Beit Hanoun e Beit Lahia. Eu disse ao oficial que tocaria uma melodia com a escavadeira D9. Você sabe como é a sensação de destruir um prédio de 7, 6, 5 andares? Eles têm milhares de mortos que os cachorros e gatos comeram porque ninguém recolheu [os corpos]. O que está acontecendo lá não pode ser descrito em palavras. [...] E eu espero que esse não seja o final. Hoje nós vimos como eles saíram e ainda temos muito trabalho a fazer. Mas... eles estão voltando para o nada, nada. Dezenas de milhares de famílias que não têm mais documentos, fotos de infância ou identidades. Eles não têm nada, nada, sem casa, nada. Eles não vão saber onde era a cada deles.*

Em vista disso, ao destruir casas palestinas, a ação de Israel não configuraria uma ação para atender um objetivo militar legítimo, mas, em espectro amplo, no tempo e no espaço, uma estratégia demográfica calculada para expulsar e impedir o retorno de palestinos ao território ao causar precariedade urbana e desestruturação do ambiente de forma a tornar inviável a manutenção da vida moderna no território pelo processo de desmodernização aplicado (ver Weizman 2002, 2004, 2012; Graham 2004b; Abujidi 2014).

De fato, destruir qualquer possibilidade de um futuro Estado Palestino, aniquilando a sua infraestrutura urbana e os seus símbolos culturais da paisagem, consiste em uma estratégia antiga da geopolítica de Israel para impedir a rápida urbanização palestina e seu crescimento demográfico dentro de Israel e nos Territórios Ocupados, o que poderia alterar o equilíbrio demográfico na região a favor dos palestinos (Graham, 2004b). Esse foi, inclusive, o “alerta vermelho” de Arnon Soffer, conceituado demógrafo israelense, em 2001. Segundo ele, o futuro do Estado de Israel estaria ameaçado a longo prazo pelo crescimento das cidades e aldeias palestinas. Para Soffer, o crescimento urbano proporcionado pelos palestinos configuraria uma importante mudança urbano-demográfica em desfavor dos israelenses. Graham cita os argumentos de Soffer, que faz menção à fabricação de uma ficção, de uma suposta “ameaça existencial”, talvez se referindo à ideia de um segundo Holocausto, se o crescimento populacional e processo de urbanização palestino continuasse:


O processo de urbanização em torno das fronteiras de Israel vai resultar em uma grande população árabe, que sofre com a pobreza e a fome, em torno do Estado judeu. Essas áreas tendem a se tornar um terreno fértil para a evolução de movimentos radicais Islâmicos... Na zona árabe o processo leva a uma urbanização de natureza selvagem, decorrente da ausência de uma política de planejamento e, em particular, a falta de fiscalização e aplicação da lei de construção. Todo mundo constrói como entende, e o resultado é centenas de vilarejos ilegais espalhados em todas as direções (Soffer, 2001 apud Graham, 2004b, p. 203, tradução livre). 

Apropriando-se dessa lógica, Efraim Eitam, general aposentado das FDI, concebeu os Territórios Ocupados como uma “bomba relógio demográfica e social” que a qualquer momento poderia explodir sobre Israel. Valendo-se disso, Eitam enfatizou que a construção espontânea de moradias palestinas seria um tumor cancerígeno destruindo o Estado de Israel, e que áreas urbanas e edifícios devem ser tratados, enfaticamente, como armas. Afirmações tais como as de Soffer e Eitam têm por intuito retratar áreas urbanas palestinas como territórios incognoscíveis, que abrigam “ninhos de terroristas” (Graham, 2004b).

Sendo ato deliberado para atingir objetivos políticos, ao retratar os palestinos como terroristas, Israel formula importante aspecto de legitimação de seus ataques com o propósito de alcançar o máximo de destruição e de atingir áreas civis palestinas, em que cabe o uso de linguagem de negação do “outro” e a identificação da urbanidade/espacialidade palestina como território inimigo a partir de intensa retórica de “desumanização” e “demonização”. Além das sucessivas intervenções militares e expansão dos assentamentos israelenses na Palestina, são exemplos de intensa propaganda para legitimar tanto o ataque quanto a destruição do lugar/espaço do inimigo, a campanha dos Estados Unidos de “Guerra ao Terror” que incorreram na invasão do Afeganistão e do Iraque ou mesmo as ações violentas de intervenção militar em favelas e espaços segregados do Rio de Janeiro legitimadas pelo discurso de “Guerra às Drogas”. Em todos os casos, independentemente de serem combatentes ou civis, as vítimas são retratadas como terroristas ou bandidos e o seu espaço social qualificado como ambiente perigoso ou hostil (ver com mais detalhes Abujidi, 2014; e Mendonça, 2022).

Figura

Escavadeira israelense usada como arma de guerra trabalha na destruição de edificações na Faixa de Gaza.

Fonte: desconhecida.


Referências:

ABUJIDI, N. Urbicide in Palestine: spaces of oppression and resilience. Nova York: Routledge, 2014.

GRAHAM, S. Cities as strategic sites: places annihilation and urban geopolitics In: GRAHAM, S. (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004a. p. 31-53.

GRAHAM, S. Constructing urbicide by bulldozer in the occupied territories. In: ____. Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004b. p. 192-213.

MENDONÇA, M. J. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Dialética, 2022.

WEIZMAN, E. Hollow land: Israel’s architecture of occupation. Nova York: Verso, 2012.

WEIZMAN, E. Strategic points, flexible lines, tense surfaces, and political volumes: Ariel Sharon and the geometry of occupation. In: GRAHAM, S. (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd, 2004. p. 172-191.

WEIZMAN, E. The politics of verticality. Open Democracy. Londres, Inglaterra, texto de 11 partes disponibilizado entre 23 de abril e 1º de maio de 2002. Disponível em: <http://www.opendemocracy.net/>. Acesso em: 26 de mar. 2014.

 

*Entrevista de Avraham Zerbib com legenda em português publicada na página do Instagram da Federação Árabe-Palestina no Brasil (FEPAL), 22 de janeiro de 2025. Disponível em: <https://www.instagram.com/reel/DFJPf0AOqDI/?igsh=cGtqcWkyYW5scHBj>.



domingo, 19 de janeiro de 2025

Cessar-fogo em Gaza: Quem venceu? 5 análises para entender o cenário geopolítico

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça 


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Guerra urbana na Ucrânia

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A invasão russa da Ucrânia em 2022 demonstra mais uma vez a importância das cidades no cenário de combates em ambientes urbanos. Embora as cidades fossem alvo de ações militares desde a antiguidade, uma cronologia convencional do campo de batalha moderno pode considerar a Guerra Civil Espanhola o primeiro exemplo de combate de natureza propriamente urbano. O próximo exemplo deve considerar sem dúvida a devastação urbana da Segunda Guerra Mundial, cabendo destacar as batalhas por Stalingrado e Berlim, além de mencionar o bombardeio indiscriminado de Dresden, Hamburgo e Tóquio. Embora episódios emblemáticos em que a cidade foi alvo e os combates se desenvolveram no espaço urbano, uma virada urbana mais explícita, só ocorreu com as experiências dos Estados Unidos em Mogadíscio, em 1993, com o conflito urbano travado em Sarajevo (1992-1996) e pela experiência russa em Grozny (1994-1995). E se considerarmos os exemplos mais recentes de guerra urbana no Iraque e na Síria, como parte dessa cronologia, todos incidentes denotam um “uma virada histórica para a guerra urbana”, como argumenta Anthony King (2021, p. 6, tradução livre; ver também GRAHAM, 2011; MENDONÇA, 2022; e DANIELSSON, 2024).

Tratando-se de guerra em ambiente urbano, conflitos em cidades, são um tipo de conflito que se desenvolve em áreas urbanas, com características próprias que exigem novos modos de comportamento e de atuação dos soldados por conta da presença de muitos civis e do ambiente construído que oferece complexidade extrema ao campo de batalha. Assim, a compreensão do ambiente de conflito urbano demanda uma abordagem conceitual mais ampla, que dê conta da dinâmica e complexidade de combate do espaço urbano. Nesse âmbito, o geógrafo britânico Stephen Graham (2011), especialista no tema, sugere o emprego da concepção de espaço de batalha, em vez de campo de batalha, espaço em geral amplo e aberto. Segundo argumenta Graham, o espaço de batalha não possui um front ou retaguarda, tampouco deve ser visto como uma horizontalidade, mas como um espaço profundo de várias camadas, onde o combate é sempre simultâneo à vida e a qualquer outra atividade. “O conceito de espaço de batalha permeia tudo, indo das escalas moleculares da engenharia genética e da nanotecnologia, passando pelos espaços cotidianos e experiências da vida da cidade, até esferas planetárias do espaço e o ciberespaço da internet que atravessa o globo” (GRAHAM, 2011, p. 31, tradução livre). Na perspectiva enfatizada, o espaço de batalha pode ser qualquer lugar tomado como campo de batalha, com diferentes níveis ou camadas espaciais, a partir das estruturas preexistentes do lugar, que então são manipuladas por combatentes ou construídas com finalidades militares. São lugares onde, muitas vezes, os combates ocorrem em “espaços comuns” ou “ordinários”, em meio a salas de estar, escolas, áreas industriais, hospitais e supermercados, ambientes característicos de conflitos urbanos.

Todavia, é preciso observar, que muitos dos princípios reconhecidos que caracterizam a guerra urbana e que são aplicados hoje ao cenário densamente urbanizado e de grande densidade demográfica, em cidades, já eram, aplicáveis ao período pré-moderno. Por isso, para sua melhor apreciação, aos tempos modernos, John Spencer (2021) oferece uma lista útil de oito critérios para descrever os princípios fundamentais da guerra urbana moderna que, de acordo com Morag (2023), em síntese, podem ser referidos da seguinte maneira:

1. Os defensores quase sempre têm uma vantagem tática, especialmente em cidades, embora isso não signifique que estas necessariamente terão sucesso no nível operacional ou estratégico de um conflito;

2. O terreno urbano inibe a capacidade da força atacante de usar inteligência, vigilância, reconhecimento, implantação de meios aéreos e enfrentar os defensores à distância;

3. As forças atacantes têm dificuldade em alcançar o elemento surpresa, pois eles são monitorados pelas tropas de defesa, que podem permanecer escondidos dos atacantes;

4. Os edifícios, especialmente os feitos de vigas de concreto reforçado ou de pedra, servem como bunkers fortificados a partir dos quais as forças de defesa podem disparar sobre as forças atacantes;

5. Os invasores costumam usar munições, às vezes poderosas, para acessar edifícios e negá-los às forças de defesa;

6. Os defensores têm a vantagem de uma circulação relativamente livre dentro da cidade e conhecimento íntimo das ruas, dos becos e dos labirintos — quando não estão sob vigilância ou ataque por veículos aéreos não tripulados ou por outros meios;

7. Os defensores podem construir túneis, depósitos de armas e uma série de outras instalações subterrâneas e usá-las para acessar vários locais ao redor da cidade. Os invasores geralmente têm pouco ou nenhum conhecimento sobre esses lugares;

8. Nem as forças de ataque nem as de defesa podem dispor dos seus recursos numa localização de forma concentrada. A concentração de forças é um dos fatores decisivos na guerra convencional no campo de batalha, pois, historicamente, o objetivo das operações de campo era concentrar suas forças para dizimar o exército inimigo. A incapacidade de usar forças em massa tem desvantagens para ambos os lados, mas, no caso da força de defesa em tela, que é uma força irregular, e a força de ataque, que é uma força militar moderna — o que aconteceu em muitos casos da guerra urbana moderna pós-Segunda Guerra Mundial — os recursos tecnológicos, numéricos, as vantagens de treinamento e equipamento de um exército moderno não podem, em muitos casos, ser aplicados tão eficazmente quanto seria possível em condições abertas de guerra. Assim, a força militar moderna é muitas vezes forçada a lutar junto de combatentes irregulares, com ambos os lados estando amplamente equiparados, uma vez que carregam tipos de equipamentos semelhantes, e a vantagem de treinamento que um soldado moderno tem pode ser relativamente negada pelo fato de o conhecimento do terreno proporcionar uma defesa irregular ao combatente. Além disso, os defensores irregulares geralmente têm tempo suficiente para preparar a sua cidade para o conflito, incluindo a tomada de medidas como a escavação de túneis, a construção de depósitos de munições, o estabelecimento de posições de atiradores, a implantação de armadilhas e o planejamento de emboscadas.

Dessa forma, o conflito urbano, muitas vezes uma guerra irregular, travada em áreas edificadas, difere do combate convencional, ao ar livre, tanto no nível operacional quanto no nível tático. Fatores que incluem a presença de civis e a complexidade do terreno urbano são complicadores que interferem no conflito e que implicam em produção de conhecimento e táticas para atuar no espaço urbano. Nesse sentido, embora Danielsson (2024) muito bem descreva a trajetória histórica-conceitual (2024) pela qual a ideia do urbano militar surgiu, a partir da necessidade de uma nova ordenação espacial e epistêmica de ambientes urbanos, para se referir aos modos práticos nos quais uma organização militar produz conhecimento, na busca de alcançar proficiência militar em ambiente urbano por meio de ações administrativas e de intervenções de caráter cirúrgico, que a princípio buscam gerar menos impacto ou minimizar o dano colateral. É de fato notável, que os conflitos militares na Síria, na Faixa de Gaza, além da guerra na Ucrânia, também mostram que o urbano é tratado, mesmo agora, com profundo desenvolvimento de recursos tecnólogos, como um espaço hostil, caótico e perigoso, que precisa ser domado ou até mesmo completamente destruído. Assim, ações de guerra conduzidas em espaço urbano por militares israelenses, americanos e russos, que ensejam vitórias militares no cenário urbano, visam a destruição mais substancial do espaço urbano com o propósito de atingir grupos que usam o ambiente construído como abrigo e suporte para suas operações.

As cidades e sua extensa rede urbana oferecem as forças de defesa, sitiadas em prédios e outras estruturas urbanas, uma defesa significativamente baseada no espaço urbano por meio de esconderijos e defesas montadas no ambiente construído. Vale dizer que combatentes abrigados no espaço urbano, também podem contar, com as vantagens de extensa cobertura da estrutura civil oferecida no combate urbano. Diferente de espaços amplos e abertos, ambientes urbanos de combate são muito próximos; assim, dentro e ao redor dos edifícios, é muito difícil garantir a segurança de não-combatentes.

Isto limita a liberdade de movimento das forças invasoras convencionais e os torna mais vulneráveis a ataques, enquanto as mortes de civis e a danos em propriedades podem beneficiar as forças de defesa irregulares, atraindo atenção e ira contra as forças invasoras. A morte de inocentes numa cidade pode influenciar a opinião pública por parte dos habitantes na direção de fornecer apoio crescente às forças irregulares e alimentar maior ódio às forças invasoras. Assim, os defensores urbanos desfrutam de uma grande gama de vantagens, não apenas taticamente, mas também em termos de impacto local, nacional, e opinião global, algo que pode influenciar a política do país invasor, bem como suas relações com seus aliados e parceiros comerciais (MORAG, 2023, p. 81, tradução livre).

Nesse aspecto, as cidades ucranianas têm oferecido inestimável obstáculo as ações ofensivas das forças russas que

[...] buscam a ocupação de assentamentos e cidades após a supressão e destruição das poderosas fortificações ucranianas, depósitos de munições e esgotamento de suas reservas, impulsionando avanços de infantaria leve e mecanizada apenas com a retirada de forças ucranianas ou destruição amplas de suas unidades. Tal metodologia de combate se baseia fortemente na doutrina empregada na Segunda Guerra da Chechênia e na intervenção militar na Síria, no qual danos significativos à infraestrutura urbana são inseridos no contexto de eliminação completa da resistência e posterior avanço para eliminação de unidades remanescentes, porém esgotadas (LATERZA et al., 2023, p. 102.)

No cenário de guerra no leste ucraniano, as forças ucranianas implementaram extensas defesas em profundidade ao longo de toda a linha de contato com as regiões de Donetsk e Lugansk, que em sinergia com as cidades, tem exigido muitos recursos e alto nível de tolerância de perdas em vidas e material por parte dos russos. Vale ressaltar, para os defensores ucranianos, as cidades tem oferecido inúmeras possibilidades de deter e neutralizar as investidas russas que precisam avançar com cuidado diante do risco de serem atraídos para uma armadilha. Até o momento os russos não conquistaram nenhuma cidade que possa se definir como grande, seja em aspecto demográfico ou densidade urbana, tendo em vista que os avanços em direção a Kiev e Kharkiv, as maiores cidades ucranianas, foram impedidas por feroz resistência baseada no espaço urbano. A conquista de densos núcleos urbanos são operações complexas diante da presença de edifícios altos, áreas industriais, escolas, hospitais, centros de distribuição de energia, além de ruas e avenidas de diferentes tamanhos, dentre outras estruturas presentes na extensa rede urbana da Ucrânia (ver LATERZA et al., 2023). 

Como Rodolfo Laterza et al. (2023) nos ajudar a entender, as cidades ucranianas proporcionam muitas possibilidades aos defensores que estão conseguindo êxito em desgastar as tropas russas que se aventuram em terreno urbano. Os avanços de blindados pelas ruas os tornam alvos fáceis, helicópteros igualmente são vulneráveis ao fogo de sistemas de defesas instados na cidade, enquanto que a infantaria, para avançar, deve limpar cada edificação antes de prosseguir, tornando o avanço lento e penoso com alto custo em vidas devido à resistência urbana, às armadilhas, às emboscadas e demais dispositivos improvisados instalados no terreno urbano, em ruas e edifícios. Por isso, ao assumir o comando das operações militares russas na Ucrânia, em outubro de 2022, o general Sergei Surovikin, conhecido como “general Armagedom”, adotou modificações táticas e na estratégia militar russa e a fim de evitar baixas e perdas de material, os russos agora a fim de facilitar a progressão no terreno urbano, procuram cercar as cidades e usar fogo de artilharia para destruir obstáculos e limpar o terreno, com o objetivo de depreciar as defesas ucranianas.

Ainda de acordo com Rodolfo Laterza et al. (2023), essa tática cumpre o objetivo de suspender o abastecimento das tropas entrincheiradas na cidade e assim afetar as condições de subsistência da resistência ucraniana. Nesse âmago, os ataques de artilharia além de destruir fortificações, esconderijos, equipamentos e munições inimigas, objetivam também nivelador o espaço urbano, ao destruir edifícios, diminuindo o fator vertical de complexidade de várias camadas do espaço de batalha, presente nos edifícios. Construções altas são eventualmente usadas como ponto de observação e disparo de atiradores e armas antitanque contra tropas que avançam pelas ruas. Outro fator de complexidade do espaço urbano ucraniano, são a presença de túneis e áreas industriais, uma característica da herança soviética, portanto, comuns nas cidades ucranianas, que oferecem um teatro de batalha de múltiplas camadas, isto é, de vários volumes, no campo de batalha.

Embora os russos agora evitem invadir os principais centros urbanos, o avanço pelo terreno no leste ucraniana, necessariamente precisa lidar com a questão urbana. Assim visto, na medida em que as cidades ucranianas passaram a ser usadas para desgastar as forças russas, os generais de Putin, implementaram o arranjo tático de destruição massiva do espectro urbano com ataques de artilharia e bombardeios aéreos pesados com o propósito de enfraquecer as defesas ucranianas e modelar o campo de batalha a favor dos russos, favorecendo o avanço das tropas invasoras no vazio urbano destruído, para só em seguida ocupá-las. No entanto, a guerra urbana na Ucrânia não é uma questão circunscrita apenas ao elemento militar, propriamente dito, uma vez que, o cenário ucraniano ainda oferece outras camadas adicionais de complexidade para os russos, ao lidar com o problema das cidades. Além da dificuldade de avanço pelo terreno urbano, muitas cidades ucranianas são habitadas por expressiva população russa. Segundo historiadores russos a cidade de Kiev constitui o berço da civilização russa e, portanto, possui um importante vínculo cultural e uma forte identidade com a civilização russa, não sendo, de forma alguma, uma opção a sua destruição completa (ver LATERZA et al., 2023).

Dessa forma, podemos evidenciar que os russos procuram evitar grandes centros urbanos ucranianos pelas dificuldades impostas ao avanço militar sobre o terreno urbanizado; também por questões sensíveis de identidade e possíveis danos a arquitetura e histórica russa compartilhada com os ucranianos. Em seu avanço pelo leste ucraniano, os russos têm optado por ataques contra assentamentos urbanos pequenos e médios, embora de significativo valor, estes centros minimizam um pouco o número de perdas entre a população civil e exigem menor demanda do efetivo de tropas russas em relação a uma incursão em Kiev, hoje, por exemplo, fora dos planos de Moscou.

Assim, é importante destacar, que a tática de destruição de cidades e vilas ucranianas, mesmo massiva, não visa uma destruição total e definitiva do espaço urbano ucraniano. Deve-se lembrar que os assentamentos ucranianos são lugares habitados também por russos, por isso, as ações militares de Moscou não devem ser vistas apenas como guerra de conquista e destruição infame ou sem sentido, mas sim, uma ação militar de ocupação e organização do espaço cultural e político russo na região em sentido estratégico. Por esse aspecto, sobretudo, no âmbito do urbicídio* aplicado na Ucrânia, embora genuíno, em suas características destrutivas, também implica em urbanização como medida de (re)territorialização dos interesses de Moscou e da população russa naquela região.

 

* Por urbicídio entende-se as práticas e meios militares destinados, com fins políticos, que visam, no fundo, além de vencer o inimigo, a destruir o seu habitat, negando-lhe a cidade e o espaço urbano como substrato de reprodução ou esconderijo. Dessa maneira, o que estamos vendo na Ucrânia é um processo de destruição do espaço urbano com o objetivo de negá-lo ao inimigo como espaço de resistência. Trata-se, em termos simples, de uma forma de violência contra a cidade e seus habitantes, em outras palavras, de uma ação deliberada de destruição do ambiente construído e da urbanidade que propicia a vida na cidade, com a intenção de atingir pelo uso da força uma finalidade política (para mais detalhes, ver MENDONÇA, 2022).

 

Referências

DANIELSSON, Anna. The emergence of a military urban in and of war. Annals of the American Association of Geographers, p.1-15, nov. 2024.

GRAHAM, Stephen. Cities under siege: the new military urbanism. Londres: Verso, 2011.

KING, Anthony. Urban warfare in the twenty-first century. Cambridge, RU: Polity Press, 2021.

LATERZA, Rodolfo Queiroz [et al.]. Guerra na Ucrânia: análises e perspectiva: o conflito militar que está mudando a geopolítica mundial. São Paulo: D´Plácido, 2023.

MENDONÇA, Márcio José. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Dialética, 2022.

MORAG, Nadav. Urban warfare: the recent Israeli experience. Journal of Strategic Security, v. 16, n. 3, p. 78-99, 2023.

SPENCER, John. The eight rules of urban warfare and why we must work to change them. Modern War Institute, 1º de dezembro de 2021. Disponível em: <https://mwi.usma.edu/the-eight-rules-of-urban-warfare-and-why-we-must-work-to-change-them/>. Acesso em: 6 de janeiro de 2024.




sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Palestina Livre 2025

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Como os mais atentos as atividades e publicações de nossa página já estão cientes, estamos concluindo o livro “Guerra dos Drones: análise e perspectiva do campo de batalha”. Este livro será lançado ainda no primeiro trimestre de 2025. Contudo, muitos outros projetos nos aguardam em 2025. Além do livro que irá analisar o impacto e transformação do campo de batalha pela introdução dos drones em cenário de guerra, estamos dando início ao projeto de desenvolvimento de um segundo livro, sobre o tema da guerra na Faixa de Gaza.

Assim, o livro “Palestina Livre: 500 dias de combate e resistência palestina ao extermínio israelense na Faixa de Gaza”, irá analisar os acontecimentos na Faixa de Gaza desde o dia 7 de outubro, com foco nas formas de combate da resistência palestina baseadas em terreno urbano contra a ocupação e extermínio dirigido por Israel. Para tanto, o livro além de analisar o contexto do combate em terreno urbano, ou seja, da guerra em ambiente urbano, pretende focalizar com destaque, as táticas e formas de organização da resistência armada palestina na Faixa de Gaza.

Este projeto consiste numa versão ampliada do trabalho publicado em julho de 2024, pela revista Ensaios de Geografia, com o título de “Guerra urbana em Gaza: 100 dias de combate entre Israel e Palestina” (https://periodicos.uff.br/ensaios_posgeo/article/view/61784), que agora, ampliado e revisto, almeja realizar uma análise mais profunda do campo de batalha e do esforço de guerra da resistência palestina.

Desde agora, todos estão convidados a conhecer um pouco sobre as formas de luta e organização da resistência palestina. Que a verdade e o rigor acadêmico guiem cada palavra e virgula dessa história. 

Ilustração de divulgação

sábado, 28 de dezembro de 2024

Guerra das máquinas e o futuro do campo de batalha

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

O teatro de guerra na Ucrânia tem produzido uma intensa corrida tecnomilitar entre russos e ucranianos com emprego de diversos tipos de robores terrestres e drones no campo de batalha. Em 16 de dezembro, os ucranianos anunciaram o primeiro assalto totalmente robotizado em trincheiras no campo de batalha, com emprego de dezenas de veículos terrestres não tripulados equipados com metralhadoras e minas terrestres, apoiados com o suporte aéreo de drones kamikazes de visão em primeira pessoa, operando em conjunto e total sinergia em um ataque realizado nas imediações de Kharkiv. O emprego combinado desses equipamentos, segundo os ucranianos, garantiu o avanço seguro da infantaria no terreno tomando posições russas na área norte de Kharkiv.

Tais inovações tecnológicas no campo de batalha fazem parte da implementação de um programa ucraniano, chamado Brave1 (Ukranian Defense Innovations), que busca alcançar uma série de soluções tecnológicas inovadoras em cenário de combate a partir do emprego de inteligência artificial e guerra eletrônica. Esse avanço tecnológico reflete a tentativa da Ucrânia de superar limitações de mão de obra para evitar baixas humanas no campo de batalha, enquanto os russos também têm desenvolvido suas próprias soluções criando uma competição tecnológica entre os dois países.

Neste momento há diversos robôs atuando no campo de batalha como apoio de fogo e suporte logístico. São exemplos os cães robôs que são usados em missões de patrulhamento e entrega de suprimentos. Estes robôs são ágeis e podem atuar em terrenos difíceis para localizar armadilhas e minas terrestres, além de transportar cargas e armamentos. Na guerra robótica, outro destaque são os robôs kamikazes, um tipo de drone terrestre que pode realizar missões de ataque kamikaze, transporte de suprimentos e criação cortinas de fumaça, entre outros usos. Mas a principal aplicação de veículos kamikaze consiste no pronto emprego em missões suicidas, implantado minas terrestres antipessoais ou explosivos para destruir tanques e fortificações mantendo os operadores em distância segura.

No teatro ucraniano, os robôs de apoio de fogo estão emergindo como ferramentas crucias no campo de batalha moderno, integrando tecnologia avançada com táticas militares para alcançar maior eficiência, precisão e segurança. Estes robôs já estão operando de forma autônoma por meio do avanço de implementação de inteligência artificial. Dessa forma, as introduções dessas armas acrescentam novas camadas de complexidade no campo de batalha e dão um deslumbre das guerras do futuro altamente robotizadas, um verdadeiro campo de batalha cyber tecnológico.

A operação militar na Ucrânia, seguida pelo conflito na Palestina, provou que o conflito moderno, seja em trincheiras, seja nos mares, seja nas cidades, é diferente daqueles que vimos até o século XX. Na guerra moderna os sistemas automatizados, equipamentos controlados remotamente à distância, versáteis e furtivos, como os drones e robores terrestres, estão conquistando espaço e são fundamentais no campo de batalha em inúmeras aplicações. Isso não significa que a infantaria tenha perdido sua importância; ela continua indispensável para atacar, ocupar e manter o terreno. No entanto, sem o apoio de drones e outros sistemas robotizados as tropas em solo e os equipamentos militares no campo de batalha tornam-se vulneráveis e podem até mesmo se tornar obsoletos. Em guerras que, independentemente do ambiente, dependem cada vez mais de sistemas que proporcionem consciência situacional, os diversos tipos de drones e veículos terrestres não tripulados são fundamentais para missões de ataque, transmissão de informações e codificação de dados.  


Drone terrestre ucraniano instala barreiras de minas antitanque no terreno. 

Fonte: “Guerras pelo mundo”, no Instagram, 26 de janeiro de 2024.




domingo, 15 de dezembro de 2024

Top 5 análises para entender a queda de Bashar al-Assad e os últimos acontecimentos na Síria

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

(Pepe Café) Síria: uma tragédia interminável: https://www.youtube.com/watch?v=E3BLED0X9h4

(Pepe Café) Síria pós-Assad: a morte de uma nação: https://www.youtube.com/watch?v=7mS50EK8lZc

(Brasil 247) Forças do Brasil –  Síria: Vitória de Pirro: https://www.youtube.com/watch?v=6oxw2vHBfB8

(Anitablian) Urgente / A Síria não existe mais: https://www.youtube.com/watch?v=wpR6F4rOYOg&t=1272s

(Opera Mundi) Qual o futuro da Síria? – Paulo Sérgio Pinheiro – programa 20 minutos: https://www.youtube.com/watch?v=bfGMaP3UAeg&t=3639s 

Bashar al-Assad (ex-presidente da Síria)


Geopolítica da Copa: Argentina

Prof. Dr. Márcio José Mendonça A Geopolítica , enquanto campo de análise das relações de poder entre Estados, territórios e atores globais, ...