Prof. Dr. Márcio José Mendonça
O uso de celulares por combatentes no
campo de batalha na guerra da Ucrânia mostrou ao mundo como os telefones móveis
estão sendo gradualmente integrados aos sistemas de guerra moderno. O emprego de
telefones móveis em operações militares, incentivou uma ampla gama de inovações
tecnológicas e improvisos criativos feitos por combatentes, que ao serem
amplamente utilizados por soldados e anônimos que vivenciam a guerra, in loco, tornaram evidente como a
midiatização da guerra por meio dos telefones móveis estão organizando
narrativas e experiências vividas nos campos de batalhas na era moderna das
redes sociais.
No início da Guerra da Ucrânia chamou a atenção o fato dos telefones móveis serem amplamente usados com propósitos de espetacularização da guerra. A midiatização da guerra com uso, inclusive, de entretenimento, foi amplamente feita pelos soldados chechenos de Ramzan Kadyrov, chefe da República da Chechênia e aliado direto de Vladimir Putin, que usaram dos seus telefones móveis pessoais para divulgar nas redes sociais, em especial no TikTok, uma série de vídeos promocionais de suas ações no campo de batalha na Ucrânia com fins de propaganda militar em conformidade aos interesses de Moscou. O uso extensivo dos celulares em vídeos promocionais provocou inclusive comentários negativos de blogueiros pró-Ucrânia, ao evidenciar possíveis montagens feitas por Kadyrov e seus homens, tratando-se então de falsificações, já que em algumas imagens, eles atiravam a esmo em ruas e prédios, sem a presença de combatentes ucranianos. Por conta dessas ações e uso sistemático das redes sociais, os soldados chechenos foram apelidados (embora os ucranianos também o façam) na internet (“e a internet não perdoa, dizem os internautas”) de “soldados TikTok”.
Além do uso do telefone móvel para fins de propaganda militar, os celulares são usados em escutas telefônicas, ataques contra alvos, mapeamento de campos minados e uma variedade de propósitos pessoais. Nesse âmbito, é comum que soldados usem seus equipamentos pessoais para realizar tarefas de uso militar. Assim, um único equipamento pode desempenhar dupla função, de uso pessoal do soldado e de comunicação de combate, com a finalidade de preencher as lacunas de informação e comunicação da infraestrutura militar. De apenas um aparelho de celular um combatente pode acessar dados de geolocalização sensíveis e controlar ações de ataque ou monitoramento por meio do emprego de drones. Um exemplo claro, de combinação de usos civis e com propósitos de guerra tecnológico com uso dos telefones móveis.
Outro evidente caso de imbricação entre os meios de uso civil do celular com
propósitos militares, foram observados com soldados da Força de Defesa de
Israel, que procuraram informação em grupos de redes sociais como o Telegram e outros meios digitais, por
meio dos seus celulares pessoais, logo após os ataques efetuados pelo Hamas, em
7 de outubro de 2023, com o intuito de obter informações e a localização dos
combatentes palestinos que haviam cruzado o muro de separação e invadido os
territórios ocupados por Israel, naquela ocasião. Para Horbyk (2022), o uso do
celular integrado ao engajamento de meios militares, é um evidente exemplo de
guerra híbrida, uma vez que, no campo de batalha, a guerra moderna é travada em
parte como uso de ferramentas civis e de uso privado de forma combinada aos
meios militares como instrumento de guerra digital e tecnológica.
No conflito entre Israel e os palestinos, ambos os lados, estão usando do celular com fins de propaganda e como sistemas integrados aos equipamentos militares na guerra urbana na Faixa de Gaza. Nesse conflito, gravações de vídeos feitos por combatentes, por meio de celulares, referindo-se diretamente do campo de batalha, são repercutidas na internet em inúmeras redes sociais, permitindo dessa forma o acompanhamento (quase) em tempo real das operações militares no campo de batalha. A difusão e ampla repercussão de vídeos de ataques contra civis e equipamentos urbanos referidos diretamente da Faixa de Gaza, estão sendo chamados, em particular, por Ualid Rabah*, de “primeiro genocídio televisionado da história”. Em virtude da amplitude da destruição e alto número de morte de civis palestinos no conflito, vídeos de crianças e mulheres atingidos por bombas e ataques indiscriminados são propagados e repercutidos na internet por meio de telefones móveis, sendo agora de conhecimento público, inclusive das autoridades das Nações Unidas, que pouco fazem, nesse campo, para garantir a proteção dos civis naquele conflito.
Ademais, além dos casos verificados no exterior, importa ressaltar que o uso de celulares na cobertura e repercussão de conflitos militares, não é, entretanto, exclusivo das guerras na Ucrânia ou na Palestina. Em grandes metrópoles e cenários extremamente urbanizados como o Rio de Janeiro, que não vivenciam uma guerra convencional ou conflito de alta intensidade, mas ainda assim, são marcados pela violência, medo e in-segurança urbana, uma espécie de “clima de guerra civil”, entre disputas de diferentes grupos armados, oferecem também registros audiovisuais notáveis capturados por telefones móveis que são repercutidos na internet por civis que vivem nessas localidades ou por forças armados envolvidas diretamente nos combates.
Um
caso espetacular, também recente, foi registrado por um morador do Complexo da
Penha, no Rio de Janeiro, em abril de 2024, que da janela de sua casa flagrou intenso
tiroteio entre traficantes e policiais, com emprego do helicóptero militar da
polícia contra as posições dos traficantes. Por tratar-se de área densamente povoada, por dano colateral, obviamente
também, os ataques são contra as casas, ruas e becos das demais edificações da favela, espaços
e ambientes da vida cotidiana de muitos que ali vivem e transitam diariamente. Mesmo
assim, no vídeo, em tom tranquilo e apaziguador o morador diz: “Se alguém for
descer para comprar pão, traz dois reais de pão para mim e três de mortadela
para mim, por favor”**. Um retrato ilustrativo da banalização da violência em espaços
segregados da cidade do Rio de Janeiro, em que a violência e ação de grupos armados,
fazem parte do cotidiano de milhares de pessoas à mercê da violência de
traficantes, grupos milicianos e das forças de repressão do Estado.
De todas as maneiras, seja na Ucrânia, Palestina ou Rio de Janeiro, guardadas todas as diferenças, proporções e múltiplas relações ou variáveis, o uso de celulares por combatentes e civis têm permitido uma maior cobertura e compreensão situacional no campo de batalha, sendo recurso na guerra moderna indispensável, seja como elemento do ponto de vista da guerra eletrônica ou como equipamento de espetacularização da guerra. Embora os efeitos da midiatização da guerra e mudanças no campo de batalha, bem como, os novos efeitos psicológicos em civis e combatentes, com a introdução dos telefones moveis, em áreas de conflito, ainda demande mais trabalhos sobre o tema. O relevante ensaio feito por Horbyk (2022), com foco na Guerra da Ucrânia, além do nosso trabalho publicado recentemente sobre a guerra na Faixa de Gaza (Mendonça, 2024), fornecem um debate preliminar e talvez um caminho para trabalhos posteriores de maior vulto.
* Presidente da FEPAL - Federação Árabe Palestina do Brasil.
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Vídeo disponível no Portal Mídia / TV Mídia
no Youtube (26 de abril de 2024): https://www.youtube.com/watch?v=F6zSVQ20nsg
Fontes:
HORBYK, Roman.
“The war phone”: mobile communication on the frontline in Eastern Ukraine. Digital War, v. 3, s/p, dezembro. 2022. Link de
acesso: https://www.researchgate.net/publication/364620136_The_war_phone_mobile_communication_on_the_frontline_in_Eastern_Ukraine
MENDONÇA, Márcio José. Guerra Urbana em Gaza: 100 dias de combate entre Israel e Palestina. Ensaios de Geografia. v. 11, nº 24, p.1-30, 2024. Link de acesso: https://periodicos.uff.br/ensaios_posgeo/article/view/61784

