Prof. Dr. Márcio José Mendonça
Com a dronificação do espaço de batalha em
diferentes cenários, os drones militares e de uso civil adaptados para combate,
estão sendo cada vez mais empregados em ambiente urbano na Ucrânia, na Faixa de
Gaza e em muitos outros lugares, em situações de guerra, mas também, como Ian
Shaw (2016) observou, doravante, em ações de vigilância e policiamento
ostensivo de significativos contingentes de população excedente que vivem em
áreas urbanas e nas grandes metrópoles do planeta.
Embora os drones militares e sistemas de
vigilância dronificados tenham sido primeiro implantados em espaços periféricos
do planeta, em áreas tribais do Paquistão, Iêmen, Somália, Afeganistão e nos
territórios palestinos ocupados, em suma territórios de disputa colonial, o seu
uso é cada vez mais recorrente nos grandes centros urbanos com o propósito de
controlar a população excedente do capitalismo. Um número cada vez maior de
trabalhadores descartados do sistema de acumulação, são então, alvos das
técnicas capitalistas contemporâneas de controle e vigilância aplicadas de cima
para baixo, verticalmente no espaço, como parte de um programa de securitização
da vida, que Ian Shaw (2016) chamou de “dronificação da violência estatal”.
Contudo, a dronificação e implantação de
sistemas de vigilância e securitização da vida, não é restrita as ações do
Estado e do policiamento ostensivo, comum em grandes centros urbanos do planeta. Em
megacidades do Sul Global, como o Rio de Janeiro, traficantes de drogas já
operam drones com propósitos de monitorar e vigiar a ação de grupos rivais ou
da própria polícia no território controlado pelas facções. A nova fase de dronificação
dos mecanismos de securitização conduzida por grupos ilegais vai além da
simples e pura gestão da pobreza excedente por meio da intervenção estatal.
Agora grupos de traficantes de drogas no Rio de Janeiro participam também da
guerra urbana por meio do uso de recursos aéreos, acessando e controlando
aeronaves não tripuladas. No Rio de Janeiro, essas facções usam drones
adaptados para uso militar, por meio do qual vigiam a ação da polícia e de
grupos rivais enquanto patrulham ruas e becos de favelas da cidade.
O baixo custo e a facilidade operacional dos drones, expandiu as fronteiras de uso dos drones militares dos campos de batalha no Leste Europeu e do Oriente Média ao espaço urbano do Sul Global. Dessa forma, os drones estão a povoar todas as esferas da vida e a constituir um importante mecanismo atmosférico de violência e vigilância vertical, que ao aplicar uma política de guerra e de segurança de cima para baixo, produzem efeitos cada vez mais sensíveis na vida daquelas pessoas que vivem em espaços segregados e de grande insegurança, comuns em favelas do Rio de Janeiro, onde seus moradores agora também estão sujeitos a ação violenta de drones controlados por grupos criminosos que sobrevoam sobre suas cabeças.
* O texto acima consiste em um trecho adaptado
do livro em desenvolvimento, “Guerra dos
Drones: análise e perspectiva do campo de batalha”, escrito por Márcio José
Mendonça, em etapa de conclusão. O artigo foi fundamentado na reportagem do
Fantástico: “Investigação mostra como militar da Marinha ajudou facção a armar
drones no Rio de Janeiro”, exibida em 22 de setembro e disponível no portal do G1 através do acesso ao seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=yv8ZFOHYDFI&list=WL&index=438
Fonte: SHAW, Ian
G.R. The urbanization of drone warfare: policing surplus populations in the
dronepolis. Geographia Helvetica, v.
71, p.19-28, 2016.
