sábado, 26 de abril de 2025

Gaza: cessar-fogo de mentira e futuro incerto

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

    Em resumo a proposta de cessar-fogo entre Israel e o Hamas consistia numa iniciativa em três etapas: primeiro um cessar-fogo temporário com a interrupção das hostilidades e a libertação de todos os israelenses mantidos em Gaza em troca de prisioneiros palestinos mantidos por Israel – essas iniciativas deveriam ser seguidas de entrada de ajuda humanitária em Gaza, que foram sistematicamente interrompidas por Israel – ; após essa etapa um cessar-fogo permanente acompanhado da retirada completa das tropas de Israel da Faixa de Gaza – que mais uma vez, também não foram cumpridas por Israel, que insiste em criar uma zona de amortecimento e de manter suas tropas ao longo de toda a franja interna de Gaza e ao longo da Rota 749, dividindo Gaza em duas – ; e só então, finalmente, a terceira etapa deveria entrar em vigor, com o processo de reconstrução da Faixa de Gaza, outro aspecto, que Israel a todo custo também deseja impedir.

    No entanto, além dos termos do acordo, importa avaliar, ainda que em perspectiva, a conjuntura geopolítica e as consequências do conflito a médio e longo prazo para palestinos e israelenses. Nesse sentido, sem a pretensão de esgotar o assunto ou de prever a evolução dos próximos acontecimentos, trata-se de avaliar, em primeiro lugar, os resultados concretos do campo de batalha, em vez de se basear pura e simplesmente em especulações e acordos que muitas vezes não são cumpridos. Para tanto, é importante destacar alguns pontos que podem ser levados em consideração, sem apresentar posições definitivas, que se resumem, a seguir, nos seguintes pontos em análise:

· Israel mesmo derrotado no campo de batalha, conseguiu uma importante vitória no cenário geopolítico regional, eliminado importantes lideranças das facções palestinas e do Hezbollah. Nesse ponto, alcançou êxito ao afastar a presença e diminuir a influência do Irã na região, uma vez que se beneficiou diretamente da queda de Bashar al-Assad, na Síria. Com a retirada do ex-presidente sírio do poder, não só a conexão Hezbollah-Irã fica prejudicada, mas a projeção de poder regional iraniana que estabelecia importante frente do “Eixo da Resistência” ao colonialismo e presença ocidental no Oriente Médio.

· A resistência palestina abre um novo capítulo da história de luta anticolonial e anti-imperialista. Suas ações no campo de batalha e formas de organização e de combate em ambiente urbano, podem ainda, influenciar e inspirar outras nações e povos oprimidos que lutam por sua soberania e independência.

· Israel não conseguiu neutralizar ou destruir o Hamas e o apoio popular dos palestinos de Gaza ao grupo aparentemente continua intacto.

· Israel também não conseguiu expulsar a população palestina da Faixa de Gaza embora a situação demográfica de quase dois milhões de palestinos seja incerta em favor dos interesses israelenses. É digno de observação, que as forças de ocupação, podem manipular o jogo político e usar de outros meios para fragmentar o território de Gaza ou forçar uma expulsão lenta e gradual de palestinos da região.

· A narrativa e os meios de propaganda israelenses foram seriamente afetados num processo em que a opinião pública mundial foi fortemente balançada a favor de uma opinião pró-palestina. Em virtude de inúmeros casos de abusos de prisioneiros, crimes de guerra e acusação de genocídio, a opinião pública mundial agora enxerga Israel como uma força de ocupação.

· A dimensão da crise humanitária na Faixa de Gaza pode escalonar com a destruição ampla e mássica da infraestrutura urbana e impedimentos de entrada de ajuda humanitária em Gaza. Nesse ponto, os meios e a capacidade de reconstrução da Faixa de Gaza certamente determinarão o rumo de acontecimentos futuros, sendo arriscado qualquer previsão, em virtude do campo político tensionado e incerto no momento.

· Os palestinos demonstraram incrível capacidade de luta em ambiente de combate urbano. Contudo, mesmo contando com apoio de alguns governos e grupos paramilitares que financiam e apoiam militarmente a resistência armada, o Hamas e demais grupos palestinos, não contam com o apoio direto de nenhuma potência global e aparentemente salvo o apoio do Irã, do Hezbollah e dos houthis iemenitas, continuam em fragrante isolamento diante de forte aliança ocidental com os interesses de Israel.

· A sociedade israelense está fracionada por disputas e interesses internos entre diferentes facções que disputam o poder e o governo em Israel. A crise instalada com a adoção da Diretiva Hannibal pelos militares e pouca iniciativa do governo de Benjamin Netanyahu em alcançar uma solução rápida para o retorno dos reféns, pode num futuro próximo, dividir ainda mais a sociedade israelense e produzir grande instabilidade.

· Israel enfrenta uma profunda crise econômica por conta do aumento dos gastos militares que podem impactar a sociedade israelense nos próximos anos.

· O conflito também estimulou um intenso fluxo de emigrantes que deixaram Israel desde o início das tensões e hostilidades com os palestinos.

· Israel historicamente não cumpre os acordos internacionais e entidades e organismos internacionais como a ONU, pouco ou nada fazem em relação as violações e negativas de Israel nesse âmbito. Por esse histórico, é duvidoso se Israel cumprirá qualquer tipo de acordo de paz.

· Os dois principais grupos políticos palestinos, o Hamas e o Fatah, ainda continuam divididos, embora a sociedade palestina tenha demonstrado grande capacidade de unidade, resiliência e resistência.

    É difícil ainda afirmar diante de inúmeras incertezas e variáveis sensíveis no cenário geopolítico, quem venceu, logrou maiores ganhos ou ainda pode se beneficiar do resultado da batalha em Gaza. Se a pergunta se refere explicitamente aos combates em Gaza, o Hamas saiu vencedor, haja visto que a organização não foi eliminada por Israel e foi capaz de resistir por longo tempo, causando muitas baixas aos combatentes e destruição de equipamentos israelenses. Se a pergunta invoca o cenário geopolítico, mesmo Israel saindo profundamente abalado no cenário mundial, em termos de governo, Benjamin Netanyahu se mantém no poder com o apoio estadunidense, situação que no plano geopolítico, com anuência de entidades e organismos internacionais controlados pelo imperialismo, permitem que Israel futuramente pratique outras violações contra a comunidade palestina.

    Ainda assim, os palestinos conquistaram uma grande vitória. Pela primeira vez os palestinos e seus apoiadores, conseguiram “cancelar” Israel e impor uma derrota midiática ao lobby sionista usando das redes sociais para denunciar a brutalidade do genocídio israelense em Gaza. Nunca antes a propaganda israelense falhou em manipular a narrativa e proteger Israel, encobrindo seus crimes, enquanto “demonizava” palestinos e justificava suas ações perante aos veículos de comunicação globais.

    Como inúmeras vezes declarou, Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), os ataques de Israel em Gaza dão conta do “primeiro genocídio televisionado da história”. Em virtude da amplitude da destruição e alto número de mortes de civis palestinos no conflito, crimes de guerra de Israel que incluem vídeos de crianças e mulheres atingidos por bombas e ataques indiscriminados em hospitais e escolas, foram repercutidos na internet por meio de telefones móveis e agora são de conhecimento público.

    O espetáculo da libertação dos reféns israelenses pelo Hamas após a assinatura do cessar-fogo, são outro episódio tratado como um desastre de propaganda por Israel. Enquanto que prisioneiros palestinos foram libertos por Israel como parte do acordo de cessar-fogo em situação de saúde precária e inúmeras denúncias envolvendo casos de torturas e maus tratos de palestinos nas prisões israelenses vieram ao conhecimento público. Os reféns israelenses além de serem vistos em bom estado de saúde física e mental nas cerimônias de entrega de reféns, relataram que receberam tratamento digno no cárcere, situação muito diferente que vivenciam os presos palestinos em Israel.

    Finalmente, em vez de apresentar algumas conclusões definitivas que certamente seriam apresadas, procuramos listar alguns pontos que podem ajudar a avaliar a situação e a conjuntura na região. Ainda assim, é importante ressaltar que não se trata de definir os rumos dos acontecimentos, mas de mostrar, apenas, que a guerra em Gaza ainda não terminou e que novos capítulos serão escritos, seja no campo de batalha ou na mesa de negociação nos próximos tempos. Após quebrar o cessar-fogo em Gaza e realizar um ataque que matou mais de quatrocentos palestinos, no último dia 18 de março, e outras sucessivas ações de violação e ataques visando civis em campos de refugiados, Israel agora também concentra suas ações na Cisjordânia. A resistência palestina também continua.



quarta-feira, 2 de abril de 2025

Guerra e urbanização no leste da Ucrânia

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

A história da Ucrânia está repleta de manifestações de urbicídio em vários episódios em que cidades foram alvo de intervenção militar. Antes da invasão russa de fevereiro de 2022, a destruição de cidades no território ucraniano, processo com sinais de urbicídio* parcial, ocorreu no conflito de 2014-2016 em áreas urbanas de Donbas. De acordo com Slyvka e Zakutynnska (2016), na ocasião as regiões de Donetsk e Lugansk sofreram expressivas perdas de assentamentos urbanos, com significativos impactos sociais, destruição total ou parcial de moradias e infraestrutura, resultando em diminuição da densidade populacional em 20,2%.

Entre abril de 2014 e junho de 2016, as motivações do conflito entre ucranianos e russos estiveram vinculadas às demandas dos manifestantes no Leste que incluíam um referendo sobre a federalização da Ucrânia e o reconhecimento da língua russa como segundo idioma do país. Esse cenário de profunda crise evolui, entre outras razões, pelo aumento de hostilidades entre russos e ucranianos após a deposição do presidente Viktor Yanukovych, tido como um político pró-russo e aliado do presidente Vladimir Putin. O desenvolvimento das tensões entre russos e ucranianos, que foram acompanhadas de episódios de violência e perseguição contra russos em várias cidades ucranianas, estimulou as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk, de maioria russa, a reivindicarem sua separação da Ucrânia por meio da realização de um referendo popular, ainda em maio de 2014, quando os confrontos se intensificaram.**

Os conflitos armados ocorreram em áreas densamente povoadas da região de Donbas, com os grupos separatistas russos concentrando suas atividades na captura de estruturas administrativas e unidades militares. Grupos armados ucranianos, formados pelo exército, polícia militar (Guarda Nacional), Serviço de Segurança Nacional (NSS) e batalhões “voluntários”, como o Batalhão Azov,*** se opuseram aos separatistas russos. A maioria dos conflitos entre forças ucranianas e russas se concentraram em áreas urbanas e desde o início tiveram como objetivo a destruição de edifícios e infraestrutura urbana (SLYVKA, ZAKUTYNNSKA, 2016). 

Com o aumento do uso de armamento pesado, incluindo artilharia, mísseis, tanques e aviação militar, houve a destruição deliberada de edifícios e serviços urbanos críticos, como água e eletricidade. Com a invasão russa de 2022,**** a formação de uma linha de confronto entre forças ucranianas e forças pró-Rússia, agora com a presença do Exército russo em suas frentes de combate, evolui para uma extensa linha de contato, uma típica “zona tampão”, cujas manifestações de urbicídio mais severas, com a destruição de cidades por completo, se concentram nas áreas que percorrem a linha de combate entre ambas as forças. À medida que os combates se desenvolvem e as cidades e os assentamentos urbanos são implicados na dinâmica espacial do conflito, o campo de batalha tem se deslocado para os centros urbanos.

Segundo Kostyantyn Mezentsev e Oleksii Mezentsev (2022), somente nos primeiros 100 dias do início da invasão russa, em 2022, 147 cidades, aproximadamente um terço de todas as cidades da Ucrânia, foram significativamente atingidas por bombardeios ou combates urbanos. Nos ataques e combates urbanos, além de alvos militares e estratégicos, edifícios de valor simbólico, centros culturais, monumentos e uma ampla infraestrutura urbana sem aparente significância militar também foram destruídos. Embora K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) procurem mostrar o impacto dos ataques russos na estrutura urbana, deve-se considerar que as forças ucranianas também contribuíram com a destruição direta de edifícios e infraestrutura nos combates urbanos. Como força atacante os russos cercaram e sitiaram muitas cidades e assentamentos urbanos; contudo, o papel das forças ucranianas no cenário de guerra urbana não deve ser negligenciado, tendo em vista, por exemplo, os ataques com uso de drones e mísseis no interior da Rússia visando a centros urbanos e estruturas civis.

Pode-se afirmar que a destruição urbana é maior na zona de contato entre ambos os exércitos, onde a estrutura urbana tem sido assimilada ao contexto do combate, e o próprio espaço urbano consiste no campo de batalha. O emprego ucraniano dos assentamentos urbanos em apoio operacional e como defesas urbanas fortificadas e a crescente militarização dos espaços urbanos cotidianos e da infraestrutura das cidades colocam as cidades e a vida urbana na retórica da guerra com as disputas entre russos e ucranianos produzindo uma expressiva fragmentação do espaço urbano, envolvida em disputas territoriais e dinâmicas de des-re-territorialização.***** Nesse sentido, ambas as forças beligerantes visam a destruição da heterogeneidade, que é a essência da urbanidade, com o propósito de (re)territorializar a sua própria dinâmica urbana, marcada agora por um antagonismo pró-Rússia, fundado em uma visão da vida urbana e das cidades russas inscritas numa nostalgia soviética em confronto com o modo de vida ucraniano, ocidentalizado, que procura se apresentar moderno e em constante desenvolvimento, portanto, em aparente progresso.

É justamente nesse sentido que K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) indicam bem que a destruição de cidades e estruturas urbanas na Ucrânia tem sido planejada não só para atingir objetivos militares. O urbicídio ucraniano, para eles, além de toda a destruição, implica morte das cidades, motivada pela fuga e despovoamento dos assentamentos urbanos por causa da saída de moradores. Mariupol, uma cidade portuária e importante centro econômico, com mais de quatrocentos mil habitantes no início de 2022, é exemplo da dinâmica e dos processos de des-re-territorialização inscritos no contexto da guerra.****** Além de uma remoção forçada de moradores da cidade por causa dos combates, agora uma dinâmica de (re)territorialização pró-Rússia assume um caráter altamente excludente, em que se ignora qualquer identidade que não seja a russa e se promove um retorno nostálgico à vida urbana soviética, excluindo, de todas as maneiras, a presença de ucranianos que vivem naquela cidade.

Segundo o relatório da Human Rights Watch, “Our city was gone”: russia’s devastation of Mariupol, Ukraine (2024), o ataque russo em Mariupol******* (ver Figura 1) foi um dos mais destrutivos desde o início da guerra na Ucrânia, quando as forças russas e afiliadas fizeram uso de armas de vários tipos, incluindo bombardeios de tanques e artilharia pesada, lançadores de foguetes, mísseis e ataques aéreos em áreas povoadas. Esse tipo de armamento em áreas urbanas teve impactos devastadores sobre civis e infraestrutura urbana, deixando milhares de civis mortos e uma extensa destruição, que atingiu centenas de prédios residenciais, hospitais, instalações educacionais e infraestrutura de eletricidade e água. Além da destruição, o relatório também destaca que desde a ocupação da cidade as autoridades russas estão construindo novos edifícios residenciais como parte de seu plano declarado de reconstruir e urbanizar Mariupol até 2035. Em Mariupol as forças ocupantes estão eliminando características da identidade ucraniana por meio da destruição de referências culturais e simbólicas da paisagem da cidade, mudando o nome de ruas e incluindo a imposição de um currículo escolar russo. Além disso, estão exigindo que os residentes obtenham passaportes russos para fins de identificação e aquisição de benefícios. Famílias atingidas pela guerra e que perderam suas casas, para receber um imóvel reformado e oferecido pelo governo russo, precisam trocar seus antigos passaportes pelo passaporte russo.

Figura 1

Avanços das operações russas no primeiro ano da guerra com destaque

para o cerco e conquista de Mariupol 

Fonte: Alfredo Mergulhão, Luciano Ferreira e Paulo Assad, “Guerra na Ucrânia: entenda o primeiro ano do conflito em quatro mapas”, para O Globo (2013).

Em Mariupol a reconstrução da cidade é conduzida diretamente pelo Ministério de Defesa da Rússia. Sob administração russa, a cidade voltou a exibir símbolos soviéticos em monumentos. Desde que a cidade foi declarada “libertada” pelo presidente russo Vladimir Putin, em abril de 2022, a cidade passou a exibir os nomes de revolucionários do período soviético, além de símbolos antifascistas, que agora estampam os prédios do intenso processo de reconstrução da cidade. De acordo com Stefani Costa, 


Um dos locais que prova o desejo de uma rápida revitalização da região é Azovstal, considerado um dos maiores complexos siderúrgicos da Europa antes da sua destruição em março de 2022. A restauração do monumento em homenagem aos trabalhadores da fábrica que perderam as suas vidas durante a Grande Guerra Patriótica (como os russos chamam a Segunda Guerra Mundial) é um sinal de que os escombros, que cercam o belíssimo tributo à classe trabalhadora, já têm os seus dias contados (2024).

No monumento, um marinheiro, um trabalhador e um soldado, sob os símbolos da “foice e o martelo”, que formam a insígnia da bandeira soviética, dão as boas-vindas aos que se aproximam do que restou da siderúrgica depois que o Exército russo venceu as batalhas pelo complexo siderúrgico, culminando na rendição dos últimos soldados do Batalhão Azov, que se escondiam no interior de Azovstal (ver Figura 2). Outro exemplo icônico da (re)territorialização russa na cidade é o monumento no porto de Mariupol, que, agora repaginado, carrega as cores russas em vez do amarelo e azul da bandeira ucraniana (ver Figura 3).

Figura 2

Fachada do complexo metalúrgico e siderúrgico de Azovstal

Fonte: Stefani Costa, “Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos”, para Opera Mundi (2024). 



Figura 3

Monumento russo no Porto de Mariupol

Fonte: Stefani Costa, “Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos”, para Opera Mundi (2024). 

Para K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022), o que ocorreu em Mariupol e outras cidades ucranianas******** não foi apenas expulsão sistemática da população ucraniana e (re)territorialização russa, mas também substituição das antigas moradias e edifícios danificados por estruturas e moradias de baixa qualidade, com o intuito de produzir em tempo recorde uma urbanização fortemente amparada na identidade e cultura russa. Após o fim dos combates na cidade e estabilização do front, ainda em outubro de 2022, o Ministério de Construção e Habitação da Rússia divulgou um plano de repovoamento de Mariupol, que estabelece com bastante ênfase um programa de recuperação econômica da cidade. Segundo a matéria de Stefani Costa (2024), Moscou pretende, com isso, transformar Mariupol em um dos símbolos da recuperação das cidades retomadas durante a guerra; para tanto, busca torná-la um importante centro econômico e também uma referência da cultura russa na região.*********

O caso de Mariupol e os de outras cidades sob ocupação russa são certamente exemplos de sinais de urbicídio, que agora se materializam não pela destruição massiva de edifícios e infraestrutura urbana, mas pelo controle socioespacial e exclusão que caracterizam o urbicídio indireto de um modelo de reconstrução que visa instaurar uma homogeneidade territorial pró-Rússia. A urbanização do urbicídio não é um fenômeno exclusivo da Ucrânia. Na Palestina, com a construção de assentamentos israelenses em Território Palestino Ocupado (ver, por exemplo ABUJIDI, 2014), ou na Síria, com a reconstrução de cidades destruídas pela guerra (ver, por exemplo SHARP, 2016), os mecanismos de controle e segregação socioespacial instauram uma nova territorialidade. Na Ucrânia esse processo assume uma magnitude nunca antes vista. Assim que os combates cessam, soldados e tanques dão lugar aos operários e escavadeiras, e rapidamente o campo de batalha se transforma em um grande canteiro de obras. Este novo arranjo espacial visa a configuração de uma ordem socioespacial amparada em mecanismos de controle e exclusão da população ucraniana, em que a urbanização do urbicídio assume papel de destaque na configuração de um amplo guarda-chuva de proteção no entorno estratégico de influência russa.**********

* Por urbicídio entende-se as práticas e meios militares destinados, com fins políticos, que visam, no fundo, além de vencer o inimigo, a destruir o seu habitat, negando-lhe a cidade e o espaço urbano como substrato de reprodução ou esconderijo. Dessa maneira, o que estamos vendo na Ucrânia é um processo de destruição do espaço urbano com o objetivo de negá-lo ao inimigo como espaço de resistência. Trata-se, em termos simples, de uma forma de violência contra a cidade e seus habitantes, em outras palavras, de uma ação deliberada de destruição do ambiente construído e da urbanidade que propicia a vida na cidade, com a intenção de atingir pelo uso da força uma finalidade política. Para mais detalhes, conferir “Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro” (MENDONÇA, 2022). Link de acesso: https://loja.editoradialetica.com/humanidades/espaco-de-batalha-e-urbicidio-na-cidade-do-rio-de-janeiro?srsltid=AfmBOore8yHTMxe1suy-TEETL3ZGYsmg_oZewQpSx5JF7z6qGd5vw3V2

** Sobre as motivações e cenário geopolítico que influíam nas hostilidades entre ucranianos e russos, consultar Tomasz Konicz (2022). Sobre as manifestações e agitação civil vividas na Ucrânia entre 2013 e 2014 que incorreram na queda de Viktor Yanukovych, episódio que se tornou conhecido como Euromaidan, ver os documentários de Paul Moreira, “Ukraine: the masks of revolution” (2016), que mostra a interferência estrangeira nos protestos e a forma como questões internas da Ucrânia foram manipuladas, numa espécie de golpe brando, para derrubar Yanukovych; de outro ponto de vista, mais favorável às reivindicações ucranianas, mas ainda assim nos moldes de uma revolução colorida, consultar o documentário de Evgeny Afineesvky, “Winter on fire: Ukraine’s fight for freedom” (2015). Para uma visão de como movimentos de ativismo e manifestações democráticas de ordem nacional podem ser instrumentalizados por interesses externos, sugiro assistir, com um olhar crítico, o documentário de Richard Shaw, “Gene Sharp – how to start a revolution” (2011).

*** O Batalhão Azov foi fundado em 2014 como um batalhão de defesa territorial durante a guerra na região do Donbas. O regimento militar era formado por voluntários nacionalistas, criado para preencher a lacuna das defesas militares ucranianas. Em 2022 o regimento ganhou destaque durante a invasão russa da Ucrânia por lutar contra as forças russas na cidade de Mariupol. Após meses de combates intensos pela defesa da cidade, antes de se render às forças russas, o Batalhão Azov impôs uma feroz resistência aos invasores, ao sustentar uma posição de defesa no interior do complexo metalúrgico e siderúrgico de Azovstal. De acordo com Moscou, o Batalhão Azov era formado por combatentes de orientação nazifascista, e seus homens foram responsáveis por cometer uma série de crimes contra a população de origem russa, sendo seus líderes alvo prioritário da invasão.

**** Embora a mídia ocidental frequentemente retrate a invasão russa como uma agressão com pretensões expansionistas de Moscou, é importante ressaltar que o conjunto das forças ucranianas já estavam em conflito contra grupos de defesa russos, no leste do país, apoiados por Moscou, e que desde 2014 conflitos eram comuns, com os ucranianos e não somente os russos, atacando e bombardeando cidades na região do Donbas e suas adjacências.  

***** Aqui enfatizamos a dinâmica espacial de des-re-territorialização na perspectiva de destruição e reconstrução do espaço urbano visando a propósitos políticos com usos militares. Ou seja, esse processo é enfocado na perspectiva da dinâmica espacial de deslocamento (forçado ou não) e organização do espaço urbano implícito ao urbicídio. Essa leitura está em sintonia com processos de des-re-territorialização, que implicam dinâmicas próprias de construção e desconstrução de territórios na perspectiva dos “aglomerados humanos de exclusão” descritos por Haesbaert — territórios marcados por relações de precariedade física e simbólica como os campos de refugiados. De toda forma, para um enfoque mais amplo recomenda-se a leitura de seus trabalhos de 2007, 2009 e 2014.

****** Sobre a batalha entre russos e ucranianos por Mariupol, vale a pena conferir as produções mencionadas a seguir: “A batalha de Mariupol: quais os reais objetivos de Putin?”; “Guerra na Ucrânia – boletim #12 – o cerco de Mariupol”; “Como a Rússia venceu a sangrenta batalha por Mariupol”; “O fim da batalha de Mariupol”; e “Siege of Mariupol – animated analysis”, que, por fim, oferece uma interessante análise espacial das operações militares e combates na cidade. 

******* Consultar também a publicação digital multimídia “Beneath the rubble: documenting devastation and loss in Mariupol” (2024).

******** Embora Mariupol e outras cidades ocupadas pelas forças russas sejam formadas por população de maioria russa, preferimos o emprego da terminologia de cidades ucranianas com o propósito de mostrar que a cidade era antes da invasão russa administrada pela jurisdição do Estado ucraniano. Mesmo se considerarmos como concluída e legal a anexação dos territórios dos Oblasts de Donetsk, Lugansk, Zaporizhzhia e Kherson pela Rússia, questão que não deixa de ser controversa, mesmo após a realização dos referendos populares de 2022, é preferível, a título de redação do texto, ainda se referir às cidades ocupadas como territórios ucranianos.

********* Sobre a reconstrução da cidade de Mariupol, ver também: “Exército russo reconstrói edifícios em Mariupol e Volnovakha, na Ucrânia”; “Rússia quer entregar em setembro primeiras reconstruções em Mariupol”; “Ministério da Defesa da Rússia inspeciona trabalhos de reconstrução em Mariupol”; e “Brasileiro vê como Rússia está reconstruindo rapidamente cidade tomada”. 

********** K. Mezentsev e O. Mezentsev (2022) chamam a área de influência do entorno estratégico da Rússia de “Mundo Russo”.

Este artigo deve ser lido em complemento ao texto “Guerra urbana na Ucrânia”, publicado por Márcio J. Mendonça, no site A Terra é Redonda, em 17 de fevereiro de 2024. Link de acesso: https://aterraeredonda.com.br/guerra-urbana-na-ucrania/


Referências


ABUJIDI, N. Urbicide in Palestine: spaces of oppression and resilience. Nova York: Routledge, 2014.

COSTA, S. Sob administração russa, Mariupol volta a exibir símbolos soviéticos em monumentos. Opera Mundi. Brasil, 7 abr. 2024. Disponível em: <https://operamundi.uol.com.br/guerra-na-ucrania/agora-sob-ocupacao-russa-como-esta-a-cidade-de-mariupol/>. Acesso em: 9 jan. 2025.

Human Rights Watch. Beneath the rubble: documenting devastation and loss in Mariupol. Human Rights Watch, 2024. Disponível em: <https://www.hrw.org/feature/russia-ukraine-war-mariupol >. Acesso em: 9 jan. 2025.

______. “Our city was gone”: Russia’s devastation of Mariupol, Ukraine. Human Rights Watch, 2024. Disponível em: <https://www.hrw.org/sites/default/files/media_2024/02/ukraine0224web_0.pdf>. Acesso em: 9 jan. 2025.

HAESBAERT, R. Desterritorialização: entre as redes e os aglomerados de exclusão. In: CORRÊA, Roberto Lobato; GOMES, Paulo C. da Costa; CASTRO, Iná Elias de (Orgs.). Geografia: conceitos e temas. 12. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009, p. 165-205.

______. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

______. Viver no limite: território e multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

KONICZ, T. Ucrânia o “Grande Jogo”: a luta pelo poder entre o leste e o ocidente na crise global. Rio de Janeiro: Consequência Editora, 2022.

MENDONÇA, M. J. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Dialética, 2022.

MERGULHÃO, A; FERREIRA, L; ASSAD, P. Guerra na Ucrânia: entenda o primeiro ano do conflito em quatro mapas. O Globo. Brasil, 24 fev. 2023. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/02/guerra-na-ucrania-entenda-o-primeiro-ano-do-conflito-em-quatro-mapas.ghtml>. Acesso em: 11 jan. 2025.

MEZENTSEV, K.; MEZENTSEV, O. War and the city: Lessons from urbicide in Ukraine. . Czasopismo Geograficzne, v. 93, n. 3, p. 495-521, 2022.

SHARP, D. Urbicide and the arrangement of violence in Syria. In: SHARP, Deen; PANETTA, Claire (Orgs.). Beyond the square: urbanism and the Arab Uprisings. New York: Urban Research, 2016, p. 118-140.

SLYVKA, R. ZAKUTYNSKA, I. Spatial features of military urbicide in Ukraine. Acta Geographica Silesiana, v. 23, p. 97-109, 2016.

Guerra Híbrida no Irã

Prof. Dr. Márcio José Mendonça      A guerra híbrida, conforme explorada por Andrew Korybko em Guerras Híbridas: das revoluções coloridas ao...