domingo, 9 de fevereiro de 2025

Urbicídio por escavadeira na Palestina

 Prof. Dr. Márcio José Mendonça

O conflito israelo-palestino é certamente revelador de uma política de guerra em que se visa, como alvo, a urbanidade, ou seja, a própria cidade ou o espaço urbano, considerada a estrutura urbana como um todo. Ademais, a guerra entre palestinos e israelenses ocorre em termos de uma política de violência típica do urbicídio, em que ambos os lados estão atacando os espaços da vida urbana cotidiana com armas para interromper ou destruir a urbanidade sobre a qual se apoia a vida do inimigo. Israel, contudo, possui considerável superioridade bélica, sendo capaz de provocar o que Stephen Graham (2004a) chamou de “desmodernização forçada” da sociedade urbana palestina, isto é, uma forma de regressão econômica e social baseada na destruição da estrutura urbana.

Diante do novo cenário de combate em ambiente urbano, após pesadas baixas na década de 1980 no conflito urbano no Líbano, quando suas tropas foram alvo de atiradores e emboscadas, Israel reorientou a sua política de guerra colocando na mira a infraestrutura social da qual depende a sociedade palestina e a qual os combatentes utilizam como abrigo. Por conta da experiência desastrosa no Líbano, Ariel Sharon adotou uma estratégia direta sustentada por uma política de demolição de bairros inteiros pela FDI na primavera de 2002 com o objetivo de compelir os palestinos a um quadro de miséria e pobreza, destruindo milhares de casas. Em sentido estratégico, compreende-se que essa destruição é parte de uma política tridimensional, que consiste em configurar o território para abrir espaço para operações das tropas israelenses e permitir a expansão territorial de Israel, deslocando palestinos forçadamente, enquanto modela o território para controlá-lo de maneira mais eficaz (ver Graham 2004a; Weizman 2002, 2004, 2012; Abujidi 2014). Em Gaza, este método foi intensamente empregado por Benjamin Netanyahu, com uso de bombardeios e incursões de veículos blindados e escavadeiras para nivelar o terreno e impedir o uso da estrutura urbana não só como meio de experiência de vida coletiva, mas também como abrigo da resistência palestina.

Este método consiste numa tática de combate urbano baseado fundamental no uso de escavadeiras blindadas das FDI, conhecidas como Caterpillar D9, concebidas para destruir áreas palestinas construídas, removendo estradas e calçamentos de ruas, redes de energia elétrica e água, além de habitações, entre outros alvos visados. Como enalteceu um condutor da escavadeira ao derrubar uma casa palestina, sua ação estaria enterrando 40 ou 50 pessoas por gerações (Graham, 2004b). Declaração ainda mais surpreende foi feita pelo soldado e rabino Avraham Zerbib, que serviu no exército de Israel durante a invasão de Gaza. Em uma entrevista ao Canal 14 de uma emissora de TV israelense, Zerbib se vangloria de crimes de guerra que cometeu em Gaza e enquanto é indagado pelo entrevistador de seus feitos, recebe aplausos da plateia presente no programa. Sem embaraço o condutor da escavadeira afirma:

Em média, eu destruía 50 casas por semana. [...]. Estou falando de prédios inteiros. [...] Em Rafah, eles não têm nada para onde voltar. E em Jabalia, eles não têm nada para onde voltar. Não existe mais Jabalia, foi tudo destruído. Tudo, prédio atrás de prédio. Beit Hanoun e Beit Lahia, perdemos a oportunidade. Destruímos metade. O acordo [de cessar-fogo] veio quando estávamos quase lá. Por sinal, estávamos nos arredores, como você viu nos vídeos, Beit Hanoun e Beit Lahia. Eu disse ao oficial que tocaria uma melodia com a escavadeira D9. Você sabe como é a sensação de destruir um prédio de 7, 6, 5 andares? Eles têm milhares de mortos que os cachorros e gatos comeram porque ninguém recolheu [os corpos]. O que está acontecendo lá não pode ser descrito em palavras. [...] E eu espero que esse não seja o final. Hoje nós vimos como eles saíram e ainda temos muito trabalho a fazer. Mas... eles estão voltando para o nada, nada. Dezenas de milhares de famílias que não têm mais documentos, fotos de infância ou identidades. Eles não têm nada, nada, sem casa, nada. Eles não vão saber onde era a cada deles.*

Em vista disso, ao destruir casas palestinas, a ação de Israel não configuraria uma ação para atender um objetivo militar legítimo, mas, em espectro amplo, no tempo e no espaço, uma estratégia demográfica calculada para expulsar e impedir o retorno de palestinos ao território ao causar precariedade urbana e desestruturação do ambiente de forma a tornar inviável a manutenção da vida moderna no território pelo processo de desmodernização aplicado (ver Weizman 2002, 2004, 2012; Graham 2004b; Abujidi 2014).

De fato, destruir qualquer possibilidade de um futuro Estado Palestino, aniquilando a sua infraestrutura urbana e os seus símbolos culturais da paisagem, consiste em uma estratégia antiga da geopolítica de Israel para impedir a rápida urbanização palestina e seu crescimento demográfico dentro de Israel e nos Territórios Ocupados, o que poderia alterar o equilíbrio demográfico na região a favor dos palestinos (Graham, 2004b). Esse foi, inclusive, o “alerta vermelho” de Arnon Soffer, conceituado demógrafo israelense, em 2001. Segundo ele, o futuro do Estado de Israel estaria ameaçado a longo prazo pelo crescimento das cidades e aldeias palestinas. Para Soffer, o crescimento urbano proporcionado pelos palestinos configuraria uma importante mudança urbano-demográfica em desfavor dos israelenses. Graham cita os argumentos de Soffer, que faz menção à fabricação de uma ficção, de uma suposta “ameaça existencial”, talvez se referindo à ideia de um segundo Holocausto, se o crescimento populacional e processo de urbanização palestino continuasse:


O processo de urbanização em torno das fronteiras de Israel vai resultar em uma grande população árabe, que sofre com a pobreza e a fome, em torno do Estado judeu. Essas áreas tendem a se tornar um terreno fértil para a evolução de movimentos radicais Islâmicos... Na zona árabe o processo leva a uma urbanização de natureza selvagem, decorrente da ausência de uma política de planejamento e, em particular, a falta de fiscalização e aplicação da lei de construção. Todo mundo constrói como entende, e o resultado é centenas de vilarejos ilegais espalhados em todas as direções (Soffer, 2001 apud Graham, 2004b, p. 203, tradução livre). 

Apropriando-se dessa lógica, Efraim Eitam, general aposentado das FDI, concebeu os Territórios Ocupados como uma “bomba relógio demográfica e social” que a qualquer momento poderia explodir sobre Israel. Valendo-se disso, Eitam enfatizou que a construção espontânea de moradias palestinas seria um tumor cancerígeno destruindo o Estado de Israel, e que áreas urbanas e edifícios devem ser tratados, enfaticamente, como armas. Afirmações tais como as de Soffer e Eitam têm por intuito retratar áreas urbanas palestinas como territórios incognoscíveis, que abrigam “ninhos de terroristas” (Graham, 2004b).

Sendo ato deliberado para atingir objetivos políticos, ao retratar os palestinos como terroristas, Israel formula importante aspecto de legitimação de seus ataques com o propósito de alcançar o máximo de destruição e de atingir áreas civis palestinas, em que cabe o uso de linguagem de negação do “outro” e a identificação da urbanidade/espacialidade palestina como território inimigo a partir de intensa retórica de “desumanização” e “demonização”. Além das sucessivas intervenções militares e expansão dos assentamentos israelenses na Palestina, são exemplos de intensa propaganda para legitimar tanto o ataque quanto a destruição do lugar/espaço do inimigo, a campanha dos Estados Unidos de “Guerra ao Terror” que incorreram na invasão do Afeganistão e do Iraque ou mesmo as ações violentas de intervenção militar em favelas e espaços segregados do Rio de Janeiro legitimadas pelo discurso de “Guerra às Drogas”. Em todos os casos, independentemente de serem combatentes ou civis, as vítimas são retratadas como terroristas ou bandidos e o seu espaço social qualificado como ambiente perigoso ou hostil (ver com mais detalhes Abujidi, 2014; e Mendonça, 2022).

Figura

Escavadeira israelense usada como arma de guerra trabalha na destruição de edificações na Faixa de Gaza.

Fonte: desconhecida.


Referências:

ABUJIDI, N. Urbicide in Palestine: spaces of oppression and resilience. Nova York: Routledge, 2014.

GRAHAM, S. Cities as strategic sites: places annihilation and urban geopolitics In: GRAHAM, S. (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004a. p. 31-53.

GRAHAM, S. Constructing urbicide by bulldozer in the occupied territories. In: ____. Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2004b. p. 192-213.

MENDONÇA, M. J. Espaço de batalha e urbicídio na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Dialética, 2022.

WEIZMAN, E. Hollow land: Israel’s architecture of occupation. Nova York: Verso, 2012.

WEIZMAN, E. Strategic points, flexible lines, tense surfaces, and political volumes: Ariel Sharon and the geometry of occupation. In: GRAHAM, S. (Org.). Cities, war and terrorism: towards an urban geopolitics. Oxford: Blackwell Publishing Ltd, 2004. p. 172-191.

WEIZMAN, E. The politics of verticality. Open Democracy. Londres, Inglaterra, texto de 11 partes disponibilizado entre 23 de abril e 1º de maio de 2002. Disponível em: <http://www.opendemocracy.net/>. Acesso em: 26 de mar. 2014.

 

*Entrevista de Avraham Zerbib com legenda em português publicada na página do Instagram da Federação Árabe-Palestina no Brasil (FEPAL), 22 de janeiro de 2025. Disponível em: <https://www.instagram.com/reel/DFJPf0AOqDI/?igsh=cGtqcWkyYW5scHBj>.



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