quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Guerra Híbrida no Irã

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

    A guerra híbrida, conforme explorada por Andrew Korybko em Guerras Híbridas: das revoluções coloridas aos golpes, representa uma forma contemporânea de conflito em que estratégias tradicionais de guerra se combinam com meios não convencionais de influência política e social para desestabilizar Estados soberanos. Korybko argumenta que esse “novo” método, amplamente associado à ação dos Estados Unidos, integra revoluções coloridas — movimentos populares estimulados e instrumentalizados externamente — com técnicas de guerra assimétrica e de quarta geração, criando um “caos estruturado” que visa controlar ou substituir governos sem confrontos militares abertos. Sua análise ressalta ainda a importância das mídias sociais, propaganda e financiamento de atores internos como ferramentas centrais dessa dinâmica, que redefine o campo geopolítico no século XXI longe dos campos de batalha tradicionais.

    Os protestos recentes que eclodiram no Irã, impulsionados por uma combinação de fatores econômicos, insatisfação social e repressão estatal, ilustram como crises internas podem ser interpretadas através da lente da guerra híbrida, na qual atores externos e dinâmicas domésticas se entrelaçam de maneira complexa. Enquanto movimentos populares nas ruas reivindicam mudanças profundas no sistema econômico, o regime em Teerã classifica essas manifestações como resultados de interferências estrangeiras, especialmente de potências ocidentais, cujo objetivo seria desestabilizar o regime por meio de ferramentas de influência política, propaganda e apoio indireto a grupos dissidentes — elementos típicos das estratégias híbridas descritas por Korybko ao misturar causas internas com pressões externas de maneira a criar um “caos estruturado”.

    Dentro desse contexto, as táticas estatais e não estatais que se sobrepõem — como a censura e cortes de internet para controlar a narrativa, o uso de redes sociais para mobilizar protestos, e a acusação mútua de manipulação informacional, além do uso de violência para desestabilizar o país — revelam uma arena de disputa que vai além das ruas das cidades iranianas e alcança cenários geopolíticos mais amplos. A resposta muitas vezes violenta do governo e a repressão generalizada, que já resultou em milhares de presos políticos é reportada pelos Estados Unidos e no Ocidente, como ação de um governo opressor de uma ditadura teocrática, enquanto que mortes e tumultos causados por (supostos) agentes estrangeiros infiltrados no país, são negligenciados em prol de uma narrativa que procura rotular o governo iraniano como antidemocrático. Iraque, Líbia, Síria e agora o recente caso venezuelano com o sequestro do presidente Nicolás Maduro, fornecem exemplos da política de intervenção dos Estados Unidos em regiões de interesse estratégico, onde os norte-americanos desejam controlar recursos e fontes energéticas, entre outros objetivos da política estadunidense.

    Agora o Irã é o alvo da vez. Em junho de 2025, na chamada Guerra dos 12 dias entre Irã e Israel, mencionada por alguns analistas para descrever um período de escalada intensa de confrontos diretos e indiretos, evidencia a transição de um conflito historicamente encoberto para uma dinâmica mais aberta de confronto regional. Nesse intervalo, ataques pontuais, operações de retaliação, ações cibernéticas e disputas no campo discursivo revelaram características típicas da guerra híbrida, na qual instrumentos militares convencionais se combinam com inteligência, sabotagem, pressão diplomática e controle da informação. Mais do que um embate limitado no tempo, esse episódio simboliza o aprofundamento do confronto estratégico contra o Irã, a partir dos ataques dos Estados Unidos às usinas nucleares daquele país. Segundo análises geopolíticas, Washington teria priorizado estratégias indiretas — como sabotagens, ataques cibernéticos, pressão diplomática e sanções — com o objetivo de atrasar o programa nuclear do Irã sem desencadear um conflito aberto de grandes proporções. No entanto, aparentemente, a questão nuclear iraniana tornou-se um dos principais eixos da disputa estratégica no Oriente Médio, em que a coerção tecnológica, a dissuasão e o controle da narrativa internacional se combinam com ações diretas de intervenção militar, com os Estados Unidos ameaçando o governo iraniano de bombardeios, numa clara tentativa de derrubar o regime.

    Uma tarefa que provavelmente exigirá mais do que ações pontuais dos norte-americanos, diante da legitimidade e apoio popular ao regime, transformando o que começou como um protesto limitado de ordem econômica, em um levante social cujo os cenários de combate são o campo de batalha narrativo e político que se assemelha às características da guerra híbrida: uma luta que ocorre simultaneamente no plano interno e internacional, envolvendo coerção, informação e influência estratégica. Um verdadeiro tabuleiro geopolítico do Oriente Médio, no qual alianças, dissuasão e mensagens políticas são tão relevantes quanto os danos materiais produzidos no campo de batalha.

Referências:

Korybko, A. Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes. São Paulo: Expressão Popular, 2018.

Seyed M. Marandi: tumultos violentos e uma grande guerra a caminho. Glenn Diesen Português, no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=hiAszA-k2Ng&list=LL&index=2




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Batalha de Gaza: Israel vs Palestina (Lançamento e Divulgação)

Prof. Dr. Márcio José Mendonça

Israelenses e palestinos estão em conflito há várias décadas e, nos últimos anos, a experiência de guerra entre eles tem sido caracterizada por uma significativa evolução em estratégias e táticas voltadas para sua aplicação em terreno urbano, incluindo a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e o território libanês. Desde a invasão do Líbano, em 1982, após as pesadas baixas sofridas pelas Forças de Defesa de Israel (FDI), que combateram em cidades e aldeias palestinas, os combates entre Israel e a resistência árabe-palestina, que antes se desenvolviam em campo aberto (a exemplo dos conflitos de 1948, 1967 e 1973), passaram a ocorrer especialmente em cidades. Essa mudança do ambiente de batalha, do campo aberto para as cidades, foi então compreendida como parte do processo de urbanização da guerra, em que forças de libertação nacional, com menor capacidade militar frente a exércitos convencionais bem equipados, entrincheiram-se nas cidades, passando a usar o espaço urbano como abrigo e campo de batalha.

Com ênfase na guerra em ambiente urbano, este livro aborda os meios militares empregados na guerra entre Israel e grupos armados palestinos, deflagrada em 7 de outubro de 2023, após o Hamas romper o bloqueio de Gaza e realizar uma operação militar em território ocupado por Israel. Por causa do ataque palestino, Israel respondeu severamente com bombardeiros e ação terrestre, escalando o conflito na medida em que os principais combates se desenvolviam essencialmente no cenário urbano da Faixa de Gaza. Na perspectiva em análise, ao levar em consideração as diferentes manifestações do conflito, o livro objetiva caracterizar as variáveis táticas de combate empregadas por Israel e pelos grupos palestinos, com o propósito de compreender as dinâmicas socioespaciais implicadas no conflito e as formas como diferentes táticas e concepções de combate urbano foram empregadas no terreno e configuraram o cenário do espaço de batalha na Faixa de Gaza.

Embora considere as principais ações militares no terreno e apresente um enfoque do cenário geopolítico como pano de fundo de debate do livro, dando conta dos dois últimos anos de conflito entre israelenses e palestinos – de 7 de outubro de 2023 ao avanço de uma nova fase de negociações com a implementação de um segundo acordo de cessar-fogo, em vigor desde 10 de outubro de 2025, o livro propõe uma análise espacial fundada em uma investigação das trajetórias e dinâmicas socioespaciais (e territoriais) dos grupos armados palestinos contra as forças israelenses, na Faixa de Gaza, com foco mais detido nos acontecimentos de 7 de outubro de 2023 ao cabo da assinatura do primeiro acordo de cessar-fogo entre o Hamas e o governo de Israel, em 19 de janeiro de 2025.

Ao longo de dois anos de conflito, embora o número de baixas seja difícil de calcular e impreciso diante de várias variáveis, do lado palestino estimativas mais conservadoras de pesquisadores internacionais e agências ligadas às Nações Unidas contabilizavam, em outubro de 2025, mais de 80 mil mortes entre civis e combatentes, podendo este número superar facilmente 100 mil baixas, em virtude dos registros falhos, de novas “descobertas” ou de consequências da guerra difíceis de mensurar no momento. No geral, além das baixas humanas, que incluem expressivo número de não-combatentes mortos ou desaparecidos, sobretudo mulheres e crianças palestinas, o conflito deixou um saldo material de destruição do território da Faixa de Gaza que acumula de 85 mil a 92 mil toneladas de destroços. De acordo com Ualid Rabah, a destruição em Gaza atinge 80% da infraestrutura, contabilizando cerca de 192 mil edifícios destruídos, o equivalente a “quatro ou cinco vezes a cidade de São Paulo completamente arrasada”.

Ao centrar sua abordagem na dinâmica espacial e nas formas e táticas de combate em ambiente urbano, a perspectiva focalizada ao longo do livro visa oferecer uma análise do teatro de combate e das operações militares entre as forças israelenses e a resistência palestina baseada no espaço urbano da Faixa de Gaza. Por isso, o livro, além de analisar as ações no campo de batalha e o modo operante de agressão israelense, concede enfoque privilegiado, também, nas ações e no modo de organização da resistência palestina. Por este viés, o livro investiga a dinâmica espacial de combate em ambiente urbano, fundamentando-se na concepção de urbanização do espaço de batalha como forma de organização do campo de batalha. Assim, ao demonstrar a destruição do espaço urbano como forma de transformar o espaço por meio de ações e técnicas combinadas de guerra, o trabalho coloca em evidência como o método do urbicídio é empregado pelas forças israelenses para alcançar objetivos militares no campo de batalha. Em contrapartida, o livro mostra também como os grupos armados palestinos, em especial o Hamas, baseiam suas ações em táticas de combate urbano descentralizadas a partir do uso de uma rede de túneis e ações de emboscadas e ataques-surpresa como forma de resistência armada.

 

Link de vendas: Clique aqui




 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Da Venezuela ao Brasil, fim da soberania na América Latina

Prof. Dr. Márcio José Mendonça 

A ideia de uma intervenção militar estadunidense na Venezuela com o sequestro de Nicolás Maduro costuma aparecer no debate político mais como hipótese ou narrativa geopolítica do que como fato consumado, mas agora, ela é reveladora de um padrão histórico de atuação externa dos Estados Unidos. Em nome da defesa da democracia, da segurança internacional ou da estabilidade regional, intervenções diretas ou indiretas são frequentemente justificadas por discursos morais que ocultam interesses estratégicos. Nesse sentido, a soberania nacional venezuelana aparece como elemento central do conflito: trata-se do direito de um Estado decidir seus próprios rumos políticos sem coerção militar ou econômica estrangeira.


O argumento do combate ao tráfico internacional de drogas na Venezuela insere-se nesse mesmo repertório discursivo. Assim como no Iraque, onde a retórica do combate ao terrorismo foi usada para legitimar uma invasão militar que resultou em destruição institucional e instabilidade prolongada, a criminalização de um governo passa a servir de base para a violação de sua soberania. O paralelo evidencia como ameaças globais reais — drogas e terrorismo — podem ser instrumentalizadas politicamente para justificar intervenções que extrapolam o direito internacional e enfraquecem a autodeterminação dos povos.


Essa lógica não se restringe à Venezuela ou ao Oriente Médio. Quando se observa o problema do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, frequentemente tratado com linguagem de guerra, percebe-se como a militarização do debate sobre segurança pública pode abrir espaço para soluções externas. Em um cenário de agravamento institucional ou fragilização política, a narrativa de que o Estado brasileiro seria incapaz de controlar seu território poderia, em tese, ser usada como pretexto para uma intervenção militar estrangeira, repetindo o padrão aplicado em outros países do Sul Global.


Nesse contexto, o enfraquecimento político do governo Lula ganha relevância geopolítica. Um governo fragilizado internamente tende a ter menor capacidade de resistir a pressões externas e de afirmar a soberania nacional em fóruns internacionais. A articulação entre Venezuela, Iraque e Brasil revela, portanto, um debate mais amplo: a defesa da soberania nacional frente a discursos securitários que, sob o pretexto de combater crimes transnacionais, podem legitimar intervenções que aprofundam a dependência, a instabilidade e a subordinação dos Estados periféricos no sistema internacional.


A neutralidade (para não dizer acovardamento) defendida pelo governo Lula nas disputas internacionais, em particular na questão da Venezuela, baseada no diálogo diplomático e no respeito à soberania dos Estados, insere o Brasil em uma posição de pouca relevância do debate político diante de conflitos e na intervenção estadunidense na Venezuela. Contudo, em uma leitura geopolítica crítica, essa postura pode ser vista como insuficiente para conter a lógica intervencionista que, historicamente, utiliza argumentos de segurança, combate ao crime transnacional ou defesa da ordem para legitimar ações militares externas. Nesse sentido, a Venezuela aparece como exemplo imediato desse padrão, enquanto o Brasil, diante de crises internas e da militarização de temas como segurança pública, poderia ser retoricamente enquadrado como um “próximo alvo” em cenários hipotéticos, reacendendo o debate sobre a necessidade de fortalecimento da soberania nacional e da autonomia regional.


Cuidado Lula, você abandonou Maduro. Logo a banana da vez pode ser você! 





Guerra Híbrida no Irã

Prof. Dr. Márcio José Mendonça      A guerra híbrida, conforme explorada por Andrew Korybko em Guerras Híbridas: das revoluções coloridas ao...